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Monday, November 2, 2026

Sobre papéis de género c/ Diana Nicolau

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Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Olá, bem-vindos a mais um episódio de "Terapia de Casal". Espero que estejam bem. Espero que esta semana já vos esteja a tratar bem. Sei que eu estou bem neste momento. Estamos num cenário um bocadinho diferente, mas o Guilherme já vai falar um bocadinho sobre isso.

As pessoas já viram no título, está uma convidada aqui.

Já viram no título, está a Diana Nicolau connosco.

Coucou.

Atriz, encenadora, viajante. Antes de irmos a tudo o que temos para falar hoje, Guilherme, quero que tu tentes adivinhar qual é a origem da palavra estereótipo. Um tema sobre o qual nós vamos falar hoje com um twist.

Tipo deve ser para segmentar, para compartimentalizar. Acho que é assim que se diz a palavra. Acho que a divisão da palavra é em "estereo" e depois "tipo". Acho que é essa a divisão. Tipo é género, depois há de ser a categoria. Estéreo vem do latim?

Parece-me grego.

Grego?

Grego. Vem da junção de duas palavras.

É que eu estou a dizer estéreo e só me lembro de colunas.

Stereo sound.

Exato, stereo, mono.

Estereotipo, o tipo de colunas que tens em casa.

Vem da junção de duas palavras gregas, stereos, que significa sólido ou firme, e typus, que significa impressão.

Escrito, pois, eu acho que tipo era escrito, tipografia.

Uma impressão que é muito sólida. Daí depois para o nosso estereótipo. Mas esta ideia de estereótipo na psicologia, ou seja, de tu criares um estereótipo sobre alguém, só aparece no século XX, em 1922, porque a origem mesmo de quando se começou a utilizar a palavra estereótipo vem da tipografia.

Muito giro.

No século XVIII, 1794. É um senhor francês que vai cunhar este termo para designar uma impressão em que a chapa de metal, que é sólida, reproduz o mesmo tipo.

Gutenberg.

Exatamente.

Muito bem. Ou seja, recrias a partir de uma base e copias.

Exatamente. E, portanto, é um estereótipo no sentido em que é sempre igual.

Muito bem. Olha, eu adoro começar este podcast com uma pequena aula.

Também eu. Eu ficava aqui horas a ouvir, mas realmente estou fascinada, estou starstruck, estou dentro do "Terapia de Casal", que é um dos meus podcasts preferidos.

Ela está a mentir.

Não é nada. Por acaso estava louca para falar contigo.

Pronto, achei que era interessante termos aqui um bocadinho uma aula de etimologia. Espero que tenham gostado. Dá décimo final.

Posso ir à oral, eu sou melhor oral. Posso fazer em teatro, professora. Será que eu dizia sempre em matemática oral: "Posso fazer em teatro?"

Eu agora sou o pi.

Muito giro. Sendo que é de facto um prazer ter-te aqui, Diana. Nós já falámos muito de ti aqui neste podcast quando fomos ver a tua peça. Há quanto tempo foi? Dois anos.

Dois anos, eu acho.

Eu estreei em 2023 e fila todos os anos, 24, 25 e 26.

Pois, então acho que já fomos ver em 2024, porque eu acho que já havia buzz quando nós fomos falar aqui.

Sim, vocês foram em 2024.

E vendemos muito a tua peça.

Venderam muito bem.

Espero que tenhamos levado muita gente à tua peça. Mas, na verdade, este convite, não sei se não vai acabar a matar-te, porque nós quando te convidámos para vir aqui a casa gravar connosco o "Terapia de Casal", marcámos tudo, o dia, hora, que giro, vamos cá e não sei o quê, não sei o que mais. E para aí, vou dizer um dia depois, tu mandas uma mensagem a dizer assim: "Eu lembro-me que vocês têm gatos, eu sou mortalmente alérgica a gatos."

E eu aceitei super entusiasmada. E no momento em que eu me apercebi, porque estava a falar com o meu namorado, estava a dizer, eles têm imensos gatos. Eles têm imensos gatos! Eu não posso ir, eu não posso mesmo ir. E para mim foi uma coisa tácita, eu tenho que desmarcar ou marcamos noutro sítio, ou eles vêm cá. Eu não posso morrer. Estou numa fase da minha vida que isto a tempo me está a correr mais ou menos bem. Não me dá mesmo jeito morrer. Pronto, e vocês muito queridos mudaram o setting todo. Eu toda droenfada em antihistamínicos. Portanto, os gatos não apareceram, veio só cheirar os sapatos e nós estamos aqui enfiados dentro de um armário.

Não parece.

Nós estamos no escritório da Rita, ou seja, estamos aqui fechados. O único outro convidado que nós recebemos neste podcast, que foi nas mesmas condições, que teve que vir para dentro do escritório da Rita com a porta fechada, foi Pedro Teixeira da Mota.

Por quê?

Porque é completamente alérgico a gatos.

Eu tenho a suspeita. Eu tenho a suspeita. Vou deixar aqui que é um bocadinho de alergia e um bocadinho de medo.

Achas que Pedro Teixeira da Mota também tem medo de gatos? Pois é possível.

Se calhar vou criar um boato, mas eu senti que era também mais desconforto com gatos.

Desconforto com gatos. Pois, o Bolinha veio ao nosso podcast quando nós convidámos também o Escobinho, os três, e o Bolinha esteve o tempo todo na nossa sala encolhido porque odeia gatos e estava só desconfortável. Mas isso é só desconforto e nós estivemos o tempo todo a gozar com ele.

Não é ódio, é medo.

É medo. Desconforto.

Sim.

Eu também fico desconfortável com gatos, não confio.

Claro, eles matam-te. É normal.

They are wild cat, come on. A qualquer momento eles vêm.

Se eu fosse mortalmente alérgico a amendoins, também era desconfiado do amendoim. Tipo: "Estás ali com o amendoim, aquele amendoim quer me matar". Mas pronto, estamos aqui em condições.

Estamos bem. Até agora estou viva, estou ligada às máquinas, trouxe suor, está tudo certo.

Se por acaso tu começares a desfalecer ou pingar sangue do nariz, uma coisa qualquer.

Agarrem-me só de um lado e continuamos.

We can add burnies.

Quando eu estava a gravar os Morangos, isto é para vocês verem a pouca atenção que havia com as pessoas. Lembro-me de estarmos a gravar e um ator ia para o set, teve um acidente no carro, foi parar ao hospital. Se calhar não devia estar a contar isto. Já foi há imenso tempo, já ninguém se lembra.

Não estás a dizer novo.

Não. A produção foi buscá-lo ao hospital, tipo colar cervical, ele veio e os médicos: "Não, mas ele não está em condições, ele ainda está todo droenfado". Ele vem branco. "Ok, as tuas falas passam para aquele, tu agarra-o aqui da esquerda, tu agarra-o da direita, tiramos o colar, maquiagem, um bocadinho mais de blush. Ok, ação." Pumba, corta, ok, ambulância, volta para o hospital.

Com caraças.

A vontade que eu tenho de parar tudo o que estou a fazer e de ir procurar para ver se identifico essa cena.

Agora vamos ter que rever a temporada toda.

Vou procurar e depois vou vos mandar.

Opá, tenho muita vontade.

Isso é hilariante, mas é do género: "Pronto, olha, ele fez ali o não sei o quê, está ali na imagem."

E foi assim que eu aprendi a trabalhar. Pensei: "É isto, a nossa cultura de trabalho," e que estávamos a falar antes de começarmos a gravar, "é isto, é dá tudo, vai até ao limite."

Não interessa se estás bem, se estás mal.

Dá tudo. E muito mais ainda nesta indústria, que é vai, "show must go on" e parados a rodar no ar e está tudo bem.

E não só, e é do género, o quê? Desapareceste durante duas horas para ir à tua vida, já não és relevante, acabou. Está aqui outra pessoa.

Não respondes depois das 18h.

Exatamente. Adeus, até à próxima, está aqui outra pessoa. Mas por falar em desaparecer durante duas horas, eu gostava de começar pelo tema mais importante, principalmente para as três pessoas que estão neste podcast, mas também para o largo auditório que nos ouve. Queria começar com o tema mais importante, que é que viagens é que tens feito? Tu viajas tanto como nós, mais até.

Infelizmente, não muitas ultimamente. Este ano e meio foi mais dedicado ao trabalho. E dito isto, agora vou dizer o que acabei a fazer e vocês vão se rir. Idealmente, a minha vida seria, eu trabalharia seis meses e viajaria seis meses.

