“Não suporto que me tratem como se eu fosse um deficiente”

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Não suporto que me tratem como se eu fosse um deficiente. Às vezes eu sou insolente e digo assim: "Pronto, eu tecnicamente sou um deficiente, de acordo?" Sou levado a supor que o mundo se divide entre os eficientes e os deficientes e peço desculpa, mas eu acho que nalgumas coisas há pessoas muito mais deficientes do que eu.
Portugal ainda é um país preconceituoso nesse sentido.
Tanto. Basta que eu chegue a uma Segurança Social qualquer acompanhado com a Raquel, que há um funcionário da Segurança Social que nos acolhe e a primeira coisa que faz é falar para a Raquel, como se uma pessoa que anda de cadeira de rodas fosse um débil mental. Eu não acho que as pessoas façam isso por mal, mas a forma como se discriminam pessoas em Portugal é obscena. E quando eu vejo alguns governantes falar da forma como a Segurança Social protege os cidadãos e corresponde nestas alturas, aí sim, eu não fico com acesso.
Apetece-lhe dar um murro na mesa.
Não, apetece-me dar um murro em quem diz isso, na verdade, porque não conhece nada do que se passa.
Ensinou-nos a olhar para as crianças sem manuais de instrução, a defender o brincar como a coisa mais séria da vida e a desconfiar das fórmulas perfeitas para ser feliz. Diz ter passado a vida a ensinar o sistema até ao dia em que a vida o obrigou a parar. Um acidente grave remeteu-o para o desafio de toda uma vida e confrontou-o com a pergunta mais dura de todas: se ainda fazia sentido querer estar vivo. A resposta não veio dos livros nem dos gabinetes que frequentou, mas sim da recusa absoluta em deixar de sonhar. Traz-nos agora a sua obra mais íntima, escrita com a vulnerabilidade de quem aprendeu a renascer e a certeza de que um pássaro, quando pousa, nunca deixa de voar. Apaixonado assumido pelas conversas demoradas, pelo valor do silêncio, pela escuta atenta e pelos detalhes mais simples do dia a dia, sem esquecer o grande Benfica. Um homem que voltou a encontrar a alegria de viver e que hoje está connosco todos os dias na Rádio Observador, hoje em especial no "Em 40 Minutos". Eduardo Sá, muito bem-vindo.
Muito obrigado, João.
E num sítio especial. Estamos aqui, e vamos assumir, a gravar esta conversa antes da sua apresentação do livro aqui no El Corte Inglés em Lisboa. Vou-lhe confidenciar que quando lhe fiz o convite, que foi assim de relâmpago e aceitou logo, confidenciou-me que não gosta nada desta parte.
Não é verdade.
De ser o protagonista.
Não, eu não disse que não gostava, eu disse que odiava, que é muito pior. Odeio isto.
É uma parte em que se mostra, eu não digo vulnerável, mas é onde o Eduardo escreveu este livro, como eu disse na introdução, bastante íntimo. Há aqui uma passagem que eu já lhe vou ler e que me tocou bastante. E no fundo é mostrar-se ao seu público, a quem o segue, a quem o ouve.
Vamos cá ver. Eu gosto muito de conversar com as pessoas e gosto muito de pessoas. Por aí é tudo tranquilo para mim. Agora, eu não gosto de apresentações de livros, não gosto de sessões de autógrafos, porque eu não gosto muito de me assumir como uma primeira figura. Ainda bem que não estamos a conversar na rádio, se estivéssemos eu não podia dizer isto, mas eu sinto que é preciso uma pessoa ser um bocadinho parva, às vezes, e ter toda uma luminosidade que eu não acho que se mereça dessa maneira. E portanto, eu não gosto. Mas sinto-me muito comovido, devo dizer-lhe, quando alguém diz assim: "Ouvi qualquer coisa que escreveu num sítio qualquer e isso teve impacto para mim." Eu aí sinto-me muito comovido e muito grato por isso. Não é tanto o contacto dos leitores, não é tanto ser chamado à razão ou ser avaliado em função de alguma coisa que eu possa ter escrito. É mais isto de ser, por uma hora, o protagonista e isto incomoda-me muito. Eu devo dizer que quando me convidaram para assistente da Universidade de Coimbra, o diretor, que é um homem magnífico, me chamou e disse assim: "Olha, rapaz, vem cá que é preciso falar contigo." E eu pensei: "Bom, quando o diretor me chama, o que eu terei feito?"
