As mensagens do papa Leão 14 na França e o recado que ouviu dos jovens
Papas em viagens apostólicas não perdem tempo com improvisos. Deslocamentos e encontros são rigorosamente planejados, assim como o teor das homilias e os discursos de chefe de Estado. Há espaço para sair do script, mas este não é um recurso usual, nem entre pontífices carismáticos.
Leão 14, um papa tímido, manteve o firme controle da palavra na sua ida à França, dias atrás. A questão é que a visita transbordou em significados religiosos, políticos e contemporâneos.
O pontífice voltou a falar de tecnologia, retomando o debate sobre a evolução ilimitada da IA, que ele antecipou na sua encíclica Magnifica Humanitas. No santuário de Lourdes, reclamou da nova lei francesa sobre a morte assistida.
Em Paris, foi recebido no Palácio do Eliseu, rezou missa para 800 mil pessoas na Praça da Concórdia e discursou na sede da Unesco. Hoje destaco dois momentos do roteiro: a visita a Metz e a vigília no Stade de France, em Saint-Denis, região metropolitana da capital francesa.
Ir a Metz, uma cidade no nordeste da França com 122 mil habitantes, foi um pedido de Leão 14 ao cardeal Aveline, arcebispo de Marselha, que organizou a visita.
A ideia original era a de que ele fosse a Estrasburgo, sede do Parlamento Europeu. Preferiu visitar o lugar onde se travou a Batalha de Metz, complicado confronto do 3º Exército dos EUA com os alemães, após o desembarque na Normandia. Pode-se duvidar, mas, ali, o pontífice americano homenageou seu país de nascimento.
Lá Fora
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Também em Metz, relembrou o mais famoso habitante. Lá viveu Robert Schuman (1886-1963), criador da Europa moderna, ao lado de Konrad Adenauer e Alcide De Gasperi.
O franco-luxemburguês Schuman, o alemão Adenauer e o italiano De Gasperi chefiaram governos em seus países, no pós-guerra, e lideraram a democracia cristã. Só que o francês tem um papel a destacar: é de sua autoria a "Declaração Schuman", de 1950, pilar do que viria a ser a União Europeia.
Embora a UE não seja uma entidade confessional, e nada conste de precisamente religioso em seu tratado, o papa frisa que a democracia cristã esteve no seu nascimento.
Se funcionou no passado, num continente machucado por duas grandes guerras, poderia fazer sentido no mundo conflagrado de hoje. Daí aproveitou para defender o multilateralismo e criticar a nova corrida armamentista no continente, sob a justificativa do conflito na Ucrânia.
Se o visitante dominou a cena em Metz, no Stade de France, a cena o dominou. Foi visível o impacto do papa ao chegar a um estádio lotado por 80 mil jovens, reunidos para vigília de oração. Foi saudado como popstar por uma multidão dinâmica, vocal, majoritariamente francesa, que preferiu ir a um evento religioso em vez do show da cantora Céline Dion, ícone pop no país, que estava em cartaz na arena de La Défense.
Numa sociedade secular como a francesa, onde 5% dos católicos vão a missas, há uma juventude se aproximando da igreja. Por outro lado, estudos confirmam o número crescente de jovens buscando orientação espiritual em chatbots, ou seja, robôs de bate-papo. Isso abre uma concorrência inesperada para uma instituição que vive da fé, fora os riscos para a humanidade.
Leão 14 parece disposto a ouvir uma geração desprovida de utopias, que assiste aos empregos sendo devorados pela IA, assim como vidas humanas sendo abatidas por drones, nos games das guerras.
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