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Sunday, October 18, 2026

"É para aguentar." A primeira noite de acampada em Lisboa

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Sentado dentro de uma tenda, de rosto parcialmente tapado, Gabriel, de 22 anos, enumera os motivos que aqui o trouxeram. “Não consigo arrendar uma casa neste momento. Estava a dividir a casa com três pessoas, uma saiu e agora temos todos de sair”, conta. Pagavam dois mil euros pelo apartamento. Agora tem até ao final do mês para encontrar outra opção. “Não temos ideia mesmo [se vamos conseguir arranjar]. Talvez tenhamos de ir para a rua, não sei“.

Não faltam exemplos. Adriana Lima, uma das porta-vozes da acampada de Lisboa, tem 26 anos, um contrato efetivo como professora e não antecipa sair da casa que aluga e conseguir comprar casa num futuro próximo. “Apesar de ter feito tudo o que nos mandam fazer — ir para a faculdade, ter mestrado, arranjar trabalho na minha área — não consigo comprar casa em Lisboa. Estou a pagar 600 euros por uma casa que estou a dividir com seis pessoas”, explica.

Há muitos outros que se juntam à manifestação por solidariedade. Ana Loureiro, de 43 anos, há muito que conseguiu comprar casa e veio para se juntar aos muitos que passam dificuldades para conseguir a mesma conquista. “Aquilo que eu estou a fazer, que é um trabalho essencial — eu sou enfermeira —, o ordenado que eu ganho com este modo de vida, com este incremento do custo médio de vida, eu não sei se vou conseguir até ter uma vida digna”, admite. “E uma vida digna não é só pagar contas”.

A enfermeira veio com uma tenda e está pronta para ali ficar enquanto for possível. Quanto tempo? Não sabe dizer. “Acima de tudo estarmos aqui a marcar todos presença. Deixem os bares, deixem os cafés, tragam tudo para aqui, acho que é o lema destes dias”.

Há também quem recorde que o problema não é só em Portugal, aludindo ao país vizinho. O caso de Maricarmen, uma idosa de 87 anos despejada da casa onde vivia há 70 anos, lançou os acampamentos em Puerta del Sol, em Madrid, que já duram há três semanas. “No fundo, houve uma visibilidade maior dessa senhora, mas há montes de gente nesta situação”, diz Liliana (nome fictício), de 26 anos. “Não são só jovens, é uma questão muito etária, mas não são só jovens”, sublinha.

“Não se fala com a bófia”

Os cânticos de ordem são interrompidos a meio da tarde para um breve alerta à multidão: “Não se fala com a bófia”. “Se alguém for detido, se alguém perguntar alguma coisa não falem. Toda a gente tem o direito de fechar a boca”, diz uma mulher ao megafone. “A bófia não é nossa amiga”. “Não precisam de saber as nossas informações, como viemos aqui ter, toda a gente que aqui está veio aqui ter por mero acaso”, afirma. Explica que, se alguém for detido, a primeira coisa que deve fazer é pedir um advogado.

As palavras recordam os momentos vividos nas manifestações no Porto, nos últimos dias. Na quinta-feira pelo menos 37 pessoas ficaram feridas, algumas com gravidade, e sete precisaram de assistência hospitalar após uma operação policial na Praça D. João I. Um agente também ficou ferido.

Das tendas à carga policial. O que aconteceu no Porto e o que diz a lei sobre a atuação da PSP

Os manifestantes e autoridades apresentam versões diferentes do que se passou. De um lado alegou-se que não chegaram ordens claras para dispersar e desmontar o acampamento, mantendo-se por isso um “cordão pacífico” à volta das tendas. Já a PSP recordou que a lei impede manifestações a partir das 00h30 e garante que agiu porque os manifestantes resistiram e tentaram impedir a sua ação.

No Rossio olha-se com desconfiança para os agentes da PSP, das equipas de intervenção e polícia municipal que patrulham na praça. O número de carrinhas das autoridades vai aumentando durante a tarde. Adriana Lima sublinha que os manifestantes não se sentem intimidados: “Ninguém deve ter medo de sair à rua”.

“Otimista”, a enfermeira Ana Loureiro espera que não haja problemas esta noite. Mas para prevenir, e porque vê “muita raiva acumulada daquele lado, sem razão”, trouxe consigo um kit de primeiros socorros. “Como já deu para ver ali atrás, parece que vai haver uma guerra. A pressão visual é muito grande, a quantidade de carros que está aqui para a quantidade de pessoas que aqui está (…). Tenho até pena deles de uma certa forma, porque eles também vivem em casas partilhadas, vêm de aldeias, ganham muito pouco e são instrumentalizados desta maneira”, diz.

A tarde ainda é marcada pela assembleia geral da acampada, com espaço para os manifestantes interessados falarem, dentro de um limite de dez minutos. “O que é que podemos esperar de Luís Montenegro, que tem 55 casas?”, começa logo por dizer o primeiro interveniente. No final são aprovadas as seis reivindicações: a reversão da lei do arrendamento; o fim das demolições e dos despejos sem alternativa habitacional; um travão à aquisição de habitação por parte de fundos imobiliários; o aumento de habitação pública; a iniciativa pública de recuperação de imóveis devolutos para fins habitacionais; e a aplicação de tetos de renda acessíveis.

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