O que que irá aí.
E ele disse-me assim: "Olha, a partir de agora tu vais ser uma primeira figura." E eu pequenino deste tamanho. "E portanto, eu gostava de te chamar a atenção que vais ter alunos muito mais velhos do que tu e eles vão te pôr perguntas a que tu não vais ser capaz de responder." E eu disse-lhe: "Pois, eu imagino que aconteça". E ele disse-me assim: "Mas calma, eu quero te ensinar um truque." Eu devo dizer que foi preciso chegar ao fim do curso para me ensinarem truques numa faculdade. Uma pena, porque eu achava que as escolas, como deve ser, deviam ser escolas de magia. E eu perguntei: "Então, qual é, professor?" E ele disse-me assim: "É muito fácil, sempre que te fazem uma pergunta a que tu não saibas responder, fazes a cara mais séria que conseguires, olhas para o infinito, levantas uma sobrancelha e fazes uma pausa. Depois, finalmente, fitas as pessoas e com outro suspiro, perguntas Ora esta é uma boa pergunta. E eu fascinado perguntei: "Mas isso funciona?" Ele disse: "Garantidamente".
Sabe que eu estudei na Universidade de Coimbra e já assisti a isso. Portanto, posso confirmar, é mesmo verdade.
Eu disse: "A sério?" Ele disse: "Sim, a sério". "Mas porque é que funciona?", perguntei eu. E ele disse: "É muito simples, porque quem te fez a pergunta vai ficar tão fascinado por ter feito uma pergunta inteligente que já nem vai querer saber a resposta".
Exato.
E eu disse-lhe: "Mas isso é mesmo assim?" Ele disse: "Sim". "Mas se insistirem em fazer uma pergunta, o que eu faço?" Ele diz: "A mesma coisa. Olhas para o longe, levantas a sobrancelha, suspiras, viras o olhar para essa pessoa e dizes: 'E você, o que acha?' E a pessoa vai dizer o que acha e tu vais responder, depois de um suspiro: 'Está a ver, como sabia a resposta?'" Hoje quando olho para trás, penso: "Meu Deus, eu perdi tantas oportunidades de conversar a sério com aquelas pessoas quando me faziam uma pergunta e eu não sabia."
Mas tem histórias agora para contar.
Também é verdade. Portanto, isto de ser a primeira figura não é cómodo e ser uma primeira figura aqui também não é. Tem um lado bom, que é natural que apareçam meia dúzia de pessoas que gostam de mim, isso é sempre muito aconchegante e por isso vale a pena.
Vale a pena sempre. Vou ler aqui uma passagem do seu livro. Há bocadinho falou e escreve todas as semanas para o Observador.
É verdade.
Nunca o deixou de fazer. E passo a citar: "Não há um momento em que todas as dores não concorram umas com as outras e eu, depois de resgatar o meu telemóvel, escrevo e escrevo. O meu artigo para o Observador foi escrito por entre estas dores todas. Interrompi-o em diversos momentos para chorar baixinho, mas escrevi-o num só dia. Ao descobrir que sabia pensar, disse para comigo que nenhuma dor me iria derrotar. Quando me lembro da minha mulher e dos meus filhos, choro devagarinho, às escondidas. Chorar passou a ser uma coisa só minha, infelizmente." O Eduardo já era um homem sensível.
Sim, claro.
