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Sunday, October 25, 2026

Do galego ao quimbundo: a evolução do português.

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Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Mais uma edição de Português Suave na Rádio Observador, como sempre com o Marco Neves. Marco, bem-vindo mais uma vez.

Olá, tudo bem, Filipa?

Tudo bem.

Cá estamos no domingo.

Exatamente.

Para o episódio normal, o outro não é que seja um episódio anormal, mas é um episódio diferente, com as dúvidas.

Exatamente.

E hoje vamos à língua das notícias, vamos sair de Portugal várias vezes hoje.

Vamos viajar um pouquinho.

Vamos viajar, vamos passar a fronteira para norte, como acontece muitas vezes aqui no programa. Vamos muitas vezes à Galiza, depois vamos até África e vamos terminar ainda em África e com um livro.

Vamos que bem.

O livro não tem a ver com África, há que dizer. Esse livro é cá de casa, entre aspas, em Portugal, mas é um livro muito interessante que eu gostava de recomendar. Que ainda não acabei de ler, estou a ler, mas já lá vamos.

Já é uma recomendação. Já deixaste aqui muitas pistas, portanto, a curiosidade está aqui bem presente. Vamos então começar com a nossa língua nas notícias. E Marco, vamos falar de que notícia hoje?

Isto da língua das notícias, tanto pode ser a língua nas notícias no sentido em que é qualquer notícia ou expressão que está nas notícias e que eu posso referi-la, ou por vezes é também notícias que têm que ver com a língua em si. E neste caso, passei a fronteira para norte e fui até à Galiza, não fisicamente.

Não foste passear.

Não, não fui passear desta vez. Já lá fui algumas vezes, ainda há uns tempos contei por aqui o que aconteceu por lá, mas houve aqui duas notícias importantes em relação à língua. Primeiro, nós sabemos que o galego e o português têm uma relação muito próxima, são línguas muito próximas, e isso vê-se às vezes até nas próprias leis da própria Galiza. A primeira notícia é: no dia 7 de outubro, portanto há poucos dias, há poucas semanas, foi aprovado um plano no Parlamento Galego, um plano de normalização da língua. O que é isso, normalização? Para nós, em Portugal, que temos uma língua normalizada, digamos assim, não faz muito sentido. Mas o que é isto? É um plano para tornar a língua normal, de utilização normal em todos os quadrantes da sociedade. Sim, porque nós não vivemos num país onde isto seja uma questão, mas aqui ao lado da Espanha há várias regiões onde as línguas convivem numa situação, cada uma delas, diferente, e há, da parte das instituições regionais de algumas regiões espanholas, a tentativa, já bastante antiga, de algumas décadas, de normalizar o uso dessas línguas. E no caso do galego, é o que acontece. Eu trago isto aqui para um programa sobre o português, porque neste plano, que é um de vários feitos ao longo das últimas décadas, fala-se mais uma vez de Portugal e do português e dos outros países de língua portuguesa. E eu até vou fazer aqui uma experiência para os nossos ouvintes perceberem onde é que eu queria chegar. Vou ler uma parte deste plano, sem mudar palavra nenhuma. Eu só estou a ler o que está lá escrito, isto está em galego, mas com a minha pronúncia portuguesa. Eu vou mudar a minha pronúncia, mas não vou mudar as palavras. E vamos perceber o que eu estou a falar aqui. Portanto: "Um lugar particular na projeção internacional do galego deve ocupá-lo a sua relação com os países lusófonos. A língua própria de Galícia", eles dizem Galícia e não Galiza, em geral, "pelo feito de se encontrar intercompreensível com o português, outorga uma valiosa vantagem à cidadania galega na vertente cultural, pero também na social e na económica". Temos aqui o "pero", que é um pouco estranho. Ainda está bem aceitável. Sim, claro que eu estava aqui a torcer um pouco a pronúncia. O meu sotaque não é nada galego. Mas ele depois continua a dizer neste plano que devem fazer um esforço especial para dar a conhecer a língua galega nos países de língua portuguesa, que devem dar acesso aos galegos à aprendizagem do português. Isto é algo aprovado no Parlamento da Galiza, que mostra bem que esta proximidade que nós temos com essa língua é algo real e que se vê até na própria lei. Antes de avançarmos para o Mapa da Língua, e vamos mudar de latitude de forma muito radical, gostava ainda de dizer que na Galiza está a ser discutido ainda umas alterações nos planos de estudos, porque o galego hoje é usado na escola, mas nalgumas disciplinas. Noutras é o castelhano, nalgumas é o galego. E andam a mudar e agora o galego vai passar a ser usado, por exemplo, na matemática, coisa que não era até agora. Portanto, os galegos vão começar a aprender matemática em galego. E pronto, vamos avançar agora para outros lados, até África.

Exato. Vamos então aqui ao nosso segmento Mapa da Língua. E Marco, vamos então viajar mais um bocadinho, passamos da Galiza para norte.

