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Thursday, October 22, 2026

Call of Duty imagina Coreia do Norte invadindo o Sul, mas qual a chance de isso realmente acontecer?

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    • Author, Luís Barrucho
    • Role, Serviço Mundial da BBC
  • Published

  • Tempo de leitura: 9 min

O trailer da mais recente sequência da franquia de videogames Call of Duty começa mostrando jovens recrutas sul-coreanos no que parece ser uma patrulha de rotina.

Momentos depois, um ataque de mísseis da Coreia do Norte atinge o sul da península, reiniciando os combates entre os dois países - que firmaram um armistício em 1953.

O trailer de Modern Warfare 4 teve 22 milhões de visualizações no dia do seu lançamento, em maio. Ao todo, ele já foi visto 61 milhões de vezes e o lançamento está marcado para 23 de outubro.

Os críticos acusam o jogo de transformar um conflito não resolvido em entretenimento. Outros apreciam o fato de que ele seja contado do ponto de vista dos soldados sul-coreanos.

Mas será que a Coreia do Norte poderia realmente lançar o tipo de invasão mostrado no jogo?

Fotografia em preto e branco de uma refugiada carregando uma criança pequena nas costas, em frente a um tanque de guerra

Crédito, RV Spencer/Interim Archives/Getty Images

Legenda da foto, A Guerra da Coreia começou em 1950 e parou com um armistício em 1953

Isso já aconteceu no passado.

O final da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) levou à divisão da península coreana. E, cinco anos depois, no dia 25 de junho de 1950, o Norte invadiu o Sul, dando início à Guerra da Coreia (1950-1953).

A guerra foi mais do que um conflito regional. Ela foi uma batalha entre as superpotências da Guerra Fria (1947-1991).

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A Coreia do Norte fazia parte do bloco oriental, liderado pela União Soviética (1922-1991). E a Coreia do Sul era aliada dos Estados Unidos e dos demais países do Ocidente.

As forças do Norte avançaram rapidamente, capturando a capital sul-coreana, Seul, em três dias. E, em questão de semanas, elas já haviam deslocado as forças da Coreia do Sul e da ONU, lideradas pelos Estados Unidos, até um perímetro defensivo em volta da cidade portuária de Busan, no sudeste do país.

Mas o conflito se inverteu em favor do Sul em setembro de 1950, quando o general americano Douglas MacArthur (1880-1964) liderou um desembarque surpresa em Incheon, perto de Seul. A China entrou na guerra um mês depois.

Nos anos que se seguiram, os dois lados batalharam até chegarem a um sangrento impasse e à assinatura de um armistício, no dia 27 de julho de 1953.

O cessar-fogo suspendeu os combates, mas não foi um tratado de paz. A Coreia do Norte, a China e o Comando da ONU, liderado pelos Estados Unidos, assinaram o armistício, mas a Coreia do Sul se recusou.

O acordo definiu uma linha de cessar-fogo perto de onde estava a linha de frente, criando a zona desmilitarizada com 4 km de largura, que permanece até hoje sendo uma das fronteiras mais fortemente protegidas do mundo.

Mais de 70 anos depois, as duas Coreias permanecem tecnicamente em guerra. Houve vários confrontos em terra e no mar, mas os dois países evitaram o retorno ao estado de guerra total.

Pelo menos três milhões de pessoas morreram durante os combates, fazendo da Guerra da Coreia um dos conflitos mais mortais da era moderna.

Existem indicações de que a Coreia do Norte poderá invadir o Sul algum dia?

Imagem de 2 de fevereiro de 2026, publicada pela Agência Central Coreana de Notícias (KCNA) via KNS no dia seguinte, mostra o líder norte-coreano, Kim Jong-un, discursando com a bandeira da Coreia do Norte ao fundo

Crédito, Getty Images

Legenda da foto, Em 2024, o líder norte-coreano, Kim Jong-un, declarou ao Parlamento do seu país que a Coreia do Norte abandonou a reunificação como objetivo nacional

Após o armistício, a Coreia do Norte, através dos seus líderes anteriores, passou décadas reafirmando seu desejo de reunificar pacificamente a península, mas nos seus próprios termos.