Isso era perfeito.

Isso é o sonho.

Não tenho filhos, não tenho cães, não tenho gatos, não tenho dívidas, não tenho dependentes, não tenho plantas de alta manutenção. Posso fazer o que eu quiser, porque a vida é minha. Pronto, o que acontece? Durante muitos anos eu fui muito workaholic, porque também foi assim que eu fui educada e por causa de tudo isto que nós estamos a falar, trabalhar. E também nesta indústria, que é não digas que não, podes fechar aquela porta, e quem desaparece, esquece. E durante muitos anos isso aconteceu. E ali aos 30 bateu-me, houve um acontecimento na minha vida que me bateu, foi ter ido fazer voluntariado para África durante uns meses e eu percebi: "Uou, ok, o mundo é muito grande, aquilo que eu faço não é assim tão importante e há muitas coisas que eu quero conhecer e saber e que vão fazer de mim, sem querer parecer presunçosa, mas melhor pessoa, logo melhor profissional." São muito mais as coisas que eu ganho do que as coisas que eu perco quando desapareço. Ainda assim, eu luto, estou sempre em conflito com esta coisa, às vezes quando fico meses fora, porque depois aqui também, e eu acho que é uma coisa muito tuga, de nós temos que definir bem quem é que tu és, o que é que tu és. Tu és atriz, és viajante, mas agora fazes voluntariado e agora também tens uma caravana e agora também fazes não sei o quê.

Só podes ter uma caixinha.

Não podes ser várias coisas ao mesmo tempo.

Que eu acho que isso é tão mais belo, essa diversidade toda e te transforma numa pessoa tão mais interessante e uma melhor profissional, mas as pessoas têm muita necessidade disso. E depois eu sofro sempre desse estigma que é: "Estás cá? Sabia que estavas cá, tinha-te convidado para isto." Olha, eu pergunto, liga. Pronto. E então eu acho que o Instagram também é uma ferramenta, muitas vezes joga a favor e contra. Eu posso usá-lo para comunicar onde é que eu estou, o que é que eu estou a fazer, e posso simplesmente não dizer que estou em viagem. E faço isso, porque para mim é muito natural fazer conteúdos e porque me divirto muito e porque há muitos estímulos e eu gosto de ir partilhando as coisas em viagem, porque também percebo que isso tem uma consequência que eu já percebi que é fixe, que é inspirar muita gente a viajar, principalmente muitas miúdas mais novas, e ver pessoas a viajar sozinhas. E acho que não há nada tão fixe como viajar para te expandir a consciência e para te transformar numa pessoa melhor e mais empática. E então eu sinto que é isso que também as minhas viagens, quando eu as comunico, que fazem pela minha comunidade de seguidores. Mas joga muito também contra mim, que é esta coisa do estás sempre fora, não te vou chamar, esta pessoa não é confiável, a qualquer momento ela pode desaparecer. Vou tentando jogar com isto. O ano passado trabalhei bastante e depois decidi parar um mês e fui para a Coreia e para o Japão. Pumba.

Excelente. Passámos por isso recentemente. Acabámos de chegar dessa viagem agora mesmo. Há três semanas fizemos essa viagem, Coreia e Japão.

Mas só fizemos dois dias na Coreia porque foi layover, basicamente.

Ok. Eu fiz uma semana, mas olha, aqui uma dica, as pessoas não sabem isto, eu digo, há tantas dicas que as pessoas não sabem. Se eu tivesse tempo, eu fazia uma coisa de guia de viagens, tipo blog, só com tips. É muito mais barato viajares para a Coreia do que viajares para o Japão.

Muito mais.

Eu paguei 250 € Lisboa-Seul. E depois da Coreia, eu ia apanhar um ferry na altura só pela aventura, mas depois percebi.

É muito mais caro e demoras imenso tempo.

Sim, e 40 dólares vais para um sítio qualquer e voa até para Hiroshima. Vocês são aquelas pessoas que gostam de dizer os nomes das terras como eles?

Isso é uma boa. Eu sinto-me a ser inconveniente quando tento dizer, mas é giro.

Eu adoro.

Mas há sítios que não dá.

Não, o Guilherme até é a pessoa que não só não diz como nós dizemos, nem como eles dizem, inventa. O Guilherme disse: "Estamos em Okaza."

É, pá, sim, senhora.

E eu: "Desculpa, estamos onde?" E ele: "Okaza."

E ficou para sempre.

Ficou Okaza. Sendo que Okaza é mãe, acho eu, portanto eu estava na mãe.

Estavas na mãe.

Eu estava na mãe, em vez de estar em Osaka, estava em Okaza.

E eu digo Osaka.

Tu dizes e eu gosto.

Mas gosto depois sempre de dizer, porque eu fui a Hiroshima e tive em Testema e na Oshima, e em Osaka. Acho que é assim que se diz.

Já sabemos.

Sabes que fomos lá.

Mas depois eu não sou nada essa pessoa, mas gosto Osaka, Hiroshima.

Fica mais fixe.

Pronto. E que fixe, eu gostei muito, portanto fiz isso também, fiz Coreia e Japão, muito mais barato, portanto se quiserem ir, essa é a dica.

Fica a dica, sim. E vieste agora recentemente dos Açores. Foi uma das coisas que quase fez com que este podcast não acontecesse ou esta gravação não fosse agora. Que tu ias perdendo o voo de volta dos Açores.

Mas eu estava pela greve da SATA. Eu por mim tinha ficado lá, eu estava com os bagageiros. Isto é uma coisa também que eu faço sempre, que é viver no limite. Eu sei que eu agora tenho um mês, um mês e meio aqui entre projetos, então eu acabo no domingo, segunda-feira às 6h00 eu já estou a viajar e tenho que voltar num sábado, então eu venho no último voo e arrependo-me sempre, porque acontecem sempre imensas coisas.

Nós marcamos sempre limpa para lato. Há sempre um dia entre uma coisa e outra, do gênero: "Temos que estar no dia 24. Ok, então voltamos 22. 23 é só para uma pessoa reestruturar o sistema."

Ou voltamos no 23 muito cedo.

Sim.

Não, claro, pessoas inteligentes. Eu digo sempre que é isso que eu vou fazer, nunca faço. Dizem: "Não, é só mais uma horinha, é só para aproveitar." Depois chego, arrependo-me. Chego, venho doente. Olha, o ano passado foi quando eu vim do Japão. Vim do Japão, dia seguinte tinha espetáculo. Desconfortável. Ia começar o tour e eram sete datas. Eu já não fazia o espetáculo há um ano e meio. E eu chego sem voz, porque tenho uma condição que é disfonia psicogênica, que é não só eu em situações de estresse fico sem voz, como também uma alergia muito grave ao ar-condicionado.

Ok.

E que não tem nada a ver com temperatura, tem a ver com umidade. Já fiz imensos exames, já meteram câmaras por todo tipo de buracos. Isto foi por exclusão de partes. É tipo: "É isto que tu tens." E as pessoas acham que às vezes é só mariquice minha e eu estou nesta fase. Eu chego a um restaurante, um sítio qualquer e digo: "Baixem a música, já não aguento, por amor de Deus, e desliguem o ar-condicionado." Pronto, estou velha.

É assim que se sabe.

Ar-condicionado, música, tudo para baixo. De resto, está excelente.

Pessoas.

Olha, vocês os dois não gosto da vossa cara, podem sair?

É isso que não consigo fazer em muitos sítios. E cheguei sem voz.

Ainda por cima o avião e aquele ar-condicionado de avião.

Se tiver, é o máximo. Cheguei sem voz. E depois, sendo uma pessoa altamente controladora e que não gosta de falhar, o que acontece? Tenho os produtores, os programadores da sala e a equipe a dizer: "Vamos cancelar, não tens voz, é impossível fazer um monólogo de uma hora e meia sem voz." E eu estou: "Não, eu consigo. I can pull it off." Então vai, drumos e cortisona, injeções e tudo. E penso: "Não vou voltar a fazer isto. Eu próxima viagem que fizer, eu tenho que me dar descanso, o meu corpo precisa." Porque isto também era o meu corpo a não querer regressar. Agora, alerta Shanti. Às vezes o corpo não quer. Eu sinto que o meu corpo passa muitas destas mensagens.

A voz ficou onde tu querias estar.

Exatamente.

