Afinal quem está a pagar a Guerra de Vladimir Putin?

Esta semana, Bruxelas aplicou a regra com zelo, estima e consideração.
Kaja Kallas anunciou cerca de 1.600 novas entradas na lista de sanções contra a Rússia, a maior expansão desde o início da guerra. Ao mesmo tempo, os ministros europeus faziam fila para condenar o acordo de Washington com Moscovo para o fornecimento de milhões de toneladas de gasóleo aos Estados Unidos.
Mark Carney telefonou a Zelensky para declarar o acordo “em oposição direta” aos esforços da Ucrânia e do Canadá.
Boris Johnson, o homem que em 2022 voou a Kiev para enterrar a paz que estava em cima da mesa, achou “nauseante” que os condutores americanos passassem a financiar o massacre de Putin.
Comovente.
Mas a aritmética não colabora, e a matemática é tramada porque nunca erra.
Segundo o vice-primeiro-ministro russo Alexander Novak, a Europa comprou à Rússia 320,7 mil milhões de dólares em hidrocarbonetos desde 2022. Só nos primeiros nove meses de 2026 foram 21,3 mil milhões.
Trump fala em 250 mil milhões.
O leitor pode escolher o número que preferir, porque qualquer um deles faz da União Europeia o maior financiador do Kremlin desde o primeiro dia da invasão.
Scott Bessent disse-o sem rodeios: os europeus deram mais dinheiro à Rússia do que à Ucrânia, porque não se conseguem libertar da energia russa, e vir agora acusar os Estados Unidos por uma trégua no preço do gasóleo é “completamente hipócrita”.
Bastiat ensinou-nos a distinguir o que se vê do que não se vê. O que se vê são as conferências de imprensa de Kallas, as listas intermináveis, os comunicados indignados. O que não se vê são os metaneiros que continuam a descarregar gás russo em portos europeus, as triangulações pela Índia e pela Turquia, o gasóleo refinado de crude russo que entra pela porta das traseiras com outro carimbo.
E porque não se libertam? Porque a Europa passou vinte anos a fechar centrais nucleares, a proibir o fracking, a penalizar o carvão e a subsidiar moinhos que param quando não há vento, e ultimamente a encher as nossas paisagens alentejanas de quintas pedagógicas de centrais fotovoltaicas com, inclusivamente, o abate violento de sobreiros, sem uma rebelião, um mostrar de dentes por parte de qualquer media do regime indignado.
Hayek chamaria a isto a fatal presunção: burocratas convencidos de que podiam desenhar em Bruxelas o mix energético de um continente inteiro. O resultado é uma União que sanciona com uma mão e paga com a outra, e que ainda tem a desfaçatez de dar lições de ética e moral a quem vende o que produz.
O acordo do gasóleo não financia nenhuma guerra que a Europa não financie dez vezes mais. Baixa o preço do combustível ao camionista do Ohio e ao agricultor do Iowa. É política para os cidadãos, coisa que em Bruxelas já não se pratica por falta de hábito, e muito menos em Portugal, onde quem produz ou arranja maneira de ir a Espanha comprar gasóleo, ou terá inevitavelmente de fechar a exploração.
Os mesmos comentadores que hoje rasgam as vestes por causa do gasóleo russo garantem-nos que a 3 de novembro Trump vai levar uma tareia histórica nas intercalares.
São os mesmos que previram a recessão de 2025, o colapso do dólar com as tarifas e a guerra comercial eterna com a China. Têm um currículo impecável: nunca acertaram uma.
Talvez seja altura de a Europa começar a olhar-se no espelho antes de olhar para Washington. Isso exigiria honestidade, e a honestidade, tal como a energia, é coisa que o continente desistiu de produzir internamente há muito tempo.
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