Quem o conhece, quem convive consigo, quem o lê, quem o ouve. Aliás, o "Porque Sim, Não É Resposta" está no ar na Rádio Observador desde 2019. É um programa que está desde a fundação da nossa rádio.
É verdade.
Tornou-se e conseguiu encontrar ainda mais sensibilidade dentro de si próprio.
Eu acho que a sensibilidade é um equipamento de base, que uma educação judaico-cristã, às vezes movida por razões razoáveis, mas que infelizmente se encarrega de estragar. Mas eu tenho a noção que os acontecimentos de vida ajudam-nos a perceber que às vezes andamos todos muito distraídos e muito mal-educados. Nós próprios, se calhar, educamos como sociedade os mais novos para se cont rolarem, para não sentirem, para: "Não estejas triste".
Reprimir. Fala-se muito nesta palavra hoje.
E acho que tudo o percebe, porque eu acho que somos cada vez mais bonitos, quanto mais transparentes, mais espontâneos. E portanto, eu não me tornei mais sensível. Eventualmente, passei a usar as palavras de outra forma. A rádio tem sido uma escola preciosa para mim, porque a rádio, sabe muito melhor do que eu, comunica-se em rádio com uma velocidade de comunicação diferente. Não pode ser uma conversa tão pausada. Tem que ter vida, tem que ser simples e portanto, é uma quadratura difícil de um círculo, porque se trata de dizer coisas sérias num espaço de tempo muito pequeno e de preferência, às vezes de uma forma irónica, às vezes de uma forma comovente, de maneira a tocar nas pessoas. E portanto, a Rádio Observador foi muito importante para mim, porque me permitiu, num sítio insano que convidava à loucura, ter ali uma bolsa de resistência e todos os dias eu fazia à hora do costume o programa. Houve um ou outro em que se ouvia um helicóptero Kamov.
Há muitas histórias de bastidores.
A aterrar ali, o barulhar infernal em direto e ao vivo. Mas sim, foi muito importante até por isso.
Muito bem. E o Eduardo também é um homem da rádio, antes da Rádio Observador, também esteve na Antena Um. Na capa deste seu novo livro, está uma pergunta que sintetiza muito daquilo que o Eduardo viveu nesse dia 17 de fevereiro de 2021 e depois aquilo que se seguiu. Será que é possível ser feliz quando tudo nos convida a desistir? Vale a pena? Valeu a pena este caminho e tudo aquilo que viveu? Com certeza passou por fases mais difíceis, mais desafiantes.
Eu respondo-lhe. Eu sou um clínico. A minha vida é trabalhar com as pessoas e ensinar isso.
E sabe ver as pessoas de uma forma que um comum mortal, se calhar, não sabe. Analisá-las, pelo menos.
Tenho esperança que sim, porque ao fim de tantos anos, ao menos que tenha aprendido. E eu sinto-me, de certa forma, a chocar os meus alunos que me chegam no quinto ano, quando eu me viro para eles e lhes digo: "Ei, calma, a depressão é um sinal vital". Basta dizer isto e eles ficam todos a olhar para mim como quem diz: "Como assim?" E é muito engraçado explicar-lhes que eu nunca vi ninguém deprimido porque está só. Quando a vida está toda virada a viver, estar só é uma coisa ofensiva, porque é como se a natureza não fosse minimamente solidária e isso não se admite. E portanto, sim, eu acho que é muito importante nós darmos conta que A vida mental não é uma linha de água. Nós temos as nossas fúrias. As pessoas às vezes são tão descuidadas em relação a nós e às vezes nem é por mal, mas magoam-nos. E nós somos as pessoas mais sensíveis, mais atentas, mais intuitivas que se possa imaginar. Isso está sempre a gerar informação dentro de nós. E lá está o diabo da educação judaico-cristã que nos convidou para pensarmos três vezes antes de falarmos. Eu acho exatamente o contrário. Devemos falar três vezes antes de pensarmos, porque nós somos pessoas mesmo sensatas. E quando falamos, as coisas ficam todas muito mais bonitas. Eu acho que o meu caminho foi por aí, foi tentar pôr legendas nisto tudo e não foi coisa nenhuma. Aliás, eu devo dizer, quando às vezes me dizem: "Mas que história de superação!" Eu fico muito irritado, compreende?
