Irrigação transformou fruticultura, mas água continua no centro das preocupações

O modelo, no entanto, não elimina a necessidade de disponibilidade de água. É justamente esse fator que ganha relevância diante da possibilidade de um intenso episódio de El Niño entre 2026 e 2027, que pode alterar os padrões de chuva e aumentar o risco de estiagem no Nordeste.
Fruticultura irrigada
A história da agricultura irrigada no Vale do São Francisco começou antes mesmo da criação da Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf). A partir de meados do século 20, estudos e iniciativas públicas passaram a avaliar formas de aproveitar os recursos hídricos da região para ampliar a produção agrícola.
O processo ganhou uma estrutura mais concreta com a implantação dos primeiros perímetros irrigados. O Perímetro Irrigado Bebedouro, em Petrolina (PE), começou a operar em 1968. Três anos depois, em 1971, foi a vez do Mandacaru, em Juazeiro (BA).
Em 1974, a criação da Codevasf, por meio da Lei nº 6.088, ampliou a atuação do poder público na região. Entre as atribuições da empresa pública estava o aproveitamento dos recursos de água e solo do Vale do São Francisco para atividades agrícolas, agropecuárias e agroindustriais.
Nas décadas seguintes, a expansão da infraestrutura de irrigação favoreceu o cultivo de produtos de maior valor comercial, especialmente uva e manga. Petrolina e Juazeiro se consolidaram como o principal eixo da fruticultura irrigada do Vale, com produção destinada tanto ao mercado brasileiro quanto à exportação.
Irrigação reduz dependência da chuva, mas não da água
A consolidação da agricultura irrigada mudou a relação dos produtores com as condições climáticas do semiárido. Com acesso à água do São Francisco, tornou-se possível manter a produção mesmo diante da irregularidade das chuvas.
Essa característica é um dos principais diferenciais da fruticultura do Vale, mas também estabelece um limite: irrigar não significa ter acesso ilimitado à água.
Em um cenário de possível El Niño, a evolução das chuvas, das vazões do Rio São Francisco e dos níveis dos reservatórios passa a ser acompanhada com maior atenção pelo setor produtivo. Para os municípios que dependem da fruticultura irrigada, a questão central não é apenas quanto vai chover, mas como as condições climáticas poderão afetar a disponibilidade de água necessária para manter a produção.
Assim, depois de décadas em que a irrigação ajudou a agricultura a superar as limitações impostas pelo clima semiárido, o El Niño recoloca a disponibilidade hídrica no centro das preocupações do Vale do São Francisco.
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