As lições do golfe para a vida de Claude Harmon III
RESUMO +
O treinador de golfe Claude Harmon III afirmou, durante visita a São Paulo, que jogadores evoluem quando reconhecem seus pontos fortes, reduzem erros e tomam melhores decisões no campo. Ex-técnico de Brooks Koepka, Harmon também defendeu treinos sob pressão e mais espaços acessíveis para formar golfistas no Brasil.
Claude Harmon III chegou ao São Paulo Golf Club direto de Paris, onde havia passado a semana treinando um dos golfistas que orienta. Ele aterrissou na cpaital paulista já com o celular lotado de mensagens de jogadores universitários pedindo análise de swing.
Essa é a rotina de quem carrega, ao mesmo tempo, um sobrenome e uma profissão. Claude III é neto de Claude Harmon Sr., campeão do Masters de 1948 e amigo de Ben Hogan, e filho de Butch Harmon, que treinou Tiger Woods e Phil Mickelson.
Claude III construiu carreira própria como um dos coaches mais requisitados do golfe mundial, com passagens por nomes como Brooks Koepka, Dustin Johnson, Rickie Fowler e Trevor Immelman.
Embaixador Rolex desde 2014, ele esteve em São Paulo para uma série de eventos em torno ao golfe. No dia em que chegou, recebeu um grupo pequeno de jornalistas para uma roda de conversa. A seguir, os principais trechos.
O senhor treinou alguns dos melhores golfistas do mundo. O que eles têm em comum?
Não é o swing. As pessoas acham que golfe é sobre ter uma técnica perfeita, mas os melhores jogadores de hoje não têm necessariamente o swing mais bonito. Olha o Scottie Scheffler: ninguém ensinaria um swing como o dele para ninguém. O que separa os grandes jogadores é saber exatamente no que são bons e no que não são. O Tiger Woods era bom em tudo, e isso é raríssimo. Os outros grandes nomes sabem qual é a própria fraqueza e constroem o jogo em torno da força. Não existe atalho. O segredo é trabalho duro e dedicação, sempre foi. Mas nos últimos 15, 17 anos, mudei o meu foco como treinador. Passei a me importar menos com a aparência do swing no campo de treino e mais em como o jogador realmente pontua quando vai jogar. São duas coisas bem diferentes.
Pode explicar melhor essa diferença?
Amador olha muito para televisão. A gente vê o Scheffler acertando a bola a três metros do buraco e acha que precisa fazer igual sempre. Se você joga golfe amador, a meta não devia ser a bandeira, devia ser o meio do green. Vou contar uma história. Trabalhei com um jogador, veio da China para os Estados Unidos ainda jovem, ganhou bolsa para jogar na universidade, venceu um campeonato estadual de colégio. Na primeira temporada universitária, ele jogou um torneio e fez 81 tacadas. Me ligou depois, desesperado, sem entender o que tinha acontecido. Eu olhei o cartão dele: ele tinha feito um duplo bogey e um triplo bogey naquela volta. Só isso já eram três, quatro tacadas a mais do que precisava. Se ele tivesse transformado aquele duplo e aquele triplo em bogeys simples, já estaria em 77. E ele nem estava jogando mal. A cabeça dele estava focada na coisa errada. Jogador amador acha que vai melhorar o handicap fazendo mais birdies. Errado. Você melhora eliminando os buracos catastróficos. A gente costuma dizer para os juniores: não saia tentando fazer birdie em cada buraco, saia tentando fazer par em cada buraco. Aí, sim, os birdies aparecem sozinhos.
O senhor trabalhou de perto com Brooks Koepka. Como foi esse processo?
Quando comecei com o Brooks, ele queria aprender a jogar um fade, a bola que sai para a esquerda e curva para a direita. Eu falei: então esse vai ser o seu único tiro. A meta era transformá-lo, de propósito, no golfista mais unidimensional do mundo. Ele não ia treinar draw, não ia treinar variações. Ia dominar um shape de bola e só. Foi basicamente o que fizemos durante todo o tempo em que trabalhamos juntos, e foi nesse período que ele ganhou quatro majors e chegou ao número um do mundo. É parecido com tênis. O grande jogador tem um forehand fenomenal e um backhand só razoável, mas ele sabe disfarçar isso e jogar em cima da força. O golfista comum tenta ser bom em tudo e acaba sem identidade nenhuma dentro de campo.