A Constituição do país foi alterada e passou a descrever a Coreia do Sul como "adversário primário e invariavelmente o principal inimigo" do Norte. E destaca que os dois Estados devem ser tratados como separados e hostis.

Os Estados Unidos mantêm cerca de 28,5 mil soldados na Coreia do Sul, como parte da sua aliança com Seul.

Qual é a probabilidade de uma invasão?

O líder norte-coreano, Kim Jong-un, vestido com um longo casaco escuro, caminha ao lado de várias fileiras de pessoas uniformizadas que o saúdam durante uma grande reunião militar

Crédito, KCNA VIA KNS/AFP via Getty Images

Legenda da foto, A Coreia do Norte se declarou uma potência nuclear em 2022 e prometeu nunca renunciar às suas armas

Autoridades e especialistas militares ocidentais e sul-coreanos praticam jogos de guerra, exercícios militares e avaliações de inteligência há décadas. Seu objetivo é determinar a probabilidade de uma invasão e como ela poderia ocorrer.

Em 2023, a Comunidade de Inteligência dos Estados Unidos (um grupo de organizações e agências de inteligência federais americanas) publicou um relatório, afirmando que a Coreia do Norte provavelmente utilizaria seu crescente arsenal de mísseis balísticos e nucleares para exercer sua influência regional e como forma de dissuasão, não para lançar uma ofensiva em larga escala.

Markus Garlauskas é ex-oficial de Inteligência Nacional dos Estados Unidos para a Coreia do Norte. Agora, ele faz parte do centro de estudos Conselho do Atlântico, com sede na capital americana, Washington.

Ele afirmou que, se Pyongyang realmente atacasse seu vizinho do sul, provavelmente seria em "escala limitada", com mísseis e a ameaça de escalada nuclear.

Quadro comparando os exércitos da Coreia do Norte e do Sul. A Coreia do Norte detém mais soldados e tanques, peças de artilharia, lançadores de foguetes e submarinos. O país também possui armas nucleares e mísseis balísticos internacionais. Já a Coreia do Sul detém sistemas de defesa de mísseis e aeronaves mais avançadas.

Por que a invasão seria difícil?

Se a Coreia do Norte realmente tentasse invadir o Sul, especialistas afirmam que haveria diversos desafios.

Além das suas armas nucleares, a Coreia do Norte possui um exército muito maior do que o Sul. Estima-se que Pyongyang conte com 1,2 milhão de soldados, contra os 450 mil de Seul.

O Norte também detém mais tanques e peças de artilharia e um arsenal de mísseis maior que o Sul.

Ainda assim, "eu teria cautela ao menosprezar as vantagens da Coreia do Sul no poderio aéreo", afirma o professor Fyodor Tertitskiy, da Divisão de Estudos Internacionais da Universidade da Coreia, em Seul.

O exército da Coreia do Sul é considerado por muitos o quinto mais avançado do mundo. O orçamento de defesa estimado do país é de cerca de US$ 43 bilhões (R$ 216 bilhões), contra cerca de US$ 1,6 bilhão (R$ 8 bilhões) do Norte.

Na verdade, calcula-se que o orçamento de defesa da Coreia do Sul seja maior do que toda a economia norte-coreana.

A Coreia do Norte também conta com uma estrutura militar rígida e centralizada, projetada para evitar golpes contra o seu líder supremo, não para ser eficiente, segundo Tertitskiy.

Ele explica que, para isso, muitas decisões das unidades do Exército Popular Coreano exigem a aprovação de autoridades políticas ou de segurança.

Esta situação reduz a capacidade dos comandantes de agir de forma independente, em velocidade adequada para um cenário de batalhas, explica o professor.

Existe também a questão do envelhecimento dos equipamentos militares norte-coreanos.

A Coreia do Sul estimou em 2018 que o Norte possuía cerca de 810 aeronaves de combate, mas muitas delas são modelos da era soviética. Mesmo os mais modernos jatos de combate de Pyongyang, do modelo MiG-29, foram adquiridos décadas atrás, segundo Seul.