Sei disso.
Porque para mim, superação-
A tendência é essa. Olhar para a sua história, por exemplo, e dizer: "O Eduardo é o reflexo de uma verdadeira história de superação."
Não, não é verdade. Superação são aquelas pessoas que limpam consultórios e outras coisas do gênero, que se levantam às 04:00 ou 05:00 e que levam os filhos a dormir nos autocarros e que têm dois e três trabalhos, que regressam a casa às 19:00 ou às 20:00 e fazem isso um dia, dois, três, quatro, cinco, seis, sete. E têm toda a legitimidade para se sentirem revoltadas, para perguntarmos por que uns têm direito a tantas coisas e outros são tão castigados. Onde é que Deus anda? A jogar dados com o universo, só pode. Não acho que seja nada disso. E também não suporto que me tratem como se eu fosse um deficiente. Às vezes eu sou excelente e digo assim: "Pronto, eu tecnicamente sou um deficiente". Sou levado a supor que o mundo se divide entre os eficientes e os deficientes. E peço desculpa, mas eu acho que nalgumas coisas há pessoas muito mais deficientes do que eu.
Portugal ainda é um país preconceituoso nesse sentido.
Tanto. Basta que eu chegue a uma Segurança Social qualquer, acompanhado com a Raquel, que há um funcionário da Segurança Social que nos acolhe e a primeira coisa que faz é falar para a Raquel, como se uma pessoa que anda de cadeira de rodas fosse um débil mental.
Incapacitada.
Completamente. E eu fico sempre divertido a olhar para o relógio, contar 10 segundos, porque é garantido, ao fim de 10 segundos tenho a Raquel a deitar fogo pelos ouvidos, pelo nariz.
Não pensa em formas de provocar essa pessoa? Pensa, na sua cabeça, uma forma de tentar desconstruir esse momento, pelo menos na sua cabeça? Não quer dizer que o tenha feito.
A melhor maneira de eu poder fazer isso é escrever, é pôr as pessoas a pensar. Felizmente que as pessoas me convidam muito pro congresso I, B, C, etc. Congressos esses em que eu me sinto uma verdadeira Taylor Swift, porque deve imaginar, eu tenho que perguntar: "E tem rampa, e tem isto, e tem aquilo, etc." Que é uma maneira de dizer às pessoas: "Olha, hein".
Mas a sua artista favorita é Taylor Swift?
Não, de todo. Se calhar os Desafinados também têm a impressão. Eu não acho que as pessoas façam isso por mal, mas a forma como se discriminam pessoas em Portugal é obscena. E quando eu vejo alguns governantes falar da forma como a Segurança Social protege os cidadãos e corresponde nestas alturas, aí, sim, eu não fico com acesso.
Apetece-lhe dar um murro na mesa.
Não, apetece-me dar um murro em quem diz isso. Na verdade, porque não conhece nada do que se passa. E se um dia tivesse um pai, um tio ou ele próprio, que tivesse uma limitação deste tipo, não iria ter a falta de decência que costumam ter nestas circunstâncias.
Falando aqui do seu livro, fala sobre a fragilidade, capacidade de resistir e, acima de tudo, e encontra-se muito nas páginas também, o amor pela Raquel. Foi ela, e já sei qual é a resposta, que o agarrou também muito à vida?
