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Saturday, October 3, 2026

Terra pode ter se 'inclinado' rapidamente na Era dos Dinossauros

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O fato de vivermos num planeta maravilhosamente esquisito, que ainda estamos muito longe de compreender de todo, deveria ser fonte perene de consolo e deleite mesmo em tempos tão bicudos quanto os nossos. Eis um exemplo: a posição exata dos polos Norte e Sul em relação aos oceanos e continentes pode simplesmente mudar conforme transcorrem milhões de anos.

O que não estava claro ainda é se essa mudança tem possibilidade de acontecer rápido –para os padrões geológicos, bem entendido. A resposta que veio de um estudo publicado na semana que passou é "provavelmente sim" –e pelo menos duas vezes, ainda por cima, apenas durante a Era dos Dinossauros. Imagine a bagunça na cabeça dos pobres bichos (por sorte, não havia geólogos entre eles).

O fenômeno a que me refiro, investigado em artigo na revista Science, não é a mesma coisa que a inversão do campo magnético da Terra, que afeta a direção em que apontariam as agulhas de uma bússola. Esse tipo de inversão é bem conhecido, sendo usado, inclusive, por arqueólogos e paleoantropólogos na periodização da evolução humana, por exemplo.

Em vez dessa mudança, estamos falando do que é designado pela sigla inglesa TPW (algo como "deslocamento polar verdadeiro"). Recorde que a Terra está sempre girando em torno de seu eixo, com uma inclinação que às vezes varia ou oscila, como o bamboleio de um pião. As pontas desse eixo são os polos Norte e Sul.

No entanto, os processos que alteram a distribuição da massa sólida da Terra, como o vaivém dos continentes e o vulcanismo, podem fazer com que a parte rochosa do planeta se concentre de forma tão desigual que precisa se reacomodar. É aí que um TPW pode acontecer.

Na nova pesquisa, a equipe liderada por Mathew Domeier, da Universidade de Oslo, formulou um método engenhoso para medir possíveis episódios do fenômeno. Em vez de estudar as propriedades magnéticas das rochas, abordagem mais comum entre os geólogos, eles resolveram levar em conta antiquíssimas variações no nível dos oceanos.

O motivo para essa escolha é engenhosamente simples. A combinação entre a dureza da litosfera (a camada superior do planeta) e a viscosidade do manto, logo abaixo dela, fazem com que a reorganização da superfície do planeta não apareça com tanta clareza nas rochas. Mas as águas do oceano reagem à mudança de forma que, na prática, é instantânea.

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Para ser mais exato, em lugares que acabam se afastando da área do Equador correspondente ao centro da rotação da Terra, o mar recua; nos locais que ficam mais perto do Equador, o mar avança. E tudo isso pode deixar marcas nas camadas de rocha que forem analisadas milhões de anos depois.

Bem, levando tudo isso em conta, Domeier e seus colegas examinaram centenas de milhões de anos de registro geológico e perceberam que a assinatura de eventos intensos de TPW é particularmente clara durante a Era dos Dinossauros, especialmente na fronteira entre os períodos Jurássico e Cretáceo (grosso modo, há 140 milhões de anos) e no meio do Cretáceo (entre 100 milhões e 90 milhões de anos atrás). Estamos falando de mudanças superiores a 1 grau na orientação da Terra ao longo de 1 milhão de anos.

O significado do fenômeno, se eles estiverem corretos? Eis a melhor parte: não sabemos. Mas é muito possível que mudanças significativas no clima e na biodiversidade estejam ligadas a ele. Aguardemos a continuidade do debate.

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