Mas analistas afirmam que a Coreia do Norte pode ter se beneficiado do envio de tropas para lutar ao lado das forças russas na guerra na Ucrânia.

Estima-se que 16 mil soldados norte-coreanos tenham participado da guerra na Ucrânia e que muitos deles tenham sido mortos ou feridos.

Mas os analistas destacam que os sobreviventes podem levar para casa experiências valiosas, como o uso de drones, um aspecto cada vez mais importante na guerra moderna.

Por que ainda seria difícil para o Sul se defender da Coreia do Norte?

Jato de combate da Força Aérea Sul-Coreana em exibição em um aeroporto, com seu cockpit aberto e um guarda uniformizado de pé ao fundo, atrás das barreiras de segurança

Crédito, SeongJoon Cho/Bloomberg via Getty Images

Legenda da foto, A Coreia do Sul detém claras vantagens no seu poderio aéreo e tecnologia militar, segundo especialistas, mas a Coreia do Norte possui armas nucleares e seu arsenal de mísseis é maior que o de Seul

Apesar de algumas das suas vantagens militares, a geografia sul-coreana ainda deixa o país vulnerável a ataques da Coreia do Norte, segundo especialistas.

Sua capital, Seul, fica apenas a 38-50 km ao sul da zona desmilitarizada e a área metropolitana da capital (que inclui a cidade metropolitana de Incheon e a província de Gyeonggi) abriga mais da metade da população do país.

Esta proximidade da fronteira, aliada ao poderio norte-coreano em termos de artilharia, foguetes, mísseis e drones, faz com que a capital sul-coreana seja "vulnerável e muito difícil de ser evacuada", avalia Tertitskiy.

A Coreia do Sul também enfrenta pressões demográficas de longo prazo, explica ele. O país tem uma das taxas de natalidade mais baixas do mundo, o que reduz o conjunto de recrutas com idade para o serviço militar.

Dados do Ministério da Defesa sul-coreano indicam que o número de soldados na ativa do país caiu de cerca de 563 mil, em 2019, para cerca de 450 mil, em 2025.

O que estaria em disputa?

Cópia de tela de jogo mostrando uma soldada coreana sob luz verde, com medalhas no uniforme

Crédito, Infinity Ward/Activision

Legenda da foto, A franquia de games Call of Duty é uma das mais bem sucedidas do mundo, com centenas de milhões de cópias vendidas ao longo das últimas duas décadas

Especialistas afirmam que as chances de um conflito de grandes proporções entre a Coreia do Norte e a do Sul são baixas. Mas, se acontecesse, haveria graves consequências.

Bruce Klingner foi analista da CIA e da Agência de Inteligência de Defesa. Agora, ele trabalha para o centro de estudos Fundação Maureen e Mike Mansfield, com sede em Washington.

Para ele, um ataque norte-coreano provavelmente levaria a uma "reação militar transnacional", que envolveria forças americanas. Isso, por sua vez, poderia atrair a China e a Rússia, que detêm seus próprios tratados militares com Pyongyang.

Fyodor Tertitskiy afirma que um eventual conflito entre o norte e o sul da península coreana ocasionaria "uma possibilidade real não só de guerra nuclear, mas também termonuclear".

As armas termonucleares, também conhecidas como bombas de hidrogênio, utilizam a fusão nuclear além da fissão. Por isso, elas são potencialmente muito mais potentes que as bombas atômicas lançadas sobre o Japão em 1945.

Mesmo sem armas nucleares, a destruição causada por uma eventual invasão norte-coreana poderia ser devastadora, segundo Klingner.

"A Coreia do Norte detém artilharia em massa destacada perto da zona desmilitarizada, que poderia ser disparada contra Seul sem se movimentar", afirma ele.

"Pyongyang também conta com centenas de milhares de mísseis e alguns deles podem se esquivar das defesas antimísseis aliadas."

Alguns criticaram a premissa do jogo Modern Warfare 4. Mas Tertitskiy não é um desses críticos. Ele mora em Seul e, como cidadão naturalizado, seria convocado para o exército em caso de uma guerra.

"Seja ele incorreto ou não, o jogo fará muitas pessoas pensarem na nossa península", conclui ele.

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