Onda de calor extrema pressiona economia europeia e força medidas drásticas
Usinas nucleares desligadas. Colheitas realizadas às 3 da manhã. Atrações turísticas icônicas fechando mais cedo.
As temperaturas escaldantes estão forçando medidas drásticas na Europa, onde ondas de calor sucessivas pressionam uma economia já sob pressão das tarifas dos EUA, da concorrência chinesa e dos preços mais altos de energia em razão da guerra no Irã.
A Nuclearelectrica, produtora nuclear estatal da Romênia, começou a desconectar seu único reator operacional da rede elétrica na quinta-feira devido aos níveis recordes de baixa das águas do Danúbio, essenciais para o resfriamento de seus equipamentos, confirmou a empresa à CNN.
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O país declarou estado de emergência energética durante todo o mês de agosto e pediu a empresas e residências que reduzissem voluntariamente o consumo, informou a Reuters.
Em outros países, França e Hungria tiveram de reduzir a produção nuclear devido aos baixos níveis dos rios e às altas temperaturas. As condições de seca também estão alimentando incêndios florestais devastadores e custosos, além de reduzir a produtividade das colheitas, ameaçando elevar os preços dos alimentos.
O verão escaldante da Europa pode custar à economia 180 bilhões de euros ($208 bilhões) neste ano, ou 1% do PIB (Produto Interno Bruto)— aproximadamente o crescimento econômico total esperado para a União Europeia, segundo estimativa do Triodos Bank, com sede nos Países Baixos.
"A queda na produtividade do trabalho provavelmente terá o maior impacto econômico, ao lado das perturbações na agricultura, energia e transporte", afirmou o banco em relatório divulgado neste mês.
Grandes extensões da Europa enfrentam sua quinta onda de calor do ano nesta semana, com partes da Grã-Bretanha, França, Espanha e Itália sob alertas de calor extremo.
A mais recente onda de calor ocorre após a Europa Ocidental registrar o junho e julho mais quentes já documentados, de acordo com o Copernicus, o monitor climático da União Europeia. Em Paris, o calor extremo levou a Torre Eiffel e o Louvre a fecharem mais cedo em alguns dias.
Embora alguns analistas duvidem que o calor terá um impacto significativo no crescimento econômico neste ano, apontando para a melhora na confiança empresarial em julho e o aumento do PIB no primeiro semestre, o clima quente não é a única ameaça econômica.
Os europeus também enfrentam a perspectiva de aumento nas contas de energia neste inverno, à medida que os preços do gás natural sobem.
O preço dos contratos futuros de referência de gás natural foi negociado próximo aos níveis mais altos desde o início da guerra no Irã nesta semana, e quase o dobro do registrado no mesmo período do ano passado.
A guerra no Oriente Médio tornou as cargas mais escassas e, consequentemente, mais caras, aumentando as perspectivas de uma nova crise energética.
O calor intenso também elevou a demanda por ar-condicionado, impulsionando o consumo de gás natural em um momento em que os estoques precisam ser reabastecidos antes do inverno.
"O mercado de gás natural da UE está vulnerável diante do pico de demanda no inverno", escreveu Kieran Tompkins, economista sênior de clima e commodities da Capital Economics, em uma nota publicada no início deste mês. "Os níveis de armazenamento são os mais baixos para este período do ano em mais de uma década."
Rios secos, agricultura noturna
O Danúbio não é a única hidrovia europeia crítica que está secando em consequência de uma seca prolongada.
Na Alemanha, maior economia da Europa, os níveis recordes de baixa do Rio Reno — uma importante rota de transporte para produtos industriais como aço e produtos químicos — podem reduzir em 0,3 ponto percentual o crescimento do PIB do país neste ano, segundo economistas do banco pan-europeu ING.
Isso seria um golpe pesado para uma economia que cresce menos de 1% ao ano.
A BASF, gigante alemã do setor químico, afirmou que pode ser incapaz de cumprir pedidos de alguns compostos químicos porque os baixos níveis de água do Reno restringiram o fornecimento de certas matérias-primas essenciais.