Acho poético.

Agora esta fase de trabalho que terminou, assim que estreou este espetáculo que eu estou a encenar e que esteve em cena, aliás, dois dias antes de estrear, uma carraspana daquelas de ir à cama e estar cortisona e antibiótico. E foi assim que eu fui para os Açores. Depois pensei: "Não, mas eu vou para os Açores na mesma, porque eu vou lá estar molho e o antibiótico lá é melhor."

E os termos ajudam.

E depois estou para vir e venho mesmo à última da hora para aproveitar o tempo e de repente o que é que há? Uma greve.

Boa.

Mas estás cá.

Mas estou cá.

Isso é que interessa. Estavas a falar precisamente de encenares. Qual é para ti a grande diferença entre encenar e representar? Como é que te sentes nesse papel?

Estou a descobrir uma grande paixão na encenação também. Pausa para água.

Sim, senhora. Pausa para hidratação.

Exatamente.

Como no mundial.

Como no mundial, pausa para hidratação.

Eu só me tinha encenado a mim. Quando dizem: "Diana, encenadora desta apresentação." Não, eu estou de fora e digo umas coisas aos meus colegas. Estou a descobrir um grande prazer nisso, mas também é muito difícil, sendo atriz, porque às vezes acho que exijo deles, exijo que eles sejam os atores que eu projeto ser. Então às vezes exijo deles serem e fazerem coisas que eu própria não sei se conseguiria, mas eu acho que tenho, e modéstia à parte, a capacidade para resolver situações. Isto em larga escala na minha vida, sendo uma problem solver, e isto aplica-se também em cena. Há um problema aqui para resolver em cena e o problema é como é que eu vou contar uma história com este texto. E neste caso o texto não é meu. O texto é da Inês Ferreira da Silva, que é uma das atrizes do espetáculo, e ela propôs-me fazer este espetáculo. Eu queria fazer um espetáculo sobre velhos. Eu adoro velhos.

Eu acho que temos mesmo de perceber que nós somos a mesma pessoa, Diana.

A conversa tem um fascínio, todos os livros dela vai redundar num velho. Eu não sei o que é que se passa, é sempre um velho, passa um velho, vai ali um velho, aparece um velho.

Não, aconteceu agora no Japão. Eu já contei aqui, acho que quando voltámos, mas aconteceu no Japão. Em Tóquio, nós fomos a um mercado de coisinhas em segunda mão e estava um senhor a vender tacinhas. E claro que eu fui comprar uma tacinha ao senhor, obviamente. Eu disse qual era a tacinha que eu queria, dei-lhe a tacinha, o senhor pôs a tacinha num banquinho, tirou uma foto à tacinha. Depois, estás a ver.

Começou a embrulhar.

Começou a embrulhar a tacinha em 70 papéis de jornal. Põe num saquinho de plástico, dá-me a tacinha e depois pergunta-me: "Então, vocês são de onde? Portugal, lá tão longe." No inglês macarrónico, mas ele estava a tentar imenso. "Portugal, very far." E nós: "Sim, muito longe."

"Gostam do Japão?"

"Gostam do Japão." E nós: "Sim, muito, já é a segunda vez." E ele: "Onde é que já foram?" E nós a dizer as cidades, e lá muitas cidades. "Olha, muito obrigada por virem ao meu país." Eu virei costas ao senhor e eu desatei a chorar.

Ai, meu Deus.

É que fico supercomovida com velhinhos, é uma cena...

Sim, eu ia-lhe dar um abraço e ele ia ficar muito...

Muito: "Uma gajinha está a mostrar."

Não. Ontem, quando estávamos a vir dos Açores, nesta coisa toda do avião, não sei o quê. O carro, aeroporto, estacionamos o carro, rent a car, entregamos no aeroporto. Tu estacionas o carro no parque do aeroporto, não tens muitas hipóteses ali. Ou vais para o aeroporto Ou vais para o aeroporto. E está uma senhora velhota a pé, também a caminho do aeroporto, os 100 metros desde o parque até a entrada do aeroporto, e ela pergunta-nos: "E vão para o aeroporto?" E nós: "Sim." E a senhora: "Também." E eu: "Ok." E eu vou o caminho todo, o Nuno atrás a filmar e a adorar, e eu a falar com ela. Tens de perceber que não está a gravar.

Claro, não tens legendas.

E eu a falar com ela, ela a contar-me a vida toda dela, e eu estou: "Pronto, e era só isto." Para mim era isto, e eu ficava só agora aqui.

A ouvir estas histórias.

Eram velhinhos. Tu querias fazer um espetáculo sobre velhinhos, não é? Desculpa, entretanto fizemos aqui um desvio.

Sim, sobre a terceira idade, porque ultimamente, na minha vida, eu vivo num prédio em que a média de idades é 80. Já a contar comigo. Fui eu que fui lá baixar a média de idades.

Foste ajudar.

Sendo que a minha vizinha da frente, que faleceu agora há um mês, faleceu com 102 anos.

Uau. Incrível.

Vivia sozinha, sem filhos. Uma pessoa, uma grande figura superimportante do 25 de Abril, uma grande velha. E não só isso, mas eu tinha os meus quatro avós até há relativamente pouco tempo e era próxima, três deles estavam no mesmo lar, e quando o meu avô começou a ficar mais doente, eu decidi levar a caravana para o lar e ficar lá acampada e passar lá uma semana inteira. E criei uma relação também com os velhotes. Eu adoro velhos. E sou administradora de condomínio do meu prédio, como não podia deixar de ser.

Também geres velhos.

Sim.

Se for como é aqui, é hilariante.

Sim, a minha última reunião de condomínio, era a minha primeira como administradora, e eu muito contente, porque antigamente as reuniões eram feitas como em muitos sítios, cada um leva a sua cadeira e é à entrada do prédio. E eu pensei: "Não faz sentido nenhum, vou fazer aqui em casa, acendi a lareira, um bolinho para os velhos, um chá."

Um chá, claro.

Oito da noite, eu à espera dos velhotes, nada. Damos aquela meia hora de 20h30, nada. E eu: "O que está a acontecer?" Começo a ir tocar à porta, metade deles está com Alzheimer, não se lembravam que era a reunião de condomínio.

Reunião? O quê, menina?

"Filha, esquece. Pensei que já estava na cama." Então vou eu com o computador, casa a casa, incluindo um deles que já estava na cama de roupão, e eu a fazer a reunião de condomínio para cada um deles individual na sua casa. Pronto, então vá. "Sr. Zé, então tínhamos aqui esta questão do telhado, tal." Isto não aconteceu nada.

É uma reunião de condomínio ao domicílio.

É.

Podes fazer aqui também, por favor?

Posso.

Obrigada.

Posso e quero muito filmar, tenho muita vontade de filmar, de documentar só.

Sabes que uma amiga nossa, que tem um podcast chamado "Corte e Costura", onde ela conta fofocas da realeza. Ela há uns tempos foi convidada para ir a um lar falar sobre o livro que escreveu sobre fofocas da realeza, porque os velhos adoram reis. E então ela diz que havia lá uma senhora que achava que estava na reunião de condomínio.

Ai, ai.

O pai é ariano.

Queixou-se da minha idade.

Por que estamos a falar de reis se eu tenho mofo na minha casa de banho? Pois, minha senhora, não era aqui. Desculpe, não era aqui.

E eu adoro ir ao lar onde a minha avó está. É sempre divertidíssimo. No outro dia a minha avó fez anos e estava uma fila de velhotas para lhe darem os parabéns. Acabavam de dar um beijinho à minha avó, voltavam para o final da fila.

Ai, que bom. E não achas isso hilariante? A minha avó também está num lar e vai fazer anos agora para a semana. E o que eu acho lindo é: eles são 40. Portanto, quase todos os dias há alguém a fazer anos. E é sempre um bolo gigantesco.

Pois claro, eles adoram bolo. Bolinho para velho.

Bolo gigantesco. Depois a minha avó ficou chateada porque a colega de quarto dela não ficou para os parabéns, queria ir para o quarto.

Tricas internas.

Virou-se para mim: "Tu viste aquela?" Minha avó está com demência, então vira-se para mim e diz: "Mora na minha casa. E nem fica para me contar, para me contar os parabéns."

No meu aniversário.

No meu aniversário, ela nem fica para me contar os parabéns. Adoro.

Apoio-me a fazeres um espetáculo sobre velhos.

Sim, tens de fazer uma coisa sobre velhos.

