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Friday, September 25, 2026

Intervenção do governo no mercado de carbono deve ser mínima, diz CEO da Mombak

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São Paulo O governo federal deve interferir o mínimo possível no mercado regulado de créditos de carbono, diz Gabriel Haddad Silva, CEO e cofundador da Mombak, uma das principais empresas do ramo no país, em entrevista ao C-Level.

Criada em 2021, a companhia atua com reflorestamento de pastos degradados na amazônia e planeja alcançar 27 mil hectares sob gestão até o final deste ano, com a compra da 14ª fazenda no Pará. A empresa declara ter alocado cerca de R$ 1,5 bilhão para a remoção de carbono da atmosfera e plantado quase 15 milhões de árvores.

"Quanto mais intervenção do governo, mais incerteza a gente vai passar para os investidores, maior o preço vai ser para os clientes, menor o desenvolvimento do setor no Brasil e pior para o país", afirma Silva, que é ex-diretor financeiro do Nubank. "O ideal para a gente seria participar de um mercado que seja o mais livre e com a menor intervenção possível do governo."

Homem jovem de cabelos curtos e escuros veste camisa branca de mangas compridas dobradas até os cotovelos e calça bege. Ele está em pé com as mãos nos bolsos, em um ambiente externo com folhagens verdes desfocadas ao fundo.
Gabriel Haddad Silva, CEO da Mombak, empresa brasileira de remoção de carbono - Edme Neto/Divulgação Mombak

O Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões, nome do mercado de carbono no país, foi criado por lei em 2024 e depende de regulamentação para entrar em vigor. O mecanismo precifica as emissões de gases de efeito estufa de empresas com operações no Brasil, e o texto estabeleceu até cinco anos para o início da operação.

Será preciso definir quantos créditos o país poderá vender a outras nações, conforme as regras do Acordo de Paris, tratado internacional de combate às mudanças climáticas. Esse é um dos pontos mais sensíveis para as empresas do setor, que dizem depender de grandes investimentos estrangeiros para financiar projetos.

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Em julho, o governo Lula (PT) apresentou consulta pública de uma resolução para restringir a exportação a 50 milhões de toneladas de CO2e (dióxido de carbono equivalente) de 2031 a 2035, além de um teto de 50% dos certificados gerados por projeto.

A preocupação do governo é evitar uma "fuga" de créditos ao exterior, uma vez que os certificados vendidos não contarão para a meta climática doméstica, e sim para a da nação que os comprar. A proposta provocou uma onda de críticas das empresas, que afirmaram temer perda de competitividade com os limites sugeridos. A versão final do texto ainda não foi divulgada.

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"Poucos países estão tão bem posicionados quanto o Brasil para conseguir acessar o mercado, criar uma indústria local, exportar créditos de remoção de carbono, de diversas soluções de alta qualidade, com preços atrativos para atender à demanda global", afirma o executivo.

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Silva diz apoiar regras de exportação definidas caso a caso. "O ideal seria não olhar para o setor como um todo, de forma única, mas entender quais são as soluções e as empresas que vão precisar de mais capital", disse.

"Hoje a gente não tem nenhum cliente brasileiro, eu espero ter um dia e acho que teremos, obviamente, mas o nosso mercado está majoritariamente lá fora. Se só pudermos exportar um percentual limitado, não vai ser inteligente para ninguém, nem para a empresa, nem para o país."

No mercado regulado, empresas que emitirem carbono acima do nível permitido precisarão compensar o excedente por meio da compra de créditos, o que deve destravar grandes investimentos. Atualmente, as vendas acontecem de forma voluntária.

"A gente não precisa de centenas de milhões de dólares, a gente precisa de bilhões de dólares. E não vamos conseguir captar esses recursos dependendo apenas do mercado voluntário", afirma o CEO.

Silva diz que a gestão Lula já identificou o potencial do mercado de carbono. "Estamos em um momento crítico de entender como vai ser o estabelecimento dos mercados regulados, quais serão as regras e qual o prazo", afirma.

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"Essa urgência demanda do governo mais clareza e velocidade para entender como que a gente vai poder atuar dentro do mercado regulado, que é o grande mercado pelo qual a gente montou a empresa. Não montamos a empresa para conviver no mercado voluntário pelo resto da vida."

O próximo presidente terá papel importante na continuidade da regulamentação do mercado, que prevê etapas em 2027, 2029 e 2031. O executivo diz acreditar que qualquer administração futura vá entender o caráter estratégico do assunto.

"Já passamos por mudanças de governo no passado, não acho que uma mudança dessa vez vá impactar negativamente a importância do setor e como ele é visto dentro das prioridades do país", afirma. "O que a gente precisa é continuar o diálogo, seja com quem for."

Folha Mercado

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No último mês, a Mombak confirmou seus primeiros 21,7 mil créditos de carbono, com validação da certificadora britânica Isometric. Os títulos foram entregues dois anos antes do previsto a um grupo de compradores, incluindo Google, McKinsey, Bain, Climeworks, Commons, McLaren Racing e Union Square Ventures.

O momento também marcou a primeira vez em que a Isometric emitiu certificados baseados em remoção natural. Os créditos seguiram o novo protocolo de reflorestamento da certificadora, que exige o plantio de espécies nativas.

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Para Silva, a emissão foi um dos acontecimentos mais importantes do ano para a Mombak e o setor.

"Foi uma surpresa muito positiva quando emitimos os primeiros créditos e vimos que tinha uma demanda enorme por eles", afirma.

"Descobrimos que existe um mercado muito grande para créditos já emitidos e certificados. Até então, o nosso mercado era de empresas que assinavam compromissos de compra com pagamento futuro."

O executivo diz que o fato de a remoção do CO2 já ter sido validada ajuda a atrair novos clientes. "Infelizmente, muitas empresas assinaram contratos há anos e hoje não estão entregando", diz. "Existe uma demanda muito grande para ativos que já não têm mais risco de execução."

O CEO avalia que o abalo na confiança no mercado de carbono nos últimos anos, com denúncias de fraudes, impactou os ativos a nível global, mas que os negócios da Mombak estão mais protegidos.

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"A gente tem se beneficiado dessa crise, porque os compradores estão cada vez mais entendendo a diferença de qualidade entre produtos e buscando algo mais confiável."

Silva diz que a empresa se prepara para captar mais recursos e deve anunciar novos clientes até o final do ano, incluindo empresas de fora do setor de tecnologia, que hoje predominam entre os compradores.

Diversificar os clientes é uma estratégia para reduzir a dependência das compras de big techs no mercado voluntário —com guerras e instabilidades globais, as companhias revisam investimentos.

"Mesmo esse mercado volátil, pequeno e concentrado, com algumas empresas saindo, já é muito maior do que toda a oferta de créditos de remoção de carbono, juntando a Mombak e todas as empresas do setor. Essa é a triste notícia para o planeta", afirma.

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