As mulheres devem temer o julgamento de Lindsay Clancy?

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Bom dia.
É sobre isto que vamos discutir no Contracorrente?
É exatamente sobre isto. Acho que temos mesmo de discutir estes assuntos. Eu tenho seguido com muita atenção os detalhes do julgamento, que depois foi suspenso, de Lindsay Clancy. Note-se que é uma enfermeira que matou os três filhos, coisa que ela nunca negou. E nós temos aqui, e vamos falar exatamente sobre a forma como foi instruído o processo e às vezes a forma como se faz a instrução dos processos condiciona muito aquilo que depois os tribunais podem determinar ou não e podem avaliar ou não, e estávamos a falar de um tribunal de júri. Há aqui muitas coisas a ter em conta. Se nós vemos uma mulher, ou boa parte do júri a considerar que uma mulher, porque estaria com uma depressão pós-parto, e isto também tem de ser discutido, porque durante quanto tempo é que uma mulher pode estar em depressão pós-parto? Tendo em conta a idade do filho mais novo. Há aqui se, entretanto, o tratamento que ela estava a fazer ou não era o adequado. Mas imaginemos o contrário. E a questão foi colocada, até por uma senadora republicana, se não estou em erro, e que é: se nós não julgamos uma mulher que assassinou os filhos porque está com uma depressão pós-parto, ou se não a condenamos, juridicamente falando, quer dizer que amanhã também podemos considerar incapazes as mulheres que estão com uma depressão pós-parto para tomarem conta dos seus filhos? Portanto, há várias perguntas a partir deste julgamento, e isto numa época em que muito se discute sobre as mulheres. Note-se que os ingleses tiveram de definir em tribunal que as mulheres existem. Nós há algum tempo, muito por causa do movimento woke, acabámos a ver enormes discussões sobre o que é uma mulher, se as mulheres são mulheres ou se são pessoas que menstruam, ou se são pessoas que amamentam. E portanto, curiosamente, estas discussões não se colocam em relação aos homens, porque também há transgéneros que querem ser homens. Mas nestas discussões os homens ficam sempre um bocadinho fora disto. Têm uma arte extraordinária. É como nas tarefas domésticas. E portanto, quando já é em tribunal que se tem que discutir o que é uma mulher, se as mulheres existem nesse sentido ou se são pessoas, temos de perceber que há aqui alguma coisa a discutir neste momento, alguma coisa que não era bem assim que nós esperávamos que tivesse corrido. Estou a falar das mulheres que viram, como é o caso da minha geração, que viu com muito entusiasmo as questões daquilo a que chamávamos a libertação da mulher. E realmente, das leis que nos discriminavam, podemos dizer que nos conseguimos libertar. Agora, temos sempre aqui aquilo que há muitos anos, há um século, penso eu, foi definido como a tragédia biológica da mulher, e que é quando voltamos com as hormonas, a princípio, para dizerem que somos diferentes, que somos especiais, que somos aquelas, que se fazemos alguma coisa que não é correta nem adequada, tem de se perceber, porque são as hormonas, mas depois há aquele dia em que as hormonas se viram contra nós e nos dizem que não podemos fazer isto ou aquilo por causa precisamente das hormonas. Por outro lado, temos também as hormonas como um extraordinário mercado, um mercado daquilo que também é muito o corpo das mulheres. O corpo das mulheres é um corpo medicalizado. Nós, por razões que se prendem exatamente com a vida biológica das mulheres, vamos muito mais ao médico que os homens, somos muito mais acompanhadas, também por isso temos às vezes muito mais saúde. Mas a verdade é que há todo um mercado que está à espera, nomeadamente daquele longo período, que agora por causa do aumento da esperança média de vida, é muito superior, que é o mercado do perimenopausa, da menopausa, do pós-menopausa, que leva décadas e décadas, e em que basta ir às redes sociais para ver tudo aquilo que está à espera das mulheres, desde produtos farmacêuticos, aconselhamentos, influencers, por exemplo, à espera para aconselhar as mulheres. Sim, porque as mulheres também são um corpo aconselhado. E portanto, é um pouco de tudo isto que hoje, a propósito deste julgamento que acabou por não acontecer naqueles termos e que irá acontecer noutros, e também sobre isso falaremos, que precisamos de falar sobre este assunto. Ou seja, temos mesmo de trocar umas ideias sobre o assunto mulher, porque mal nos distraímos um bocadinho, só um bocadinho, e acreditamos que agora já está mais ou menos tudo bem, aparece logo alguma coisa a lembrar-nos que sim, que somos especiais, que somos diferentes e que as hormonas, se calhar, às vezes, mandam no nosso cérebro, que é uma coisa que sublimemente me irrita.
As hormonas. Até já, Helena Matos.
Até já.
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