Muito para sul. Outra língua de que também já falámos aqui é o quimbundo, uma das várias línguas de Angola. Angola tem várias línguas, entre elas o português, que é a língua oficial e também provavelmente neste momento já é a mais usada. Não tenho aqui percentagens de uso, mas é a língua de Luanda, o português, a língua usada habitualmente em Luanda e ali à volta. Mas há outras línguas em Angola muito antigas, muito importantes e que também nos deram palavras. Então eu hoje queria aqui trazer seis palavras que vêm do quimbundo, uma das línguas de Angola. Há outras, não é a única.

Uma das.

Temos a mais famosa de todas nas últimas décadas, porque é muitas vezes discutida por cá, que é o "bué".

Sim, o "bué".

Não sei se costumas usar informalmente.

Eu uso muitas vezes. Não em contexto profissional, mas fora disso eu uso.

Aqui dizemos "bué" só porque estamos a discutir a palavra, mas a verdade é que é uma palavra que muitas gerações usam. Há sempre aquela ideia: "É uma palavra dos jovens." Não, já não é dos jovens.

Exato, já ultrapassa gerações.

Há muitas gerações. "Bué" vem do quimbundo, tanto quanto se sabe, não há 100% de certeza, porque alguns etimólogos têm opiniões diferentes, mas em geral entende-se que terá vindo do quimbundo "mbueke", que quer dizer abundância. Depois temos "bazar", no sentido de ir embora.

Sim. Esta também uso por casa.

Também usas? Esta ficou.

Não uso tanto como o "bué", mas "bazar" de vez em quando.

Sim. Devo dizer que "bazar" também existe uma outra palavra, de outra origem, que é o bazar enquanto mercado. Essa é de origem persa, vamos ao bazar comprar alguma coisa. Podemos dizer em casa: "Vamos bazar para ir ao bazar." E são duas palavras completamente diferentes. Depois temos "cota", terceira palavra, que é uma pessoa mais velha, que vem do quimbundo "cota", que quer dizer superior. Uma palavra que mostra um respeito pelos mais velhos. Depois temos a palavra "carimbo", que eu não vou dizer nada, porque essa palavra vai ficar pra terceira parte. Ou seja, vamos falar dela, mas não agora. Já a seguir. Depois temos "quezília". Não sei se sabias que esta era africana.

Não sabia. Uma pessoa está só aqui a aprender imensas coisas.

"Qezília" não é nada informal. Nós podemos usar "quezília" até numa aula.

Sim.

E por fim, uma que talvez seja menos surpreendente: "miçanga". Miçanga é uma palavra que é o plural de muçanga e que quer dizer aquela pequena conta que é usada em colares.

Sim.

Uns colares de miçanga. Dizer miçangas é um pouco redundante, tendo em conta a origem, porque miçanga já é o plural.

Já é o plural.

Exato. Mas isso acontece muitas vezes. Vamos buscar palavras plurais a outra língua, mas se essa palavra plural não tem o "S", muitas vezes em português, nós depois vamos lá pôr o "S" para reforçar o plural.

Parece que nos soa estranho se não estiver lá um "S".

E vamos agora aos mitos e origens, onde vamos voltar aqui a Angola. Vamos lá.

E já deste aqui um pequeno spoiler. Vamos então passar esta terceira parte com mitos e origens. Marco, há pouco falamos de uma palavra que tu disseste que ia falar na terceira parte. Portanto, vamos a isso.

Eu deixei esta palavra um pouco para trás porque eu queria falar um pouco mais dela. Não deixa pra trás, deixa pra frente. Ou seja, vamos falar depois. Porque é uma palavra que tem a mesma origem que as outras que eu referi há pouco, mas tem aqui uma história um pouco mais pesada e que eu penso que deve ser contada com mais tempo. Nós temos o carimbo nos nossos notários, nos nossos escritórios de Portugal, e esta palavra é de origem africana também, de Angola, do quimbundo. Vem do quimbundo. Havia uma palavra, "kirimu", eu não consigo pronunciar bem, mas queria dizer mesmo a marca oficial de um líder africano que era usado. Agora, aqui a questão é, isto está nos dicionários, podemos ir aos dicionários e percebemos isto, mas é difícil perceber como é que uma palavra usada em Angola, torna-se de forma tão genérica, uma palavra usada nos escritórios e nos notários cá em Portugal. E o que aconteceu foi algo um pouco pesado, mas a história da língua tem tudo, um bom e um mau. Na verdade, o carimbo, depois, esta palavra foi usada também para marcas que eram postas nos escravos, nas pessoas escravizadas, que iam pra África e que levavam com ferro em brasa, por serem consideradas propriedade, como nós sabemos. Quando os impostos eram pagos, era feito um carimbo com ferro em brasa nestas pessoas. E é deste uso que nós, em português, acabamos por ir buscar a palavra. Às vezes a etimologia também nos leva a mostrar tudo de violento que também houve no mundo.