E eu queria muito, e já comecei a escrever. E nisto vem a Inês, que é minha amiga e que me fez a assistência no "Desconfortável", e ela já sabia que eu queria fazer este espetáculo, e nós sabíamos que queríamos trabalhar juntas. E ela veio com esta ideia de eu quero fazer um espetáculo sobre a violência no corpo da mulher. Nós temos cinco a seis anos de diferença, mas é minha amiga mais woke, mais vocal. E eu às vezes penso: "Eu não sei se eu sei falar sobre isto." E estava com medo que o espetáculo corresse o risco de ser um manifesto "feminaz" ou demasiado panfletário. E eu sentia que não tinha propriedade para falar disso, apesar de ser mulher e ter imensas situações destas.

Claro.

E ela queria que fôssemos as duas, fazer as duas. E eu disse: "Eu não vou voltar a fazer isto, esse encenar-me e estar em cena. Isso não." E acho que se aquilo que nós queremos fazer é diminuir o gap desta discussão de papéis de género e estereótipos, nós precisamos de chamar um homem, porque precisamos que os homens também se vejam retratados ali no palco. Então OK, vamos chamar um ator. Temos um ator que é incrível, que é o Ricardo Raposo, a própria Inês escreveu o texto, que é uma matriz maravilhosa, e temos os dois em cena. E a Inês escreveu o texto e depois é isto, é o que os meus pais perguntam-me, que foram ver o espetáculo: "Mas exatamente o que é que..." Há pessoas que não sabem. O que é encenação? Qual é o papel do encenador? Do ensaiador, quero dizer.

Porque tu não apareces.

Sim. O meu pai diz: "Eu gostei, mas preferia que fosses lá tu." Então o encenador, quando eu explico isto para pessoas que não percebem muito bem, porque depois eu gosto de levar os meus vizinhos, os velhotes, aos espetáculos também. Claro, a vossa comunidade com certeza saberá o que é, mas para mim esta parte é muito gira, que é como é que eu vou agarrar num texto e contar histórias. E eu acho que isto também, eu não sabia, quando era miúda, não sabia muito bem o que é que queria fazer, mas sabia que era isto, eu quero contar histórias seja de que forma for. E achava que queria ser jornalista, depois achava que queria ser escritora, e depois percebi: "Ah, não, OK, o teatro é uma forma, um veículo que me vai dar isto." E recentemente descobri isto. Eu quero contar uma história com este texto. E isto tem sido um percurso muito fixe e muito interessante, mas também uma sofrência muito grande. É muito doloroso, porque eu às vezes estou ali e estou a sofrer por eles porque sei o que é estar em cena.

É tipo treinador, estás a ver os jogadores a jogar e não podes ir lá dar um chute na bola.

Pior do que isso, que é eu enceno como se fosse uma treinadora.

Estás tipo: "Vai, vai, vai."

Sim, eles estão em cena. Eu já fui encenada várias vezes e isto não acontece, o encenador não está: "Lindo!" Ótimo. Esquerda para direita. Foi ótimo. Mais intenso.

Som alto.

Sim, mais tom. Ok, baixa as mãos. Abre. Continua, mantém o abraço, ninguém se mexe. Vou só dizer uma coisa, ninguém se mexa. Ok, repete daí, vai, boom. Eu estou assim. No outro dia perguntei-lhes, antes de estrearmos: "Isto eu nunca vos perguntei, mas isto incomoda-vos? Preferem que eu não diga nada, ensaiamos e depois no final, notas?" E a Inês disse: "Não, eu acho que agora não vou querer ser ensinada de outra maneira. Estou a adorar, estou a ensinar." Eu estou: "Lindo, maravilhoso. Ok, menos, mais só, sobra."

Estás a ser uma atorada. Olé, vamos, lindo. Muito giro. É engraçado, como atriz, tu tens o lado de como és atriz, sabes como é que queres que falem contigo e já estiveste do lado de lá, mas por outro lado, também tens aquele lado mais desconfortável que estavas a falar há pouco, de não queres estar a dar ordens, como é que te impões, como é que dás espaço.

Sim, e são meus amigos, então eu não quero ferir a suscetibilidade, porque eu sei o difícil que é muitas vezes dizer determinadas coisas, porque os atores trabalham com emoções e às vezes eu sou um bocado mais bruta. Às vezes apetece-me só dizer assim, rapidamente: "Não mexas." Neste espetáculo havia várias situações em que eu queria muita imobilidade, porque o texto é lindo, o texto é da Inês e é lindo. E há espetáculos que são muito bonitos, que valem pelas imagens que tu crias, pela história, pela performance. Este texto é muito um texto de acting, é muito como os filmes do Linklater, que eu amo, que é texto, texto e acting. E este é um espetáculo assim. Só que claro, tu não podes só meter dois atores. Podes, mas não era isso que eu queria fazer. Podes meter dois atores em cena só a falar.

Sim.

Neste caso, não era isso que eu queria fazer, porque o conceito do espetáculo é muito como se tu estivesses a fazer um scroll no telemóvel.

Que giro.

Estás constantemente a ser inundada com informação. Então temos dispositivos vídeo, temos cenas que eles fazem seis personagens diferentes. E depois, pelo meio, há a história de um casal. E tu vais seguindo a história de um casal que se vê confrontado com estas questões, que é: queremos ter um filho, não queremos ter um filho, e de repente há uma regressão brutal, este movimento red pill que está a crescer, há uma grande violência. Nós não sabemos comportar-nos, se calhar. O homem está a ser confrontado com uma série de questões, ela força-o a ir à terapia e ele de repente sente que não precisa e depois vai e descobre que tem ali uma série de questões por resolver. Ela própria começa também a questionar-se, começam a questionar a relação. Tem uns lives também de comédia. Há uma série de coisas e que eu queria que o espetáculo fosse isto: muita informação, como aquilo que acontece quando fazemos um scroll, mas que as pessoas pudessem sair dali a relacionar-se com eles, com as várias personagens, mas acima de tudo, e isto acho que foi a coisa mais difícil que nós tentámos fazer e eu enquanto encenadora, com a ajuda deles e também da Carolina Ferraz, que faz assistência de encenação, que é um papel muito importante, que é a pessoa que tem os olhos fora. Eu, enquanto encenadora, estou fora do palco a ver isto e ela está fora de mim. E é super importante e muitas vezes é um trabalho esquecido. E a Carolina Ferraz foi incrível. E aquilo que eu queria era que as pessoas, para mim, enquanto espectadora, seja de um filme ou de um espetáculo, eu gosto de: agora estou contigo, agora estou com ele, agora estou do lado dela. Ai, ela agora foi, ai, cabra. Ai, agora estou com ele. Ai, ela tem razão, agora ele tem razão. Agora estou aqui.

Claro, nesse jogo.

Sim.

Sim, não haver uma pessoa que é taxativamente má e uma pessoa que é taxativamente boa.

Claro, porque isto aqui o que nós estamos a fazer não são homens versus mulheres, é precisamente o contrário. É o quão danificados nós estamos, nós, seres humanos, e as principais vítimas até deste sistema patriarcal serem os homens. E eu acho que isto foi a grande dificuldade. E eu estou a adorar estar fora de cena. Eles estão tipo: "Estamos cansados", e eu: "Bora repetir mais uma vez."

Não para.

Claro, e eu se estivesse em cena ia estar: "Não, estou cansada."

Não, tens razão.

Energiza-me muito ver atores a trabalhar.

Sabes que eu adoro a discussão dos papéis de género, porque eu acho que é uma coisa que está a mudar bastante. Uma das coisas que eu fazia no meu espetáculo de stand-up comedy era perguntar quem é que fazia terapia, que tu estavas a falar há bocado, e 95% eram sempre mulheres a bater palmas sobre a terapia. Mas mesmo o conceito de papel de género é uma coisa que me fascina muito, porque em várias coisas da minha vida, eu nunca me senti o estereótipo de homem que se espera de um homem. Ou seja, eu nunca gostei de futebol, eu nunca liguei nenhuma a carros. Eu sou chorão com histórias de séries e de filmes, e chorar é coisa de menina. Ou seja, há muitas coisas dos papéis de género nos quais eu nunca me revi e sempre me fascinou pensar o que é um homem ou o que é uma mulher, o que é que nós identificamos como homem e como mulher.

Mas será que alguém se sente 100%: "Eu sou o estereótipo do homem ou da mulher."