O senhor fala em "superpoder". Que superpoderes os melhores do mundo têm?
Cada um tem o seu, e sabe qual é. O Cameron Smith, por exemplo. O superpoder dele é jogo curto e putt, dos melhores do mundo nisso. Já o Scheffler tem hoje, segundo os dados que a gente acompanha, a melhor aproximação da história recente. Ele acerta a bola mais perto do buraco do que qualquer outro jogador em atividade. Isso não é opinião, é estatística. E tem golfista que ganha torneio sem ser o melhor batendo de tacada longa nem o melhor de ferros. Ganha porque é excepcional no putt. A gente sempre volta para um conceito que tirei do tênis, o do erro não forçado. O jogador que menos erra por conta própria, sem o adversário obrigar, é o que sobe no ranking. Eu digo a mesma coisa para o golfista, cometa menos erros não forçados.
Como isso muda a forma como o senhor monta o treino?
Muda tudo. A maioria dos amadores treina batendo bola de uma posição perfeita, plana, do mesmo lugar, repetindo o mesmo taco centenas de vezes. Só que golfe de verdade é aleatório. Você nunca tem a mesma distância, a mesma inclinação, o mesmo vento duas vezes. Na minha academia a gente treina com relógio, com frequencímetro, simulando pressão de verdade. O jogador faz um exercício físico intenso antes de bater, para chegar ao taco com o coração acelerado, porque é assim que ele vai chegar na última tacada de um torneio decidido por um golpe. A gente também joga um jogo que chamamos de "jogo do par". Cada buraco vira uma disputa isolada, você ganha fazendo par ou menos, perde fazendo bogey ou mais. E tem as "não negociações". Em certos dias, o jogador simplesmente não pode usar o driver, ou só pode mirar no meio do green, nunca na bandeira. É treino pensado para forçar decisão, não repetição.
Como o senhor vê a diferença entre a geração atual e a anterior do golfe?
O golfe está ficando mais parecido com o tênis. Antigamente, um jogador virava profissional e levava três, quatro anos para achar o próprio jogo no circuito. Hoje o sistema universitário americano é tão forte que a gente vê casos como o do Ludvig Åberg. Ele ganhou como amador, virou profissional e já estava pronto para vencer imediatamente. Também tem um componente físico novo. Hoje a gente mede tudo, velocidade de swing, força, capacidade física, do jeito que um clube de futebol testa um atleta antes de contratar. Antigamente falavam que outros esportes faziam mal ao golfista. Hoje é o contrário. Os melhores golfistas jovens jogaram vários esportes na adolescência antes de escolher o golfe, e isso ajuda.
A imagem do golfe para as novas gerações
E fora do campo, o golfe também mudou de imagem?
Completamente. Quando eu tinha 15 anos, golfe não era coisa legal. Era um esporte de roupa engraçada, gente mais velha. O Tiger Woods foi o primeiro a transformar isso num esporte de verdade aos olhos da cultura pop. Hoje eu vejo rapper que só quer saber de jogar golfe, ator que virou fã, gente da música indo para o campo de manhã. Na minha academia tem música tocando o tempo todo enquanto os jogadores treinam. Isso é proposital. Essa geração associa esporte a estilo de vida, e o golfe precisa competir por atenção com o celular e as redes sociais. Se não for divertido e acessível, a gente não segura os jovens dentro do esporte.
O que falta ao Brasil para ter mais craques de elite?
Acesso, antes de qualquer coisa. Construir campo de golfe é caro e demora anos. O que realmente muda um país é ter campo de treino disponível, barato, perto de onde os jovens moram. Em Hong Kong, por exemplo, tem campo de treino em cima de prédio, coberto com rede, espalhado pela cidade inteira. É fácil para uma criança ir depois da escola bater bola por uma hora. O Brasil precisa disso, antes de mais campos de 18 buracos: mais campo de treino, mais campo de nove buracos com iluminação, coisa simples e acessível. Uma das razões pelas quais a Rolex me traz a países como este é justamente falar sobre golfe, falar da história do esporte, da história moderna do esporte. Quanto mais gente está exposta a isso, mais chance temos de criar uma geração nova de jogadores. E é preciso também um ídolo local. É difícil uma criança brasileira se identificar com o Scheffler ou o McIlroy. São referências distantes. Funciona muito melhor quando existe um profissional do próprio país que o garoto pode olhar e pensar: ele é como eu, veio de onde eu vim.