Exato.

E, neste caso, nós sem saber, estamos a usar uma palavra que também tem esta carga antiga. Há quem às vezes me pergunte, e já aconteceu noutras, estas palavras com estas origens, nós não devíamos evitar? Não, eu não acho nada que devamos evitar as palavras. Aliás, na verdade, a origem antiga é mesmo um carimbo usado em África, marcas oficiais. Depois, a passagem pra o português é que tem este cariz mais violento, mas as palavras têm tudo. E acho que nós não temos nada de evitar as palavras, temos é de conhecer a história pra saber um pouco melhor o que se passou.

Sem dúvida. Muito bem, já tivemos aqui uma aula de História com o Marco Neves.

Esta última parte é um bocadinho mais pesada.

Mais pesada, mas é isso, a história é a história e assim já sabemos a origem, sendo boa ou má. Mas Marco, vamos terminar com o nosso livro da semana. O que é que nos traz?

Ainda temos muito tempo? Não sei, não estou aqui a olhar pra hora.

Temos tempo. Podes contar-nos com detalhe este susto.

Então vamos lá.

Sim. Livro da semana, Marco Neves, qual é?

Portanto, eu tenho escolhido livros.

O livro deste domingo.

Sim, eu tenho escolhido nos últimos meses, temos tido esta nova rubrica aqui no "Português Suave". Alguns dos livros são livros sobre a língua, outros não são livros sobre a língua, mas livros que usem a língua bem, na minha opinião, claro. E neste caso, é um livro É um livro que eu estou a ler ainda, ainda não cheguei sequer à metade, mas eu gostava de partilhar. Isto foi recomendado por um amigo que vive na Suécia, que é professor, o Nuno Coter, um amigo já de há muito tempo. E ele disse: "Olha, vai ler este livro, porque se fosse noutra língua, todo mundo estaria a falar dele." Foi como disse. E eu fui começar a ler e, de facto, o livro é de Patrícia Portela, "Hoje, 3 de Maio". O livro chama-se "Hoje, 3 de Maio", é um romance com Goya no centro, um romance muito particular na sua estrutura, um romance que pode ser lido de várias maneiras. Ou seja, a autora explica no início que tem aqui vários índices. Nós podemos começar a ler tudo do princípio ao fim ou podemos dar uns saltos. E eu estou a ler, revelo já, estou a ler do princípio ao fim, não estou a dar nenhum salto.

A sério? Não foste à experiência de dar os saltos.

Não, não fiz a experiência. Vai tudo de seguida. E é um livro com um aspeto gráfico muito cuidado, muito bonito, mas não é isso. O mais importante é mesmo o texto e eu não vou dizer muito mais sobre ele, vou só dizer que é um excelente uso da língua portuguesa, por isso fica aqui a recomendação para a leitura de Patrícia Portela, "Hoje, 3 de Maio". Eu arrisco sempre um pouco quando recomendo um livro que ainda não acabei de ler.

Mas até agora vale a pena.

Sim. E a verdade é que os entusiasmos com os livros são muitas vezes no momento em que os estamos a ler.

Exato.

E por isso acho que vale a pena falar dos livros também assim.

Claro que sim. "Hoje, 3 de Maio", Patrícia Portela, a recomendação.

Quem tiver começado agora a ouvir o programa, pensa: "Mas hoje não é dia 3 de maio, o que é que se passa?"

Exato. Não é o dia, não se confundam. É mesmo aqui a recomendação do Marco, do livro da Patrícia Portela, "Hoje, 3 de Maio". Não confundir.

Na próxima quarta-feira temos um episódio. A próxima quarta-feira não é 3 de maio, é outubro. Já nem sei que data será.

Deixa-me cá fazer aqui contas à vida. 28 de outubro.

28 de outubro.

Sim. É a nossa última edição de dúvidas de outubro.

É verdade. Enviem dúvidas para aquele telefone que eu não faço ideia qual é.

Exato. Olha, também tenho que vir aqui ver a minha cábula do número de telefone, mas podemos sempre primeiro dizer o nosso e-mail.

portuguessoave@observador.pt

E aqui está o número de telefone. Queres ver como eu afinal vou brilhar aqui: 910 024 185.

Pronto. Enviem dúvidas para o WhatsApp, não sejam muito longas, pode ser 30 segundos, 40 segundos, porque nós gostamos sempre de ouvir as pessoas a falar.

Exatamente.

Os nossos ouvintes.

Podem mandar-nos então essas mensagens, também um e-mail, e nós estaremos aqui. O Marco vai estar aqui para esclarecer tudo. Vou tentar.

Sim.

E é nesta edição de dúvidas de quarta-feira do "Português Suave". Por hoje, Marco, está tudo. Podemos fechar a loja.

Então, até quarta-feira.

Exatamente, até quarta-feira. Um bom domingo. Foi mais um "Português Suave" na Rádio Observador.

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