Eu acho que há pessoas que procuram esse estereótipo. Estavas a falar do movimento red pill. Eu acho que o movimento red pill que está a acontecer agora são homens que, olhando para o panorama geral das coisas, em que uma mulher tem agência sobre o seu próprio corpo e quer estar no onlyfans, está no onlyfans, quer usar uma minissaia, usa uma minissaia. Ou os homens quiserem usar uma saia, podem, e um brinco. E há homens que olham para isso e dizem: "O que está a acontecer? O que é isto? Não, para mim o homem é tronco nu, músculos, flexões, futebol, porrada." E voltam para uma cena meio primária e estereotipada do que é ser um homem, por segurança e por confusão.

Não, e por medo.

E por medo.

E porque historicamente tu obrigas os homens a seguirem, muito mais do que nos últimos anos as mulheres, um padrão. Ou seja, o movimento feminista foi incrível para as mulheres, mas abandonou nalguns momentos os homens. E o movimento feminista não devia ter abandonado os homens, precisamente porque o feminismo não é mulheres contra os homens, é como é que nós podemos ter uma sociedade mais igualitária para toda a gente. E igualdade de oportunidades e igualdade de atuação. E o que acontece é: os homens viram-se perdidos, sem referências nenhumas. Há dois livros, desculpem estar a tornar isto no meu outro podcast, o "Livrat", mas há dois livros que eu recomendo sempre muito.

Bell Hooks?

Por acaso não era. Era um livro que eu acho que não está sequer cá em Portugal, mas eu ouvi no Audible, que se chama "For the Love of Man". É de uma feminista chamada Liz Plank e ela propõe toda uma série de coisas que nós podíamos fazer para tornar a nossa masculinidade menos tóxica e um bocadinho mais aquilo que ela chama mindful. Ou seja, como é que nós podemos dar a mão aos homens e mostrar aos homens que é ok chorar, que está tudo bem. E o outro livro chama-se "Filho do Pai", é de um romancista chamado Hugo Gonçalves.

Português?

Português. E é uma autoficção, acho que é até mais livro de memórias do que propriamente ficção. É sobre o momento da vida dele em que o pai dele está a morrer e ele está quase a ser pai. E sobre o fato dele ter crescido com um pai que é o estereótipo do homem, do homem que tu não choras, tu agora vais fazer isto. A mãe do Hugo morre quando ele é muito novo, portanto o pai educa os dois filhos sozinho. Educar os dois filhos sozinho significa que ele não tem referências femininas na sua vida e acaba a viver com essa referência do pai. E sobre essa reflexão que ele é obrigado a fazer quando é pai de: "O que eu quero que o meu filho sinta enquanto homem?" Que é uma coisa que muitos homens estão a fazer, tornando-se pais ou não, mas há essa comunidade redpill que está a fazer exatamente o oposto, que é: não, o homem é o tronco nu.

É prender ou taxar ou reivindicar uma imagem estanque do que é ser um homem, quando na verdade, eu não sei bem o que é ser um homem.

Porque o homem perde o propósito. A partir do momento em que a mulher pode trabalhar. Vamos dizer isso de forma fria, depois se é aceitável ou não, está tudo bem. A partir do momento em que a mulher começa a trabalhar, pode ser o que ela quer, o homem perde a referência da pessoa.

A mulher tem voz, o homem deixa de prover e deixa de dizer o que é suposto a mulher fazer. E os homens sentem-se perdidos. E a Bell Hooks, neste livro, que é o "Vontade de Mudar", do "Will of Change", que é ótimo, que foi um livro também a partir do qual nós construímos muita coisa deste espetáculo. E não só este livro, mas por acaso foi a partir de um podcast, o podcast levou-nos a conhecer uma pessoa, o voz de cama da Tânia Gracia e da Ana Markle, que eu adoro também. Eu estava a ouvir e elas tinham um convidado que era o Lu Cargelle, vocês conhecem?

Não.

O Lu Cargelle é um cantor, ele é lusobrasileiro, vive cá em Portugal. Incrível, ele é maravilhoso, um cantautor. Ele escreveu um álbum, ele estava na altura a promover um álbum que se chama "O Homem Triste", que é precisamente sobre isto, estas temáticas. O mote do álbum é mais vale ser homem do que ser feliz. E nós usamos muito isto no espetáculo. Eu ouvi o podcast, mandei o podcast à Inês e disse: "É isto, nós temos que conhecer o Lucca, temos que ouvir este álbum." E depois eu percebi: espera aí, ele tem uma tese, a tese de mestrado dele é sobre isto.

Que giro!

E ele tem um livro que lançou que se chama "Notas para um Meigo Energúmeno" sobre uma leitura machista do Vinícius Moraes. Então o que ele faz? Ele agarra em toda a obra do Vinícius e mostra o quão machista é. E o poder da palavra, e a palavra popular, a influência que isso teve depois no pensamento das pessoas. E nós sem querermos, vamos agarrando estas coisas com uma simples coisa como uma música. Eu não quero fazer muitos spoilers do espetáculo nem nada.

Sim, depois as pessoas vêm.

Mas eu vou vos mandar o álbum. O álbum chama-se "O Homem Triste", Lu Cargelle. E nós fomos então ver o concerto dele, conhecemo-lo, falámos sobre ele, dissemos: "Nós estamos a fazer um espetáculo sobre isto." Ele foi inacreditável, cedeu-nos os direitos das músicas que nós usamos no espetáculo.

Incrível.

Li a tese dele, depois ele editou aquilo em livro e portanto gosto muito desta ideia também de interseccionar depois aqui coisas. Portanto, ela veio-me com esta ideia, eu ouvi um podcast, li a tese dele, é um álbum, vamos fazer isto, um espetáculo. De repente, há esta discussão gigantesca, estes temas superquentes que estão a acontecer por causa destes movimentos que estão a crescer cada vez mais e que são muito assustadores. Eu vejo miúdos muito novos que estão perdidos. É isso, o que é ser um homem e eu quero pertencer. E disseram-me que era assim e agora afinal já não é, e então eu vou-me juntar a estes grupos. E isto é dificíssimo. Eu acho que também é verdade para mulheres. Um movimento como o das mulheres conservadoras também é: "Espera, não, mas eu não me identifico com isto, eu não quero isto, eu quero umas coisas à antiga, porque é nisso que eu me revejo."

E está tudo certo. Tu queres ficar em casa a tomar conta dos teus filhos e deixar de trabalhar, também está tudo certo. Nós não queremos julgar ninguém, é só não polarizar as coisas e tentar perceber o que isto está a fazer às relações, às dinâmicas relacionais.

Acho que a discussão fica muito mais interessante quando nós paramos de dizer o que uma mulher ou um homem é, e passamos a dizer o que também pode ser. Ou seja, ninguém diz uma mulher é uma senhora que fica em casa a cuidar dos filhos e quando o marido chega, lhe dá um uísque. Não é isso. Pode ser isso. Queres ser isso, é isso. Eu só não gosto quando se fecha a conversa do que um homem é e uma mulher é. Eu acho que isso é interessante nesta discussão.

A ideia também é: queres ser isso, ok, mas que não seja porque não sabes que há outras possibilidades.

Sim, mas agora é complicado dizeres que não se sabe que há outras possibilidades.

Depende do contexto. Não podes dizer que toda a gente tem a tua realidade.

Não, sem dúvida, mas eu acho que também é reativo. Ou seja, uma pessoa pode perfeitamente olhar e ver, tipo: "Estas miúdas agora todas no OnlyFans e vão sair à noite sozinhas, mas que pouca vergonha é esta." Não, eu não sou nada isto. E reativamente uma pessoa extrema.

Extrema, claro.

Mas é por causa das redes sociais, dos algoritmos, etc. Mas eu acho a discussão do papel de género, do estereótipo de género, do que é ser homem, o que é ser mulher, principalmente nos casais atuais e na maneira como os relacionamentos funcionam hoje em dia, superinteressante, porque durante décadas, e agora já não estou a falar homem e mulher, estou a falar relacionamentos heterossexuais. Durante muito tempo, a nossa ideia ou a ideia que havia de como é que funcionava um casamento e uma relação homem e mulher, era sempre a mesma. E agora é muito giro ver como é que as coisas estão a Sim.

A desformatar-se.