Não. Quer dizer, agarrou-me muito antes de eu ter caído. Eu levei muitos anos na minha vida a saber se era bom a fazer alguma coisa e hoje, ao fim destes anos, desculpe-se, se há uma coisa em que realmente eu acho que sou bom é cair. Sou ótimo a cair, parto-me sempre todo. Não, ela é uma pessoa muito importante na minha vida desde há muitos anos. Agora, eu tenho a noção de um aspecto. É que uma experiência de sofrimento muito grande é uma experiência de uma solidão enorme. E é tanto maior quanto nós precisamos que as pessoas que estejam ao nosso lado sejam capazes de nos conhecer tão bem por dentro, que ponham as legendas certas e não se intimidem, às vezes, com o nosso lado de ouriço assustado. E ela tem essa grande capacidade, como é óbvio. Eu tenho a ideia que o que é mais dramático quando uma pessoa tem um acidente grave, não é tanto o sismo, são as réplicas. Porque são sempre maiores. A maneira como as pessoas que estão ao nosso lado, às vezes, têm as palavras rigorosamente ao lado daquilo que nós precisávamos. A maneira como nós somos levados a recontar os amigos, que é uma coisa muito engraçada, não tem graça nenhuma, mas que não nos deixa alternativa.
Foi um exercício Que fez logo depois de ter acontecido o acidente ou só mais tarde?
Não, logo. Porque às vezes há coisas que não se entendem. Porque sei lá, enviarem-me uma mensagem a perguntar: "Estou contigo?" Sei lá, os meus colegas da faculdade. Aqueles 10 segundos e ter-me-ia sabido bem. Mas lá está, os adolescentes são muito claros a distinguir os amigos dos colegas. Às vezes há amigos que são colegas, mas nem sempre é assim.
Os adultos têm mais dificuldade em fazer essa distinção ou em priorizar?
Não, eu acho que os adultos têm muita dificuldade em fazer amigos, que é a parte mais trágica de tudo isto. A impressão que dá é que se vai fazendo um conjunto de amigos até se terminar uma faculdade qualquer e depois a coisa desertifica de uma maneira incompreensível. Os adultos têm muita dificuldade em fazer amigos, porque eu acho que depois vivem todos muito fechados sobre si e muito incapazes de perceber o que aquela pessoa tem num pormenorzinho qualquer que possa abrir mais uma janela dentro de mim. Portanto, eu não acho que o nosso mundo seja xenófobo em relação às pessoas que vêm de outras paragens trabalhar para aqui e que nos ajudam, aliás, a todos. Nós somos xenófobos em relação às pessoas que estão ao nosso lado ou às vezes às pessoas que trabalham conosco. Porque às vezes é preciso fazer um almoço qualquer, a 10 quilómetros de distância, para que aquelas pessoas, nós olhemos para elas e troquemos ali umas palavras e de repente sejamos capazes de dizer onde é que aquela pessoa andava. Não, ela estava lá. Nós é que às vezes fazemos questão de ser distraídos.
Quem é que lhe dá a mão todos os dias?
As pessoas todas que gostam de mim. Ainda são bom par delas. E depois as pessoas com quem eu trabalho, que é uma coisa magnífica. Eu costumo dizer que tenho o grande privilégio de as pessoas pagam para me contarem histórias, que é um privilégio absolutamente fora de lugar.
O Eduardo é como se fosse um livro em não sei quantos capítulos, porque tem imensas histórias para contar nesse sentido. Ou seja, é fácil sentar-se consigo e ficar ali horas a conversar.
