Que falta faz um Pinheiro de Azevedo!

Uma delegação de países das Caraíbas, liderada pela ministra da Cultura da Jamaica, foi recentemente ao Palácio de Buckingham entregar uma petição com o objectivo de levar os britânicos a pagar reparações pelo antigo tráfico transatlântico de escravos. Mais especificamente, os peticionários querem que o Privy Council, isto é, o Conselho Privado do Rei, emita um parecer afirmando que a escravidão era ilegal segundo a lei britânica desse tempo, parecer esse que, a ser emitido, exporia o Reino Unido a uma mais do que provável futura litigância nos tribunais e torná-lo-ia responsável pelo pagamento de reparações.
Alguns dias antes o Guardian tinha noticiado que o Comité para a Eliminação da Discriminação Racial, um desses ninhos de wokismo que medram na (e à sombra da) ONU, viera defender a tese de que os estados europeus estariam obrigados a fazer reparações pelo tráfico de escravos, não porque essa prática fosse ilegal na altura em que foi praticada ou por outras razões históricas, mas por motivos jurídicos indirectos, isto é, por terem sido signatários de uma Convenção de 1965 que os obriga a combater todas as formas de discriminação racial — o que, por portas travessas, nas cabecinhas dos membros do dito comité, iria retroactivamente desembocar no antigo tráfico de escravos. Entre as várias formas de reparação que o comité preconiza, estaria, como o Telegraph realçou, a obrigatoriedade de erigir estátuas e monumentos a personalidades negras.
Esta tese do dito comité diverge da tese defendida pela delegação vinda das Caraíbas e suscita muitas objecções que deixarei para outro momento. O que aqui quero sublinhar é que estas reivindicações e teses sucessivas, total ou parcialmente contraditórias ou divergentes, não devem espantar-nos pois os activistas dentro e fora da ONU recorrem a todos os estratagemas e argumentos possíveis, defendendo ao mesmo tempo isto e aquilo, uma coisa e o seu contrário, para tentarem fazer vingar a obrigatoriedade de reparações. Andamos nisto há 25 anos, desde a Conferência de Durban, em 2001, época em que publiquei o meu primeiro artigo sobre o assunto, no Público. Nestes 25 anos, perante as pressões muito diversificadas dos activistas, os governos europeus têm-se encolhido, fingindo-se de mortos, tentando passar entre os pingos da chuva, procurando ser politicamente correctos, convencidos de que essa será a boa receita e de que, com o passar dos anos, os reivindicantes se cansarão e desistirão de reivindicar — o que, por este caminho e como é óbvio, não irá acontecer.
O que espanta é que até agora nenhum governante europeu tenha mandado esta tropa fandanga dar uma volta com todas as letras e que, com a excepção que referirei no fim, não haja nas altas esferas governamentais quem reaja face aos comités bem-pensantes, reparacionistas e woke até aos ossos que pululam na ONU e fora dela, com a frontalidade do saudoso Pinheiro de Azevedo, que aqui recordo para quem, sendo mais jovem do que eu, nunca o tenha ouvido e visto em acção. Parafraseando o valente almirante, e adaptando as suas declarações de Novembro de 1975 ao problema em questão, o que o nosso governo devia dizer era qualquer coisa deste género: “Os comités da ONU não interessam coisa nenhuma, os das Caraíbas idem e o engenheiro Guterres também não. Querem fiado vão ao Totta, e eu agora vou almoçar”.
Infelizmente, a Europa Ocidental está governada por pessoas timoratas com vergonha da sua sombra e da sua história, que, na ONU, como diz um amigo meu, “engolem as patranhas todas que sejam apresentadas por africanos e/ou islâmicos”. Ainda há dias o vimos no seu voto favorável à substituição do mapa Mercator pelo Equal Earth, mais uma bizarria ideológica porque o Mercator não foi feito para menorizar África e os africanos, mas sim para, planificando a esfera terrestre, facilitar a vida aos navegantes. Fazem falta governantes europeus que digam claramente, preto no branco, aos países africanos e caribenhos, e aos juristas que os representam e acicatam, que não há qualquer fundamento moral, histórico ou, suponho eu, jurídico, para pagar reparações pelo tráfico transatlântico de escravos (nem, aliás, por quaisquer outros dos vários que houve no já muito distante passado). Carecemos de governantes europeus capazes de dizer diariamente à gente woke que nos fala nesse tráfico de escravos e aponta um dedo acusatório aos estados europeus que nele estiveram envolvidos — a Dinamarca, o Reino Unido, Portugal, França, os Países Baixos e a Espanha — que são pessoas intelectualmente desonestas, muito vesgas ou muito esquecidas, porque os estados africanos — os reinos do Congo, do Daomé, da Lunda e muitos outros — também participaram activamente no dito tráfico e se, por hipótese absurda, houvesse reparações a fazer, também eles, que escravizavam e vendiam os povos vizinhos, deveriam ser chamados a fazê-las. E outro tanto se diga relativamente a vários outros estados, nomeadamente os árabes.
É absolutamente repugnante esta moda woke de responsabilização exclusiva do homem branco por todas as violências e atrocidades da História, ao mesmo tempo que, com uma borracha gigante, se apagam as violências e atrocidades dos outros, sejam eles asiáticos, africanos ou os povos da América pré-colombiana. É intolerável que se culpem os europeus na errada convicção de terem sido apenas eles a engendrar sistemas opressivos, como se os outros povos, nomeadamente os africanos dos séculos XV a XIX, fossem inteiramente formados por gente sem conhecimentos e capacidade de pensar e decidir por si. Que estúpida e, essa sim, racista presunção!
De toda a evidência, os actuais governantes na Europa Ocidental, portugueses incluídos, perfilharam essa presunção e enfiaram até às orelhas a carapuça da irredimível e exclusiva culpa do homem branco. É por estas e por outras que o Chega, o Reform e partidos que se situam nessa zona do espectro político, e que têm neste assunto uma posição clara e frontal de recusa de reparações, crescem nas urnas. Partidos mais do que ambíguos quanto a esse tema, como são o PSD e o PS, têm-se revelado, nesta matéria, uma profunda desilusão, para não dizer coisa pior.
Felizmente surgiu há dias uma luzinha ao fundo do túnel quando o porta-voz do PM britânico, tendo em mente a petição de países das Caraíbas que referi no início deste artigo, declarou, com todas as letras, que o Reino Unido “does not, and will not pay reparations”. Não quererá Luís Montenegro deixar-se de ambiguidades e de navegações em águas turvas, e seguir este muito bom exemplo?
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