Prémios Gulbenkian replicados por vários países

O prémio Gulbenkian para a Humanidade, cujo vencedor da sétima edição será conhecido na quarta-feira, distinguiu já iniciativas em várias partes do mundo, com projetos que ganharam escala e estão a ser replicados noutros países.
A Fundação está, neste momento, interessada em perceber se é possível criar uma rede entre os vencedores, por forma a estimular parcerias, disse à agência Lusa o diretor do Programa de Sustentabilidade e Equidade da Gulbenkian, Luís Jerónimo.
“O feedback que temos vindo a receber é que estas organizações, após o prémio, começaram a trabalhar de uma forma muito mais próxima do que até então e reconhecem que foi muito importante a proximidade que o prémio permitiu dar ao trabalho que fazem, são temas diferentes, mas bastante complementares”, sustentou o responsável da Gulbenkian, em entrevista à Lusa, em vésperas da atribuição de mais um prémio.
Em 2024, o júri, presidido pela ex-chanceler alemã Angela Merkel, reconheceu a importância das práticas regenerativas, em termos de agricultura, na sustentabilidade dos solos, na comunidade de Andhra Pradesh, na Índia.
“Este era um projeto que na altura se circunscrevia a um estado na Índia e neste momento já escalou, não só em termos nacionais, noutros estados na Índia, como já está em processo de replicação na Zâmbia, no Sri Lanka, noutros países interessados, como o caso do Brasil”, revelou Luís Jerónimo.
De acordo com o mesmo responsável, esta é também uma alavanca de empoderamento das mulheres em comunidades tradicionalmente patriarcais. “Uma das agricultoras que aqui esteve connosco, em 2024, aquando do reconhecimento do prémio, é quem está a liderar o processo de replicação no Sri Lanka. Isto é só um exemplo”, sublinhou.
Para Luís Jerónimo, mais do que um ponto de chegada, o prémio é um “ponto de partida” para um trabalho de acompanhamento que permite aferir e multiplicar o impacto no terreno.
No mesmo ano, foi distinguido um projeto no Egito, em áreas semelhantes, mas focado na formação de agricultores de todo o mundo nas novas práticas de agricultura regenerativa biodinâmica.
“O prémio permitiu-lhe quadruplicar a capacidade de formação nestas áreas e hoje já formou mais de 25.000 agricultores de todo o mundo”, referiu Luís Jerónimo.
Ao longo das seis edições, houve 11 premiados. A primeira distinguida, em 2020, foi a ativista Greta Thunberg, que distribuiu o prémio, no valor de um milhão de euros, por 12 organizações da sociedade civil que se encontravam na linha da frente do combate às alterações climáticas, em várias partes do mundo.
“Ela não ficou com o prémio, redistribuiu-o por organizações um pouco por todo o mundo. Foram apoios muito dirigidos para situações de algumas catástrofes naturais que tinham acontecido após o recebimento do prémio”, recordou.
Lançado em 2020, com o objetivo de reconhecer e acelerar iniciativas de ação climática com resultados reconhecidos em benefício das pessoas e do planeta, o prémio contemplou também o trabalho de uma coligação de autarcas na área do clima e da energia, o que permitiu desenvolver projetos nos Camarões e no Senegal.
“No Senegal, permitiu melhorar a gestão da água em sete cidades. Nos Camarões, houve um trabalho muito focado na melhoria da eficiência energética nalgumas localidades”, indicou Luís Jerónimo, ao traçar a geografia do prémio, que chegou igualmente a uma remota comunidade indígena na Indonésia e a uma coligação de organizações com atuação na Antártida.
“Pensamos sempre nesta relação entre o impacto no planeta, na parte ambiental, mas também nas pessoas, na componente mais social. E cada vez mais temos de pensar nessa ligação, porque os impactos das alterações climáticas são cada vez mais evidentes, mas não afetam todos por igual. Mais uma vez, são as comunidades mais vulneráveis, mais desfavorecidas, que tiveram menos responsabilidade pelo estado em que temos o planeta, que vão ser as mais afetadas”, afirmou.
Além do prémio, à escala global, a Gulbenkian dispõe de um orçamento anual de quatro a cinco milhões de euros por ano para financiar o trabalho de organizações da sociedade civil em Portugal, no âmbito da conservação e recuperação da natureza.
As questões do ambiente e da sustentabilidade são encaradas pela Fundação como “um dos maiores desafios” que se colocam hoje às sociedades, em termos globais.
“Acreditamos ser absolutamente fundamental que instituições filantrópicas, como a Fundação Calouste Gulbenkian, tenham um papel nessas áreas, nunca pensando nisto como áreas isoladas; ambiente, componente social. Cada vez mais temos de pensar a relação entre elas. Para percebermos melhor, até, a urgência que é trabalharmos as questões da sustentabilidade, temos de pensar aquilo que são impactos em dimensões sociais”, defendeu Luís Jerónimo.
“As alterações climáticas estão a ter um impacto muito grande nas condições de saúde”, justificou, ao lembrar que Portugal se insere numa das regiões mais expostas ao risco: “A Europa é a zona do globo que está a aquecer de forma mais acelerada”, alertou.
KioskNews shows a cleaned-up reading view extracted from the publisher’s page — the original always lives on their site, not ours.