É muito interessante viver nesta altura em que nós estamos a viver. A quantidade de mudanças que nós estamos a experienciar e que daqui para a frente vai ser muito diferente, o caminho que nós estamos a abrir. A geração dos nossos pais não pensava nada assim. Eu tenho esta discussão com os meus pais e é superinteressante como eles ficam:"Mas era assim, disseram-nos que era assim, até esta altura foi assim e funcionou, por que se há de mudar?" Esta ideia também de querer mudar esta ideia conservadora que até uma determinada altura funcionou. Funcionou, ok. Funcionou para quem? Vamos explorar outras opções. E eu estou muito entusiasmada com o que pode acontecer daqui para a frente, com o futuro.

Claro.

E assustada também, na verdade.

Quando estás a ir por um caminho que não sabes o que é, há coisas boas, há coisas más, vai-se longe demais, vai-se de menos. Acho que isso é muito giro. Mas o que querias dizer, Cátia?

Ia-te perguntar o que achas que és pouco o estereótipo do homem.

Ok, eu acho que sou pouco o estereótipo do homem em algumas coisas. Uma é o físico e agressivo. Tem-se muito a ideia de o homem tem que ser protetor e estar preparado para a porrada, a testosterona e não sei o quê. Eu só sou físico e tento ser dominador fisicamente quando estou a praticar desportos de grupo, porque sou muito competitivo e quero ganhar. Aí eu sou um género diferente de homem que sou no trânsito. No trânsito tenho é que apitar e passar-me à frente.

Mas mesmo assim fazes tipo.

Vai à tua vida.

E mesmo assim, já te vi a jogar basquete, se dás uma cotovelada mais agressiva que percebes, ficas tipo: "Peço imensa desculpa".

Depende. Às vezes sou mais o estereótipo de homem que tu imaginas quando estou competitivo e quero jogar ou me irrito.

Mas porque és competitivo.

Porque sou competitivo.

Não tem a ver com testosterona.

100%. Os meus irmãos deixaram de jogar videojogos comigo porque eu era chato, competitivo e agressivo. E é do género: "Eu estou a jogar, eu quero ganhar, é o meu objetivo". Acho que sou pouco esse estereótipo de homem. E depois, há muitas coisas que se imaginam dos homens, e não é o tipo falar de gajas e gostar de gajas e não sei o quê, porque isso obviamente. Mas é o gostar de futebol, a mentalidade de balneário. Eu nunca tive aquela coisa de estamos aqui no grupo de homens e isto agora... quando começa-se a juntar muitos homens num grupo e começa a ficar energia tipo claques, não consigo. É repelente para mim, é desconfortável para mim estar num grupo onde toda a gente está e aquela energia de meio de gorila, não consigo.

Primata. Mas alguma vez te sentiste ostracizado ou gozado pelos teus amigos por não corresponderes a esse estereótipo?

Eu estou constantemente a gravitar à volta de grupos de homens. Constantemente. Principalmente por causa do futebol. Eu acho que isso foi formativo na minha maneira de ser. Eu sempre fui um outsider, porque como eu não liguei nenhuma a futebol, nenhuma, nunca gostei, acho um desporto chatíssimo, está sempre tudo no chão, não acontece nada. Eu prefiro muito mais depressa por basquete, onde está constantemente a acontecer coisas. E então não gostar de futebol imediatamente pôs um cunho em mim que é do género: "Ya, a malta está a falar do Benfica, eu não tenho nada para dizer". Eu estou de fora deste grupo. Eu estou constantemente a ver de fora o que está a acontecer num grupo de homens. E então imediatamente há várias coisas desse género que eu me senti à volta ou de fora. E aprendi a viver assim, é do género, ya, vocês agora estão a falar de futebol.

Estão a conversar os vossos cinco minutos do futebol e eu vou pensar noutra coisa.

Acontece várias vezes no programa, no "Isto é Gozar com Quem Trabalha", está a dar um jogo de futebol, eles começam a falar qual é o melhor 11 do Benfica desde 1990. E eu vou para o pé da Cátia conversar. E atenção, não é uma questão de papel de género, porque se tivesse lá a Joana Marques, a Joana Marques é doente de futebol e ia imediatamente dizer o clube do Porto e não sei o quê. Mas eu e a Cátia gravitamos. Mas depois a Cátia quer falar com a Anabela, a Joana Marques e com o Manuel Cardoso sobre reality shows, quer falar do "Big Brother" e da Trica Nova, porque aqueles gastos estão a discutir e eu ok, estou de fora.

Aqui também não estou.

Vou para o canto. Ou seja, o papel de género é uma coisa que eu rapidamente me habituei a estar de fora, a não pertencer e que isso não faz parte. O ser um homem para mim não é nem o Andrew Tate, nem o Rui Tavares, é tudo.

Mas sempre tiveste ok com isso? Houve ali uma altura, principalmente na fase mais formadora do teu caráter, adolescência, em que te sentiste meio perdido e com necessidade de pertencer?

Eu sinto-me na terapia. Obrigado pela sua pergunta.

Não, nada disso.

Sim, mas não necessariamente por causa disso. Senti porque não era giro, não era bonito. E eu acho que é uma coisa que na altura em que tu estás na escola secundária, os homens bonitos têm muita atenção das mulheres. E eu nunca fui um homem bonito, sempre fui um homem perfeitamente normal ou abaixo disso. E então a minha cena era, eu sinto-me de fora, o que eu faço? Então, comecei a ser-

Transformaste-te no divertido.

No engraçado.

No palhaço.

Comecei a contar piada, comecei a ser simpático. A minha energia tinha que vir do outro lado, porque eu calado e só a aparecer, eu não ia chamar a atenção. E então isso foi mais formativo no meu papel de género enquanto homem heterossexual do que outra coisa qualquer, acho eu. E isso afetou-me. Acho que isso determina e define a minha maneira de ser como um homem agora, o que me aconteceu na adolescência quando eu queria a atenção das mulheres.

Claro.

E pensei: "Que tipo de homem é que eu sou? Por que eu não estou a chamar a atenção? Não sou bonito. Então que tipo de homem é que eu quero ser?" E isso foi formativo, sim, sem dúvida nenhuma.

Se calhar hoje em dia temos um Guilherme comediante por causa disso também. E por causa da morte do teu pai, óbvio.

Não, sim. Eu acho que isso tudo é formativo para o tipo de homem que eu sou, acho eu.

Claro. Eu acho que cá em casa os nossos papéis de género invertem muito. Muito mesmo. Por exemplo, se for preciso fazer uma coisa de bricolage cá em casa, quem vai fazer sou eu. Sou eu que vou agarrar na parafusadora ou no furador.

Tu gostas de conduzir, eu não gosto. Então vamos fazer uma viagem, conduzes tu, eu não tenho paciência.

Adoro conduzir, adoro refilar no trânsito Adoro mandar para sítios as pessoas que estão no trânsito. Sou muito bruta.

Reclamar em sítios?

Sim.

Não que isso seja uma coisa mais de homem, mas essa coisa, se calhar, mais dominante e protetora.

Sou eu.

Sim, protetora sim, reclamar não, porque a imagem que se tem é a Karen. Reclamar eu acho que é uma coisa sem género, mas a proteção, o que impõem no homem de teres de proteger a tua mulher, teres de proteger a tua casa, teres de estar preparado para, no trânsito, se alguém vier a pau, para a tua gaja.

Sim, eu acho que o máximo que pode acontecer é se acontecer alguma coisa e eu já vou a partir para a pancada, tu proteges-me no sentido de: "Rita, calma lá um bocadinho. Não te irrites, não te enerves."

Há muito uma ideia agora, principalmente na mentalidade red pill em relação à masculinidade, de ou és um alfa. O que é que eu estava a dizer? Espera.

Ou és um alfa.

Ou és um alfa ou és um cuck. Não há outra maneira de ser.

O que é um cuck?

O cuck é um insulto que os homens do red pill, muito de mentalidade de ou és alfa ou és beta, atiram para homens ou de esquerda ou para homens que não estejam padronizados pelos padrões de género atuais ou antiquados. O cuck, na sua definição, é o homem que vê a sua mulher a ser comida por outro homem. Ou seja, é convidar um homem para ir lá a casa e tu ficas na cuck chair, que é a cadeira no canto do quarto, e ficas a ver a tua mulher a ser comida. E isso é, para os machos alfa red pill, o insulto que mandam para homens como eu.

Oonas.

Exatamente. Completamente. Este caso é o Conas.

Guilherme, eu vou reforçar.

Pois, ela adora quando eu digo palavrões aqui.

