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Wednesday, November 4, 2026

O Brasil não vai melhorar sem as favelas

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"Favela potência" virou selo. Virou legenda de campanha, discurso de executivo e capa de relatório.

Depois vieram o "empoderamento", o "protagonismo" e o "propósito". Palavras importantes, mas que, repetidas sem compromisso, alimentam uma espécie de mística corporativa sobre as periferias.

O problema não está nas palavras. Está na distância entre o discurso e a prática.

A favela movimenta bilhões, produz cultura, cria negócios e desenvolve soluções. Mas quantas vezes os profissionais desses territórios são chamados para construir as estratégias, negociar os contratos e participar dos resultados?

Não precisamos enfeitar o pavão, para usar uma expressão conhecida no mercado.

Basta abrir oportunidades reais, deixar quem conhece o território contribuir e remunerar justamente pelo trabalho. O resultado tende a ser melhor para todos.

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Não é preciso inventar um propósito para fazer negócios nas favelas. É preciso fazer negócios com elas.

A diferença está entre transformar pessoas em público-alvo ou reconhecê-las como parceiras.

E o óbvio precisa ser dito, quem mora na favela também paga a conta

Existe um dado que ajuda a mudar essa mentalidade.

Segundo a Oxfam Brasil, os 10% mais pobres comprometem 32% da renda com tributos, enquanto o 0,1% mais rico compromete apenas 10%.

Quem vive na favela paga impostos diariamente, no preço do feijão, na conta de luz, no transporte e no material escolar.

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Portanto, não é apenas beneficiário de políticas públicas. É contribuinte, trabalhador, empreendedor e consumidor.

É sócio do país.

E, como sócio, deveria participar mais das decisões sobre o destino dos recursos públicos.

A pergunta precisa mudar. Em vez de "o que podemos fazer pela favela?", deveríamos perguntar: "o que vamos construir com a favela?".

Parece uma mudança pequena, mas altera a relação de poder entre quem decide e quem convive diariamente com as consequências dessas decisões.

Desenvolvimento não acontece por acaso

Quando uma creche abre vagas, uma mãe consegue trabalhar, a renda familiar aumenta e o comércio ganha movimento.

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Em Paraisópolis, nasceu uma experiência pioneira de atendimento infantil noturno em São Paulo, pensada para famílias que trabalham ou estudam à noite.

Quando o saneamento chega, melhoram as condições de saúde, a produtividade e a qualidade de vida. Quando a mobilidade melhora, diminuem as barreiras para estudar, trabalhar e consumir.

São investimentos que beneficiam diretamente a favela, mas cujos resultados alcançam toda a cidade.

O poder público precisa compreender essa relação e, principalmente, envolver a população na definição das ações, das prioridades e da aplicação dos recursos.

O Programa Nova Paraisópolis ajuda a ilustrar essa discussão.

Com investimentos previstos de R$ 2,33 bilhões, o programa reúne intervenções de habitação, saneamento, mobilidade e infraestrutura em Paraisópolis, Jardim Colombo e Porto Seguro, na zona sul de São Paulo.

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Mas essa história não começou com o anúncio de um programa ou o lançamento de um edital.

Ela é resultado de décadas de reivindicações, mobilização comunitária, participação popular e, também, de vontade política para transformar demandas em investimentos.

Paraisópolis conta com uma trajetória de conselhos gestores, organizações comunitárias e lideranças que há muito tempo discutem o futuro do território.

O programa incorpora processos de participação dos moradores na definição de prioridades. Sua efetividade dependerá também da capacidade de manter esse diálogo durante a execução e garantir que os investimentos respondam às necessidades reais da população.

A participação popular não pode servir apenas para legitimar decisões já tomadas. Precisa influenciar o que será feito, onde, como e com quais recursos.

Obras podem transformar ruas. Mas são as pessoas que conhecem os caminhos, os problemas e as oportunidades de cada território.

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Sem elas, até um investimento bilionário corre o risco de entregar menos do que poderia.

Envolvimento, participação e oportunidade

Se tivesse que resumir o convite deste Dia da Favela em três palavras, seriam essas.

Envolvimento. Quem decide sobre o território precisa ouvir quem vive nele, não como formalidade, mas como parte do processo de decisão.

Participação. Empresas, governos e instituições precisam construir relações duradouras, remunerar justamente e compartilhar responsabilidades e resultados.

Oportunidade. Contratar profissionais locais, formar fornecedores, financiar empreendedores e permitir que parte da riqueza gerada permaneça na comunidade.

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Já vimos isso funcionar em produções audiovisuais de padrão internacional realizadas com profissionais das periferias e em operações de mídia que alcançam milhares de comunidades, gerando renda e desenvolvendo fornecedores locais.

Não se trata de reduzir a ambição dos negócios para produzir impacto social. Trata-se de compreender que incluir o território na estratégia pode melhorar o próprio negócio.

No fim, a diferença aparece em quem participa das decisões, quem assina os contratos e para quem vai o PIX.

E fica um convite especial

O Dia da Favela remete a 4 de novembro de 1900, quando o termo apareceu em um documento oficial associado ao estigma sobre o Morro da Providência, no Rio de Janeiro.

Mais de um século depois, as favelas responderam à exclusão com trabalho, cultura, tecnologia, organização comunitária e capacidade de empreender.

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Não precisamos de mais uma campanha dizendo que a favela é criativa, resiliente ou potente.

Precisamos de oportunidades, investimentos, participação nas decisões e responsabilidade com os resultados.

Há dois anos, eu escrevia sobre a potência das favelas. Hoje, quero ir além.

A favela não precisa provar mais uma vez o seu valor. Precisa participar das decisões, dos investimentos e dos resultados que ajudam a construir o país.

Desenvolver as favelas não é fazer um favor a seus moradores. É investir no futuro do próprio Brasil.

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Opinião

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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