Lula e Flávio disputam quem prende mais cedo jovens que o Brasil abandonou

Pouco importa se a declaração de Lula foi um cálculo tático desenhado por aliados para encantar os cidadãos compreensivelmente cansados com a violência (80%, segundo a Quaest, são favoráveis à redução). Pouco importa se a sanha de Flávio é fruto da cartilha ideológica tradicional da extrema direita, que trata o Código Penal como panaceia moral e vingança privada.
Seja pragmatismo, capitulação ou convicção, o diagnóstico final é rigorosamente o mesmo: a liderança política que pretende comandar o país a partir do ano que vem desistiu oficialmente do futuro.
Hoje, o sistema carcerário brasileiro não recupera ninguém, funciona, na prática, como pós-graduação financiada pelo Estado para o Primeiro Comando da Capital, o Comando Vermelho e as milícias. Pegar um jovem de 14 ou 16 anos e jogá-lo numa cela superlotada, sem saneamento básico, sem estudo e sob o controle faccionado, não vai reduzir o homicídio ou o latrocínio na esquina. Vai apenas garantir que o crime organizado receba soldados cada vez mais jovens, mais traumatizados e mais fiéis à única estrutura de poder que lhes garante a sobrevivência intramuros.
Quem aplaude a medida costuma fingir demência para um detalhe elementar: o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) já prevê medidas socioeducativas com privação de liberdade para infrações graves. O problema nunca foi a ausência de resposta legal, mas sim o colapso deliberado de um Estado que se recusa a aplicar o ECA com rigor, nem garante estrutura e capacidade real de ressocialização.
É muito mais barato e rende muito mais votos posar de durão na televisão propondo vingança para adolescentes que foram cruéis do que investir em escolas de tempo integral, saneamento na periferia, combate qualificado ao tráfico de armas e inteligência policial contra a lavagem de dinheiro dos verdadeiros barões do crime.
Todo mundo sabe exatamente quem vai pagar essa conta. O filho do empresário dos Jardins ou do condomínio fechado da Barra da Tijuca, quando comete um crime bárbaro embriagado ao volante de um SUV ou um esportivo de luxo, continuará sendo tratado como um "garoto que errou, mas tem a vida toda pela frente", cercado por bancas milionárias de advocacia e medidas alternativas.
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