Eu vou reforçar uma coisa. A Diana foi ótima.

Eu já não me lembrava se esta era daqueles que se podia dizer palavrões.

A Diana foi ótima. De momento, estão crianças no carro a ouvir. Nós já recebemos reclamações de pais a dizer que as crianças estão no carro a ouvir.

Estão a ver porque é que eu não sou alfa? Porque agora vou ser beta. E sim, senhor, minha querida, tu não queres que eu diga palavrões.

Não é eu não querer.

É até porque eu gosto.

Eu adoro. Agora, boa sorte a responderes aos e-mails dos nossos ouvintes a dizer: "Tinha a minha criança no carro, agora como é que eu explico o que é que é?"

Ponham a Shana Toc Toc, se não querem ouvir coisas com palavrões.

Chupa. Já, chupa, está bom. Ok, terminamos assim.

Mas o insulto é o cuck, que é a maneira como esses homens veem outros homens que são mais fracos ou mais frágeis. Ou tu és cuck, tu és beta.

No fundo andamos todos a tentar impressionar homens, mulheres a tentarem impressionar homens e homens a tentarem impressionar homens.

Sim, completamente. Mesmo estes alfa, estes lobos solitários e não sei quê.

Não é para impressionarem as mulheres, é para impressionar os outros.

Querem sempre impressionar os outros e querem ser o alfa do grupo e querem ser impressionados pelos outros.

Pandeiragem.

Completamente. E obrigado por estares tu a dizer porque senão lá nos ouvintes.

Sabes que é muito giro, uma coisa que gosto muito e falo muito sobre isso com as minhas amigas, é ver a maneira como há muitas artistas atualmente. Vou falar, por exemplo, da Billie Eilish, que é a primeira que me surge na cabeça, que foi das primeiras a deixar de se vestir para aquilo que se chama o male gaze, ou seja, o olhar do homem. E isso adoro ver. Adoro ver porque é uma inversão de estereótipos, se calhar aquilo a que nós antigamente chamaríamos a Maria Rapaz, mas que é eu não me estou a vestir para os homens verem as minhas curvas.

Mas agora vou ser advogado do diabo em termos de polémicas de internet.

Levas já com isto na cabeça.

Mas acho isso tão válido como a Sydney Sweeney se quer mostrar as mamas, mostra as mamas.

Claro.

No sentido de o corpo é da mulher. Ela não se quer vestir para o male gaze, não se veste para o male gaze.

Não, ela pode vestir o que ela quiser.

Quer se vestir para o male gaze e quer que toda a sua imagem e toda a sua vida seja à volta.

Ela pode fazer o que ela quiser.

Exato.

Acho que a Rita se está a enfatizar uma coisa que foi vibrante.

Imagina, a Dolly Parton historicamente vestiu-se para o male gaze.

Sim, totalmente.

Que é aquele par ali sempre à mostra. Que vem obviamente depois da cultura country, enfim, depois entraríamos aqui.

E até já temos muitos artistas bem andróginos, por exemplo, o Benson Boone. Também é um fenómeno, não é? E é um fenómeno homens e mulheres. Homens e mulheres ficam: "Oh".

Um Harry Styles, por exemplo.

Sim, que depois é acusado de fazer queerbaiting. Lá está. Mas eu gostava de fazer a pergunta ao contrário. Vocês perguntaram-me a mim para papéis de género. Eu gostava de vos perguntar a vocês que estereótipo de mulheres é que vos irrita por ser verdadeiro.

Por ser verdadeiro?

É que eu tenho um que eu adoro.

Eu tenho um que é irmos juntas à casa de banho.

É o quê?

Irmos juntas à casa de banho.

Mas isso irrita-te?

Irrita-me ser verdade. Mas é verdade.

Sim.

Irrita-me ser verdade.

Eu gosto de protelar isso e eu faço disso uma coisa de vocês não fazem ideia.

Exato. Eu adoro, mas irrita-me depois quando os homens usam isso como: "Vão sempre juntas à casa de banho". Eu fico: "Sim, mas não é para ti, só para tu saberes".

Sim, o TPM. Odeio essa coisa de agora estás com o período.

Mas é verdade.

Ó queridos, mas é que é mesmo.

Pois claro.

E há uma cena no espetáculo em que ele lhe diz isso, eles estão numa discussão e ele diz: "Isso é o quê? TPM?" E ela explode e diz: "Sim, quem me dera que tu também tivesses, porque se calhar era da maneira de conseguires demonstrar alguma coisa."

Eu digo isso muitas vezes ao Guilherme, que é no dia em que tu estiveres a passar pelo que eu passei, podes falar.

Não é comparar, porque eu acho que há coisas que são impossíveis de comparar, mas nós também temos variações hormonais.

Não, não do mesmo género.

Não do mesmo género, é num período completamente diferente. Nós não estamos é tão in tune, que não me sai a palavra em português.

Conectados.

Conectados e não nos apercebemos tanto porque nunca parámos para pensar nisso, que nós também temos variações.

Mas o vosso ciclo hormonal é um ciclo de 24 horas e é sempre igual todos os dias.

Eu não estava a comparar, estou a dizer, nós é que devíamos estar tão em contacto com as nossas variações de humor, era o meu ponto, como vocês estão com as vossas.

Mas as vossas variações de humor são variações de humor que estão associadas àquilo que são necessidades básicas do ser humano. É acordar e tem energia Vou comer. Não, mas é mesmo. Acordei, tenho energia, vou comer.

Vou cagar, tenho tesão.

Exatamente. Ao final do dia, estou cansada. E tudo começa de novo. Juro, quem me dera que as minhas necessidades biológicas fossem só regidas por isso.

Podes crer. Mas é tão mais fixe. Quando eu comecei a perceber, e isto é muita culpa também da educação e aquilo que não nos dão, que não nos chegam. Eu adorava que me tivessem explicado isso quando eu era muito mais nova, porque me facilitaria imenso perceber os processos pelos quais eu estou a passar. E é engraçado, quando tens alguém ao teu lado, neste caso um namorado, e se for superatento como é o meu, diz: "Não estás naquela fase. Lembra-te que o ano passado ou o mês passado também estavas assim, neste dia. Vai lá espreitar na app se não é." E é fixe porque dá para relativizar. "Ah, ok, eu estou de facto super fatalista agora, muito sensível, muito irritadiça", e dá para relativizar e perceber que são as hormonas. Não deixa de ser uma merda, porque hormonas. E principalmente, eu estou a sentir isso agora, esta entrada nos 40, estou a sentir imenso coisas que a minha mãe também se queixava e felizmente agora já estamos a começar a falar mais disso.

Sim, falar muito mais de perimenopausa.

Pobres mulheres.

Sim, é verdade.

You fucking men.

É verdade.

O meu estereótipo das mulheres favorito.

Desculpa, antes de dizer isso. Vi hoje ou ontem um estudo científico que foi feito sobre se o prazer sexual dos homens era ou não afetado pela endometriose das mulheres.

Ah, ok. Quando a endometriose não está nem perto de estar estudada, qual é a prioridade?

Mas já estão a estudar como é que isso afeta o homem.

O tesão dos meninos.

E já há gominhas para disfunção erétil. Exato, porque os homens podem não conseguir engolir um comprimido, uma gominha.

Como é que se chama aquele livro espetacular que tu leste sobre como a ciência sempre foi feita do ponto de vista masculino?

"Mulheres Invisíveis", da Caroline Criado-Perez.

Adoro, também já li.

O meu estereótipo favorito associado às mulheres, e que é o que me diverte mais, é que vocês deixam sempre o carro todo cagado. Eu adoro aquela ideia de o interior do carro estar sempre como vocês nunca querem a vossa casa. É espetacular, é sempre garrafas, talões, vocês tratam o carro de uma maneira. Epá, eu acho isso hilariante.

Eu não moro no carro.

Isso é verdade.

A Diana mora às vezes na sua caravana. Eu não moro no meu carro.

Isso é verdade, mas eu odeio isso. Eu odeio isso. E por exemplo, quando se fica alojada num hotel. A minha casa tem que estar super organizada, porque clareza mental, eu preciso de espaço, organização, mas vou para um sítio qualquer e eu sei que lá vou ficar três ou quatro dias.

Bandalheira.

Safu, é para o teu lado.

Eu também sou um bocado assim. Porque acho que isso é transitório.