Eu gosto mais de ficar a ouvir. Ficar a escutar. Como a Laurinda Alves uma vez me disse: "Escutar é ouvir com o coração." Eu acho que ela tem razão. E depois tem um lado que eu acho fascinante, que é eu trabalho com o lado mais bonito das pessoas, que tragicamente, se calhar para todos nós, é o lado mais resguardado, mais secreto e, portanto, essas pessoas também gostam de mim. Eu acho que é magnífico para mim sentir que posso contribuir para a vida delas e fazer alguma diferença, de fazermos laços e, portanto, se eu olhar para dentro de mim, nós estamos num auditório. O meu coração não tem quatro cavidades, eu não sei quantas tem, tenho a ideia que tem muitas, é como uma plateia, as pessoas da primeira fila, da segunda, terceira, quarta. Depois, de repente, passa uma da décima para a terceira. Às vezes também passa da primeira para a segunda, para a terceira. E este lado ruidoso, barulhento no nosso coração, porque eu não sou diferente das pessoas, como é óbvio, é uma coisa tão fascinante que eu acho que nós, quem sabe um dia, o jornal e a Rádio Observador não fazem uma candidatura de silêncio a património imaterial da humanidade, porque o silêncio tem esta coisa boa de nós, de repente, nos perdermos nos nossos pensamentos e de fazermos aquilo que o nosso cérebro faz de forma fantástica, que é associar informação e trazer histórias, pessoas e episódios de não sei quantos anos, mais um bocadinho de um filme que vimos ontem e uma lista de compras que temos que fazer amanhã e misturamos isso tudo e sonhamos. E esse lado eu acho que é muito estranho nos tempos que correm, porque nós passamos a vida a falar de uma sociedade da comunicação, temos uns maquinões no bolso.
Muito poderosos. Cada vez mais.
Muito poderosos. E somos pessoas cada vez mais solitárias, que é a coisa mais estranha. Como é que a sociedade de comunicação, a ser amiga de alguma coisa, parece ser amiga da solidão? Tenho dificuldade em entender. E portanto, eu estou em contramão. Dizer às pessoas: "Ei."
Anda para este lado.
Anda para este lado.
O que o emociona, Eduardo?
Tudo. Tenho dificuldade em eleger. Tudo. E digo-lhe mais, acho que a palavra comover é das palavras mais bonitas que existem. Porque significa movermos em reciprocidade com outra pessoa e, portanto, emociona-me tudo. A maneira como somos capazes de transformar uma história num exercício de ironia. Acho que em Portugal, às vezes, utiliza-se mais o sarcasmo do que a ironia. A ironia é uma coisa muito mais inteligente. A espontaneidade absolutamente desconcertante de uma criança. É um bocado como quando nós andamos apaixonados. Quando nós andamos apaixonados, saímos à rua e de repente reparamos em uma multiplicidade de pormenores em que tropeçamos. Não somos nós que reparamos, eles sempre lá estiveram. Isso ajuda-nos a perceber que no resto do tempo andamos mesmo distraídos. Isso é um desperdício inacreditável.
O Eduardo é um menino de Leiria, foi lá que começou a dar os seus primeiros passos. Tem uma grande admiração pelos seus pais. Até costuma dizer que o seu pai era mais galinha do que a sua mãe. Se eles estivessem cá, o que lhe diriam hoje? Estando aqui, neste sítio, nesta apresentação.
"Como é possível estares numa apresentação sem trazer uma gravata?" Acho que era a primeira coisa que o meu pai e a minha mãe eram capazes de dizer. Não é uma coisa que me apreenssa muito, mas há uma coisa que eu sempre percebi. O que é um psicanalista? É nós percebermos a linguagem simbólica. E eu percebo muito bem, para um cristão que não acredita em Deus, eu ensino a psicanálise com o Velho Testamento, que eu acho que é um livro de psicanálise absolutamente fantástico. E eu tenho para mim que as pessoas, a partir do momento em que entram na nossa vida, nunca mais saem, e muito menos com uma ordem de despejo. É mau para aquelas namoradas com quem nós acabamos muito mal, que continuam a viver dentro de nós, que é uma chatice, e que nós agradecíamos muito que não vivessem. Mas para as pessoas que são importantes, elas continuam lá e esse é o segredo da vida eterna. A vida mental é uma coisa tão fantástica que eu tenho muita pena que, de uma forma simples, se calhar um destes dias vamos ter que fazer no observatório uma coisa assim, a vida mental desconstruída para que as pessoas percebam que têm ao dispor quantidade inacreditável de qualidades. E a vida fica tão mais simples, tão mais compreensível, quando nós percebemos este lado vivido, e as pessoas que nos ajudam a vê-la, que eu não consigo perceber, que isso parece viver debaixo de um manto de opacidade, de dificuldade.