Fora das quatro linhas, que lição o golfe ensina para a vida?
Golfe é um jogo de decisão, não de talento puro. O pior jogador do mundo é o que toma as piores decisões dentro de campo; o melhor é o que toma as melhores, independentemente do nível técnico. Eu sempre brinco que, se as pessoas do mercado financeiro administrassem dinheiro do jeito que jogam golfe, iriam à falência, sem plano, sem processo, decisão por impulso. E tem o lado social. Você passa quatro, cinco horas caminhando ao lado de alguém, tem tempo de conversar de verdade entre uma tacada e outra. Muita amizade que carrego até hoje nasceu assim, e muito negócio nos Estados Unidos também nasce de uma volta de 18 buracos.
O senhor ainda joga golfe?
Pouco. Se sobra um tempo livre, sinceramente, não é para jogar golfe que eu vou. Meu cérebro precisa de uma pausa disso. Quando jogo, escolho jogar com gente que eu gosto, amigos antigos, pessoas com quem eu quero passar aquelas quatro, cinco horas. Nunca fui de jogar por jogar, ou por competir. Minha entrada no golfe não foi assim. Comecei por volta dos seis anos, no verão, simplesmente acompanhando meu pai. Eu ficava do lado dele enquanto ele dava aula. Sempre estive perto do meu pai, dos meus tios, do meu avô, vendo eles darem aula. Aprendi olhando, não jogando.
Por fim: o que significa, para o senhor, carregar o sobrenome Harmon?
É a minha vida inteira. Meu avô ganhou o Masters, meu pai treinou o Tiger, eu tenho o mesmo nome dos dois. Cresci literalmente dentro do golfe, vendo meu pai e meus tios darem aula. Hoje comparo meu trabalho ao de um chef que aprendeu vendo o pai cozinhar, sem escola formal. Foi assim que aprendi a decifrar swing, observando. O que mais me atrai no golfe é isso, é um quebra-cabeça simples, com regras claras, mas que as pessoas insistem em complicar. Minha função é mostrar que dá para ser simples.
'Perguntas frequentes'
Qual é o principal conselho de Claude Harmon III para melhorar no golfe? +
Claude Harmon III recomenda que o golfista identifique seus pontos fortes e fracos e construa o jogo em torno de sua melhor habilidade. Segundo o treinador, trabalho duro, dedicação e boas decisões são mais importantes do que um swing perfeito.
Como um golfista amador pode reduzir o handicap? +
O golfista amador pode reduzir o handicap ao evitar buracos catastróficos, segundo Claude Harmon III. O treinador aconselha mirar no meio do green e buscar o par em cada buraco, em vez de tentar birdies a todo momento.
Como Claude Harmon III treinou Brooks Koepka? +
Claude Harmon III concentrou o treino de Brooks Koepka em um único tipo de tacada, o fade. Durante o período de trabalho com Harmon, Koepka conquistou quatro majors e chegou ao primeiro lugar do ranking mundial.
Como Claude Harmon III simula pressão nos treinos de golfe? +
Claude Harmon III usa relógio, frequencímetro e exercícios físicos intensos para elevar a frequência cardíaca dos jogadores antes das tacadas. A academia também impõe restrições, como proibir o driver ou exigir que o atleta mire apenas no meio do green.
O que falta para o Brasil formar mais golfistas de elite? +
O Brasil precisa ampliar o acesso ao golfe, afirma Claude Harmon III. O treinador defende mais campos de treino baratos, espaços de nove buracos com iluminação e um ídolo brasileiro que sirva de referência para os jovens.
Como o golfe mudou para as novas gerações? +
O golfe passou a se aproximar da cultura pop e do estilo de vida das novas gerações, segundo Claude Harmon III. O treinador atribui a Tiger Woods parte dessa transformação e afirma que o esporte precisa ser divertido e acessível para disputar a atenção dos jovens.
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