Onda de queimadas no Amazonas sufoca cidades, mobiliza força-tarefa e gera suspeita de ação criminosa
O avanço das chamas atinge terras ancestrais e ameaça comunidades tradicionais. "A terra pra gente é da onde a gente tira a caça, onde a gente faz o plantio, e também onde tá os nossos ancestrais enterrados, né? Ela tem um valor pra gente tanto material como também espiritual", afirma o tuxaua Ilair Mura, principal liderança da etnia na Aldeia São Félix, afetada pelo fogo. Ao falar sobre o surgimento de novos focos, ele relata a angústia dos moradores: "Ah, é medo, né? A gente fica com medo porque... A gente sabe que o pessoal já tá lá combatendo, né? Muita gente inalou fumaça. Tem gente aí que tá com crise de ansiedade, porque viu o fogo chegando muito próximo, né".
Desde o início do mês, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) registrou quase 10 mil focos de calor em toda a Amazônia. Para o Ministério do Meio Ambiente e o Ibama, a concentração atípica aponta para crimes ambientais.
"Praticamente todo incêndio florestal que está ocorrendo no estado do Amazonas é de origem humana. Alguém riscou o fogo, riscou o fósforo e ateou o fogo na floresta. As pessoas colocam fogo sem autorização para causar o desmatamento, para causar a degradação da floresta", alerta o presidente do Ibama, Jair Schmitt.
A constatação é reforçada pelas forças de segurança estaduais. "De acordo com os relatos que foram passados para a inteligência, nós afirmamos que mais de 95% desses cidadãos são criminosos. E aí também tem os relatos dos brigadistas. As pessoas chegavam e falavam: 'Olha, não adianta nada vocês combaterem aí. Quando vocês saírem, nós vamos tocar fogo de novo'", diz o secretário de Segurança Pública do Amazonas, coronel Anésio Brito de Paiva.
Dificuldade de acesso e combate no solo
A névoa de fuligem encobre a capital, Manaus, mas as cidades de Careiro da Várzea, Itacoatiara, Parintins e Autazes enfrentam a situação mais crítica. Para combater as chamas na mata de Autazes, brigadistas abrem picadas para alcançar a chamada "cabeça do fogo".
"Junto com os outros brigadistas que estão vindo aí, nós vamos esticar as mangueiras. Pra ver se chega até aqui. Pra fazer o resfriamento possível", explica o brigadista Juscelino, alertando que as chamas podem cruzar a estrada se não forem controladas. No apoio aéreo, aviões cargueiros e drones com câmeras termais identificam as coordenadas dos focos e despejam água nos locais de maior calor, enquanto helicópteros transportam equipes para áreas isoladas da floresta.
Mesmo com o transporte aéreo, a atuação exige esforço físico extremo. "A nossa dificuldade é só o deslocamento para chegar até o combate de incêndios florestais. A gente tem que vir por dentro da mata, abrindo caminho até chegar no ponto de combate", relata o brigadista Brandão. A toxicidade do ar é o principal obstáculo no terreno. "Você tá vendo a dificuldade aí do local, a poeira, a fumaça, muita fumaça. A logística é muito pesada para chegar até aqui", aponta William Barreto, supervisor de manejo. A brigadista Raimunda resume o maior desafio durante a contenção: "Respiração, no meio da fumaça. Até agora foi essa".
Impacto na saúde e praças desertas
Os danos das queimadas extrapolam a perda florestal e superlotam a rede pública de saúde. "Ao longo desses 10 dias, Autazes vem sofrendo consequências dessas queimadas e dos incêndios florestais que está ocorrendo em nosso município. O hospital de Autazes e as UBSs estão funcionando todas com a capacidade total de atendimento para que venham levar o atendimento a essas pessoas que estão passando por essas dificuldades respiratórias", afirma o secretário municipal de Meio Ambiente, Walter Pereira.
Na Unidade Básica de Saúde da comunidade indígena São Félix e no hospital central, a procura por socorro disparou. "Atendimento em relação a tosse, falta de ar, cansaço, é onde a gente está atuando mais agora", pontua o médico Luciano Bernardo Soares Matos. Moradores relatam noites em claro e mal-estar constante. "Tivemos um aumento bem expressivo, mais de 200% em relação ao mesmo período no mês passado. A gente tinha uma média de um a dois pacientes por dia relacionado a atendimentos respiratórios e agora a gente saltou para 9, 10", informa o secretário de Saúde de Autazes, Rainer Figueiredo.
Casos graves atingem bebês, como a sobrinha de três meses da professora Alessandra Pereira, levada ao pronto-socorro com febre e coriza: "Foi devido a uma febre por conta muito da fumaça que tá na cidade, que está ocasionando mal pra todo mundo. Ela tá fazendo inalação porque já amanheceu tossindo bastante". Para tentar amenizar o ar dentro de casa, famílias recorrem a umidificadores comprados em farmácias.
À noite, o cenário urbano lembra períodos de restrição sanitária. "Tá igual a época da Covid, fica em casa. As pessoas não querem sair por causa da fumaça. Porque fica complicada a situação, falta respiração, arde o olho", compara o comerciante Homero Pinheiro diante de praças vazias.
A escalada dos incêndios contrasta com dados positivos divulgados recentemente pelo Inpe, que apontaram os menores índices de desmatamento da série histórica na Amazônia entre agosto de 2024 e julho de 2025. Na região, o índice caiu mais de 70% nos últimos quatro anos, descendo de 11 mil quilômetros quadrados em 2022 para cerca de 3 mil quilômetros quadrados em 2025.
Entre cinzas e árvores calcinadas, a população tradicional lamenta as perdas irreversíveis na terra. "Você vê o solo desse aqui, onde você plantava, e vê que ele tá só cinza. Não tem mais matéria orgânica aqui, então só a sensação de impotência mesmo", desabafa o tuxaua Ilair. "Aqui é a nossa despensa, é aqui onde a gente vem pegar o alimento, né? A caça, a fruta... Muito triste mesmo, né? Um aperto no coração."
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