O Brasil não vai melhorar sem as favelas

"Favela potência" virou selo. Virou legenda de campanha, discurso de executivo e capa de relatório.
Depois vieram o "empoderamento", o "protagonismo" e o "propósito". Palavras importantes, mas que, repetidas sem compromisso, alimentam uma espécie de mística corporativa sobre as periferias.
O problema não está nas palavras. Está na distância entre o discurso e a prática.
A favela movimenta bilhões, produz cultura, cria negócios e desenvolve soluções. Mas quantas vezes os profissionais desses territórios são chamados para construir as estratégias, negociar os contratos e participar dos resultados?
Não precisamos enfeitar o pavão, para usar uma expressão conhecida no mercado.
Basta abrir oportunidades reais, deixar quem conhece o território contribuir e remunerar justamente pelo trabalho. O resultado tende a ser melhor para todos.
Não é preciso inventar um propósito para fazer negócios nas favelas. É preciso fazer negócios com elas.
A diferença está entre transformar pessoas em público-alvo ou reconhecê-las como parceiras.
E o óbvio precisa ser dito, quem mora na favela também paga a conta
Existe um dado que ajuda a mudar essa mentalidade.
Segundo a Oxfam Brasil, os 10% mais pobres comprometem 32% da renda com tributos, enquanto o 0,1% mais rico compromete apenas 10%.
Quem vive na favela paga impostos diariamente, no preço do feijão, na conta de luz, no transporte e no material escolar.
Portanto, não é apenas beneficiário de políticas públicas. É contribuinte, trabalhador, empreendedor e consumidor.
É sócio do país.
E, como sócio, deveria participar mais das decisões sobre o destino dos recursos públicos.
A pergunta precisa mudar. Em vez de "o que podemos fazer pela favela?", deveríamos perguntar: "o que vamos construir com a favela?".
Parece uma mudança pequena, mas altera a relação de poder entre quem decide e quem convive diariamente com as consequências dessas decisões.
Desenvolvimento não acontece por acaso
Quando uma creche abre vagas, uma mãe consegue trabalhar, a renda familiar aumenta e o comércio ganha movimento.
Em Paraisópolis, nasceu uma experiência pioneira de atendimento infantil noturno em São Paulo, pensada para famílias que trabalham ou estudam à noite.
Quando o saneamento chega, melhoram as condições de saúde, a produtividade e a qualidade de vida. Quando a mobilidade melhora, diminuem as barreiras para estudar, trabalhar e consumir.
São investimentos que beneficiam diretamente a favela, mas cujos resultados alcançam toda a cidade.
O poder público precisa compreender essa relação e, principalmente, envolver a população na definição das ações, das prioridades e da aplicação dos recursos.
O Programa Nova Paraisópolis ajuda a ilustrar essa discussão.
Com investimentos previstos de R$ 2,33 bilhões, o programa reúne intervenções de habitação, saneamento, mobilidade e infraestrutura em Paraisópolis, Jardim Colombo e Porto Seguro, na zona sul de São Paulo.
Mas essa história não começou com o anúncio de um programa ou o lançamento de um edital.
Ela é resultado de décadas de reivindicações, mobilização comunitária, participação popular e, também, de vontade política para transformar demandas em investimentos.
Paraisópolis conta com uma trajetória de conselhos gestores, organizações comunitárias e lideranças que há muito tempo discutem o futuro do território.
O programa incorpora processos de participação dos moradores na definição de prioridades. Sua efetividade dependerá também da capacidade de manter esse diálogo durante a execução e garantir que os investimentos respondam às necessidades reais da população.
A participação popular não pode servir apenas para legitimar decisões já tomadas. Precisa influenciar o que será feito, onde, como e com quais recursos.
Obras podem transformar ruas. Mas são as pessoas que conhecem os caminhos, os problemas e as oportunidades de cada território.
Sem elas, até um investimento bilionário corre o risco de entregar menos do que poderia.
Envolvimento, participação e oportunidade
Se tivesse que resumir o convite deste Dia da Favela em três palavras, seriam essas.
Envolvimento. Quem decide sobre o território precisa ouvir quem vive nele, não como formalidade, mas como parte do processo de decisão.
Participação. Empresas, governos e instituições precisam construir relações duradouras, remunerar justamente e compartilhar responsabilidades e resultados.
Oportunidade. Contratar profissionais locais, formar fornecedores, financiar empreendedores e permitir que parte da riqueza gerada permaneça na comunidade.
Já vimos isso funcionar em produções audiovisuais de padrão internacional realizadas com profissionais das periferias e em operações de mídia que alcançam milhares de comunidades, gerando renda e desenvolvendo fornecedores locais.
Não se trata de reduzir a ambição dos negócios para produzir impacto social. Trata-se de compreender que incluir o território na estratégia pode melhorar o próprio negócio.
No fim, a diferença aparece em quem participa das decisões, quem assina os contratos e para quem vai o PIX.
E fica um convite especial
O Dia da Favela remete a 4 de novembro de 1900, quando o termo apareceu em um documento oficial associado ao estigma sobre o Morro da Providência, no Rio de Janeiro.
Mais de um século depois, as favelas responderam à exclusão com trabalho, cultura, tecnologia, organização comunitária e capacidade de empreender.
Não precisamos de mais uma campanha dizendo que a favela é criativa, resiliente ou potente.
Precisamos de oportunidades, investimentos, participação nas decisões e responsabilidade com os resultados.
Há dois anos, eu escrevia sobre a potência das favelas. Hoje, quero ir além.
A favela não precisa provar mais uma vez o seu valor. Precisa participar das decisões, dos investimentos e dos resultados que ajudam a construir o país.
Desenvolver as favelas não é fazer um favor a seus moradores. É investir no futuro do próprio Brasil.
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Opinião
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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.
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