A democracia não é um jogo de palavras

A minha liberdade termina onde começa a liberdade dos outros. Esta frase, tantas vezes repetida, recorda uma verdade simples que a democracia nunca pode esquecer: a liberdade vive de direitos, mas também de limites. Vive da pluralidade, mas também de regras. Sem liberdade, as regras transformam-se em opressão. Sem regras, a liberdade degrada-se em arbitrariedade.
Nos últimos anos, temos assistido a um desvio do debate político das questões de fundo para disputas semânticas e procedimentais. Em vez de se discutir o mérito das propostas ou os problemas concretos das pessoas, discute-se o significado das palavras, a interpretação mais conveniente dos regulamentos ou a forma de contornar limitações impostas pelas próprias regras da democracia.
É certo que as palavras importam. A política constrói-se através da linguagem. Mas existe uma diferença entre debater ideias e discutir palavras para contornar regras comuns.
Quando a política se transforma num exercício permanente de argumentação semântica, perde de vista a sua finalidade essencial. A política nasce da polis, a cidade, a comunidade organizada, e existe para responder aos desafios coletivos da vida em comum, não para alimentar debates que apenas fazem sentido nos corredores partidários.
O cidadão comum dificilmente compreende porque razão uma assembleia perde tempo a discutir formulações e interpretações quando enfrenta problemas concretos relacionados com a habitação, a saúde, a educação, a mobilidade ou a segurança. E quando não compreende, afasta-se. Não necessariamente por rejeitar a democracia, mas por deixar de reconhecer nela uma resposta útil para os desafios do quotidiano.
Este afastamento é um dos maiores riscos para as instituições democráticas. A vida real raramente cabe nos extremos. Faz-se de escolhas difíceis e de objetivos concretos: viver mais anos, viver com saúde, viver com segurança e viver com qualidade. Quando os representantes eleitos parecem discutir uma realidade paralela, a sociedade afasta-se.
O mesmo acontece quando as propostas são apresentadas de forma apelativa, mas sem viabilidade prática. Confunde-se a popularidade de uma ideia com a sua capacidade de resolver problemas. A simpatia da mensagem não substitui a consistência da solução. A sedução do slogan não dispensa a prova da realidade.
Numa democracia saudável, o governo governa e a oposição é uma condição da sua qualidade. Fiscaliza, questiona, propõe alternativas e obriga quem governa a justificar as suas decisões. Quando o governo deixa de escutar, perde-se no conforto da maioria. Quando a oposição se concentra no ruído e na polémica permanente, enfraquece a função que justifica a sua existência. Muito ruído, mas pouco discurso. Muita reação, mas pouca construção.
Portugal necessita de um debate sério sobre a educação, a saúde, a habitação, a segurança, o crescimento económico, a cultura e o desenvolvimento humano. Em todas estas áreas existirão diferenças ideológicas legítimas. A democracia não exige unanimidade. Exige a capacidade de reconhecer que os objetivos fundamentais devem ser partilhados, ainda que os caminhos para os alcançar sejam distintos. Podemos divergir sobre as estratégias; não podemos perder de vista os destinos.
É por isso que o país precisa de menos política de palco e de mais liderança, menos centrada na controvérsia mediática e mais comprometida com um horizonte de médio e longo prazo.
Saint-Exupéry dizia que, para construir um barco, não basta juntar homens para recolher madeira; é preciso ensiná-los a desejar a imensidão do mar. Mais do que tarefas, a comunidade precisa de reconhecer um destino comum. Demasiadas vezes discutimos a madeira e esquecemo-nos do mar.
A democracia não se enfraquece quando existem diferenças. Enfraquece quando deixamos de discutir o que verdadeiramente importa. Quando as palavras passam a ocupar o lugar das ideias. Quando a forma vence a substância. Porque a política nasceu para servir a cidade e os cidadãos. Tudo o resto é acessório.
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