Não, e tem graça. É o estereótipo de mulheres que eu acho o mais engraçado para mim. Acho que esse é o mais giro. A peça, que se chama "Histeriótipo", disse bem?

Muito bem. Histeria, que vem do grego útero. E porque antigamente as alterações emocionais das mulheres eram sempre associadas a uma patologia e eram sempre as histéricas, quando na verdade, se calhar as mulheres só ficaram histéricas porque foram reprimidas durante muito tempo. E tudo era uma histeria, vamos interná-la e choque.

Esta histérica, vai para ali, vai para aquele reformatório.

E tanta génia que se deve ter perdido em alas psiquiátricas por causa destes diagnósticos. Mas então vem daí, "Histeriótipo".

A peça esteve em cena no Auditório Municipal José de Castro, 16 e 31 de outubro, e as pessoas estão a dizer assim: "Ah, mas isso já foi". De 19 a 21 de novembro vai estar na Escola de Mulheres no Clube Stefânia, no Saldanha, em Lisboa. Portanto, as pessoas têm estes três dias para ver a peça.

Nós vamos lá estar. Não que vos interesse irem ver a peça.

As pessoas...

Nós nem sabemos em qual é que vamos estar.

Também não sabemos.

É quinta, sexta e sábado.

Exatamente.

E depois, com muita fé e esperança, eu espero que nós consigamos vender o espetáculo e correr Portugal com ele. Mas pronto, não fiquem à espera que isso aconteça, porque também aconteceu com o outro. "Ai, quando é que agora vens ao Porto?" Já não vou com o outro, com o "Desconfortável", acabou.

Pois, esse era outro, que nós falámos muito do espetáculo aqui, do monólogo do "Desconfortável". Tu abriste novas datas agora para o final do ano e eu gostava de terminar com isso só para fecharmos full circle, porque falámos de ti há mais ou menos dois anos desse monólogo e agora voltou. Ficámos muito contentes, fartámo-nos de dizer às pessoas para irem ver. Eu chateei os meus amigos todos para irem ver e tu vais voltar com ele.

Vou voltar, porque eu não queria nada voltar a este espetáculo, porque já foi escrito há muitos anos e é um espetáculo muito biográfico e há coisas que eu já não penso da mesma maneira, já não as queria dizer assim, mas houve uma conversa muito interessante com um colega ator que eu tive. Ele que estava há muito tempo em cena com um espetáculo, também um monólogo. O que se faz quando já não se quer dizer estas coisas? Eu já não quero fazer o espetáculo, há coisas com as quais eu já não me identifico. Ele dizia: "O espetáculo já não é teu, é como um livro. A partir do momento em que lanças e que acaba a tua obra". Enquanto houver público, o espetáculo tem que continuar a ser feito. Pronto, e então é sempre nesta ótica que eu tenho continuado a vender. Este ano são as últimas datas. Eu queria terminar em Lisboa, porque eu fiz várias temporadas. A última digressão foi em 2025, no Norte, Algarve e Alentejo. E agora vamos fazer duas datas em Lisboa, que é no Teatro do Bairro, dia 1 e 2 de dezembro. Abri e esgotaram, o teatro também é pequenino, esgotaram rapidamente e eu abri uma sessão extra. Portanto, dia 1 de dezembro, que é feriado, há uma sessão às 18h e depois há uma sessão às 21h30. E no dia 2 há uma sessão às 21h30.

Ok, e as das 21h30 são as que estão esgotadas.

As das 21h30 são as que estão esgotadas. Vou dar aqui uma dica que as pessoas não sabem, que eu acho que só a malta do meio é que sabe, isto é uma coisa interessante. Tu às vezes vais ver e os bilhetes estão esgotados, só há lugares para mobilidade reduzida, as cadeiras de rodas. O que acontece? Tu não podes comprar aquilo se não fores realmente uma pessoa portadora de mobilidade reduzida, mas podes ir para o teatro e se não aparecer até à hora do espetáculo, se não aparecer um cadeirante a querer comprar bilhete, eles podem vender aqueles lugares.

Ok.

O que é que acontece? Podes ficar num lugar em que é um espaço vazio, eles põem um banco ou uma cadeira, outra coisa qualquer, mas eles podem vender aqueles lugares.

Mas se queres muito ver...

Se queres muito ver, é ir até lá e dizer: "Lugares de mobilidade reduzida estão ocupados ou não?" Temos que esperar até o último para ver se aparece alguém. Se não aparecer, o lugar é seu.

Só dizer, quando tu começaste a dizer: "Há aqui uma dica que nós no meio usamos, que é em relação aos lugares de mobilidade reduzida. Vocês podem..." Atiraste o primeiro andar.

Aluga uma cadeira.

E vão para esses lugares.

Outra dica, nos museus, o meu pai uma vez sentiu-se mal, estava com problema na perna e estávamos no Tate, acho eu, e pedimos uma cadeira de rodas. Uma cadeira de rodas no museu é mel, é tipo VIP treatment. Passas à frente em todo lado, é uma maravilha. Fica a dica.

Eu acho que os museus, porque repara, isto é um conceito que eu tenho. Eu já não sei onde é que eu vi isto, mas nos museus tu tens o quadro na parede e tu vais andando pelo museu e vais vendo os quadros nas paredes. Por que não é ao contrário? Por que não sou eu que estou parado num sítio e os quadros vão rodando tipo sushi.

Sushi conveyor belt.

E os quadros vão passando. E eu, quando vir um quadro, espero um bocadinho e o quadro vai passar por mim.

É muito cansativo, não é? Vocês não se sentem muito cansados nos museus? Andas, paras.

Qual é a sala onde eu estou? Ver o mapa. Queres ir ali, ok.

Deixa-te estar sentado e o quadro passa.

O quadro passa. Vamos deixar esta aqui, não está patenteada ainda.

Eu não sei onde é que eu vi isto ou se é da minha cabeça. Não faço ideia se me influenciei de alguém. Está aqui, vamos deixar para o mundo. Diana, gostámos muito.

Muito obrigada.

Obrigado por teres vindo. Até ver não desmaiaste por causa dos gatos.

Estou ótima, agora é sair daqui diretinha para o carro.

Exatamente. Podem comprar bilhetes para o "Estereotipo", para 19 a 21 de novembro, na Escola de Mulheres.

Vão ao Instagram. "Estereotipo", o meu ou o do espetáculo.

Para o "Monólogo Desconfortável" também, para o dia 1 de dezembro, às 18h, no Teatro do Bairro. Gosto muito, já lá fiz stand up, é um teatro muito chique. Nós temos um e-mail que é o terapiadecasalpodcast@gmail.com, onde vocês podem mandar todas as questões que quiserem sobre as vossas relações.

Se quiserem também falar sobre como é que se sentem em relação a estereótipos de género, como é que são os estereótipos de género na vossa relação, qual é que é o estereótipo de género que vocês mais desafiam na vossa relação, também pode ser interessante.

Com o qual se identificam, com o qual nunca se identificaram. Eu acho que é um tema muito giro para nós falarmos.

Nós podemos voltar a falar isto para a semana.

E nós, como sabem, nunca usamos nomes verdadeiros. Vocês, se têm desconforto de nós estarmos aqui a falar de histórias vossas ou a responder a e-mails vossos, vocês sabem que nós nunca dizemos o nome verdadeiro de ninguém. E quando a Rita diz, eu ponho um pi por cima.

Estamos a ser tratados por Ruth.

Ruth.

Ok, obrigado, Ruth.

Obrigada. E a Mena Cavaqueira, não querem dar uma mirena?

Olha, é verdade. No mesmo fim de semana do espetáculo, acontece a nossa Mena Cavaqueira. A Diana não sabe o que é a Mena Cavaqueira.

Eu sou superfã vossa.

Temos a Mena Cavaqueira, a nossa festa de podcast com corte e costura, no Bad Vibras Terapia de Casal, não necessariamente por esta ordem.

Ainda não decidimos a ordem.

Ainda não decidimos a ordem.

Eu vou lá estar. Eu saio direto do espetáculo do Maria Matos e vou para lá.

Corres para a nossa festa. E depois tem festa, dia 7, connosco, com os hosts dos podcasts e com Sapatruxa e Alex Alva.

Exatamente. Portanto, é um dia inteiro na Casa Capitão, primeiro com podcast e depois com festa.

Podem comprar bilhetes só para podcast, só para a festa ou para os dois.

Exatamente. E acho que é isto. Acho que já vendemos o nosso peixe todo, ou não?

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