"Estamos… transferindo volumes para modais alternativos de transporte, como caminhões e ferrovias", disse a empresa à CNN, observando que também está utilizando um número maior de embarcações especificamente projetadas para navegar em águas rasas.
Vários estados alemães suspenderam temporariamente as proibições de circulação de caminhões aos domingos em um esforço emergencial para mitigar a perturbação na cadeia de suprimentos.
A Comissão Europeia afirmou no início deste ano que os estados-membros da UE deveriam investir cerca de 70 bilhões de euros (US$ 81 bilhões) por ano até 2050 em adaptação climática — gastos que poderiam impulsionar as economias, mas que também exerceriam pressão sobre os orçamentos governamentais já sobrecarregados.
Algumas empresas já começaram a se adaptar de maneiras inovadoras. Na Inglaterra, uma região notoriamente chuvosa, a Rookery Farm, de propriedade familiar, está colhendo sua safra às 3 da manhã para garantir que ela tenha teor de umidade suficiente.
"A colheita não é mais apenas uma questão de escapar da chuva — agora estamos nos adaptando a culturas que podem ficar secas demais, o que significa mais colheitas noturnas para atender aos padrões de qualidade exigidos pelos nossos clientes", disse a agricultora Eleanor Gilbert em um vídeo publicado no Instagram.
Altos preços de energia à frente
Enquanto a Europa enfrenta sucessivas ondas de calor, ela também se depara com a perspectiva de uma crise energética no inverno.
Os níveis de armazenamento de gás em toda a UE estavam 59% cheios na terça-feira, de acordo com dados do Gas Infrastructure Europe — bem abaixo da média para esta época do ano e em linha com os níveis observados durante o verão de 2021, quando a Rússia havia começado a restringir as exportações para o continente.
"Estou muito preocupada", disse Anne-Sophie Corbeau, pesquisadora do Center on Global Energy Policy da Columbia University, sobre a capacidade da UE de repor os estoques reduzidos.
"Houve muito poucos carregamentos… saindo pelo Estreito de Hormuz. Todos eles estão indo para a Ásia", ela disse à CNN.
O verão é a época de pico na Europa para o abastecimento de gás antes dos meses mais frios do inverno, quando os preços costumam ser consideravelmente mais altos. No entanto, o Estreito de Hormuz ainda está efetivamente fechado, bloqueando um quinto do fornecimento mundial de gás natural liquefeito — uma forma líquida do combustível transportada por navios-tanque.
Os carregamentos restantes, como os provenientes dos Estados Unidos, também têm maior probabilidade de se dirigir à Ásia do que à Europa, dizem analistas, porque a demanda lá é particularmente forte e os compradores estão pagando mais.
Mas isso "não é uma crise de '22'", disse Christoph Halser, analista sênior de pesquisa de gás e GNL da Rystad Energy, referindo-se aos históricos picos de preços naquele ano na Europa após a invasão em larga escala da Ucrânia pela Rússia.
Desde então, o continente reduziu significativamente suas importações do gás de Moscou — a maior parte das quais chegava por gasodutos — além de ter reduzido seu consumo geral.
"A demanda de gás na Europa hoje é aproximadamente 20% menor do que, digamos, em 2021", disse Halser à CNN.
Massimo Di Odoardo, vice-presidente de pesquisa de gás e GNL da Wood Mackenzie, também está confiante de que a Europa evitará um cenário grave de escassez de energia e apagões.
O risco de escassez é "exagerado", disse ele, acrescentando que a região tem condições de "se livrar" de qualquer situação desse tipo por meio de compras.
Ainda assim, os preços estão em níveis preocupantemente elevados.
O preço do contrato de referência de gás natural da Europa fechou a €61 ($70) por megawatt-hora na quarta-feira, bem acima dos €32 ($37) registrados no mesmo dia em 2025, de acordo com dados da Intercontinental Exchange.
Durante o inverno, "a Europa deveria estar realmente preocupada com uma situação em que o Estreito de Hormuz não seja aberto, pois isso certamente poderia resultar em preços extremamente altos", disse Di Odoardo.
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