Com Neves desafinado, Governo tenta saída airosa para crise

O ministro da Administração Interna continua a ser apontado, mesmo dentro do Governo, como uma fonte de problemas. Primeiro, apareceu em público a decretar o fim dos acampamentos. A seguir, surgiu a dizer que só tinha visto uma bastonada, para logo depois se corrigir. Em terceiro lugar, e já depois de Luís Montenegro ter garantido no Parlamento que o Governo não tinha dado qualquer orientação política à polícia para carregar sobre os manifestantes, apareceu a assumir “responsabilidade política” pelos incidentes registados no Porto e em Lisboa.
Esta segunda-feira, novo embaraço: depois de conhecida a decisão do Tribunal Administrativo de Lisboa, o gabinete do Ministério da Administração Interna emitiu um comunicado a defender que aquele juízo se circunscrevia a “uma situação individual e concreta” — ou seja, apenas à tenda de Renata Cambra — e que continuava prevista a “possibilidade de intervenção das autoridades perante situações de perigo objetivo ou incumprimento das condições estabelecidas”.
A decisão da juíza Ana de Campos está a motivar diferentes leituras jurídicas, nuns casos mais literais, noutros menos. Acontece que a PSP, tutelada por Luís Neves, fez uma interpretação diferente da do ministro da Administração Interna: já depois de o Ministério da Administração Interna ter emitido o referido comunicado, Sérgio Soares, porta-voz daquela polícia, veio dizer que as autoridades vão admitir um “número simbólico e razoável de tendas” desde que os manifestantes permanecessem em silêncio. O próprio Carlos Moedas, presidente da Câmara Municipal de Lisboa, foi lesto a dizer que a ordem do Tribunal era para cumprir, sem mais considerandos.
Horas depois, na CNN Portugal, Hugo Soares, líder parlamentar e número dois de facto do PSD, fez uma leitura idêntica à de Luís Neves, defendendo que o Tribunal autorizou apenas a colocação de uma tenda por parte de Renata Cambra, e elogiou o ministro da Administração Interna. “É responsável pela reorganização do aeroporto de Lisboa, é também merecedor de crédito pelo sucesso que foi o combate aos incêndios, merecedor de crédito pelo combate à insegurança que há em Portugal, não vejo que seja imerecedor de crédito por manter a paz, a segurança e a democracia em Portugal.”
Apesar do peso político de Hugo Soares junto do primeiro-ministro, a opinião do líder parlamentar e secretário-geral do PSD está longe de ser unânime no partido e mesmo no Governo. Há quem considere que Luís Neves, a braços com uma crise de imagem e de popularidade, não está a ser capaz de lidar com as manifestações e com o escalar da tensão, arrastando o Executivo para situações cada vez mais delicadas do ponto de vista político.
“Está a tentar — ou tentou — utilizar isto como uma forma de recuperar alguma autoridade. Não correu bem e não está a correr bem”, lamenta um elemento do Executivo. “Está a ficar tudo muito acantonado. A prioridade deveria ser esvaziar a tensão e não continuar neste ciclo”, aponta outra fonte do Governo. António José Seguro já marcou o ministro — “O senhor primeiro-ministro sabe o que penso sobre o assunto”, chegou a dizer o Presidente da República. Luís Montenegro continua a segurar o seu ministro, apesar de tudo e apesar de Seguro. Resta saber até quando.
[Duarte Lima chega ao Brasil 45 horas antes de Rosalina Ribeiro ser assassinada. Tinha encontro marcado com a milionária no Rio de Janeiro mas aterra em Belo Horizonte. Na reconstituição dos movimentos dele, a polícia percebe que o advogado nunca usou o telemóvel pessoal no Brasil. Mas foram detetados contactos a partir de dois telefones portugueses e um suiço. Um deles liga várias vezes para a casa da milionária. Já pode ouvir o terceiro episódio de “As Sombras de Duarte Lima”, o novo Podcast Plus do Observador. Está disponível no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube.]
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