O menino de Leiria já escrevia muito. Eu penso que escreveu o seu primeiro livro aos 17 anos, não foi? E possivelmente ainda tem rascunhos.
Eu não sei como é que sabe isso. Eu escrevi os meus primeiros textos aos nove. E depois tinha um professor brutal, o João Baires, que era meu professor do atual quinto ano de escolaridade, que era um homem frágil, mas muito bonito, que decidiu fazer um jornal da escola. Veja como uma coisa insignificante pode ser tão importante. E perguntou quem é que queria fazer textos para o jornal, e eu disse: "Eu quero". Eu tinha 10 anos, nove para 10, talvez. E eu fiquei amigo do João por toda a vida. Veja como um professor deixa de ser só um professor e pode passar a ser uma pessoa da família. Eu acho que a função do professor é um pouquinho essa. Se houvesse muitos assim, que magnífica era a nossa vida. Eu tinha aulas numa escola horrível, sem condições nenhumas. As escolas hoje, ao pé da escola onde eu andei, são sumptuosas. E Leiria era uma cidade muito estranha. O Miguel Torga, quando foi fazer o Internato Rural pela Leiria. O Miguel Torga vinha de Trás-os-Montes, era um personagem particular, que eu cheguei ainda a conhecer. E dizia: "Como é que o Eça de Queiroz conseguiu arrancar de uma cidade como esta, um romance como aquele?" Era uma cidade muito pequenina, onde todas as pessoas se conheciam, mas claro que depois tinha histórias e histórias, e o Eça foi capaz de apanhar muitas e criou outras, claro.
E se fosse o Eduardo a dizer algumas dessas coisas, o que diria hoje de Leiria?
João, eu acho que Leiria cresceu bem. Curiosamente, eu acho que Leiria está muito mais bonita. Quando eu comparo, por exemplo, Coimbra, Aveiro, Leiria, acho que Leiria e Aveiro cresceram muito bem. Acho que Coimbra cresceu muito mal.
O Eduardo está a viver agora numa zona.
Entre Coimbra e Aveiro.
Que eu tenho muita inveja, por estar ali rodeado do melhor leitão da Bairrada.
Isso é verdade.
É algo que me deixa aqui com alguma inveja, vou confessar.
Sim. E o vinho da Bairrada, João.
Sim.
Que é uma coisa que eu descobri.
Não há como enganar.
É absolutamente fantástico, com muitos pequenos produtores a pegarem em vinhas dos avós e o vibrar dos produtores é uma coisa que é absolutamente fascinante. É verdade que sim, mas Leiria cresceu bem. É uma cidade com uma grande indústria e com muitas pessoas que chegaram de novo, com uma universidade neste momento, é uma coisa fantástica. Há um pulsar na cidade que se sente particularmente no fim de semana, que eu acho que distingue as cidades vivas das cidades adormecidas. Coimbra é uma cidade muito adormecida, tragicamente ao fim de semana. Leiria, Aveiro, as pessoas vêm para a cidade e há sempre coisas a acontecer. E esse lado da cidade eu acho que é muito bonito, porque as cidades são isto, não é? Uma pluralidade de pessoas diferentes que se vão juntando pretexto disto ou daquilo e que vibram com ela, isso é uma coisa insubstituível.
Há bocadinho falou da Taylor Swift. Continua a gostar de Bossa Nova?
Gosto.
Não tem nada a ver uma coisa com outra.
E acho que se houvesse o João Gilberto e o Vinícius estariam lá seguramente.
E o seu Benfica?
Mas isso é intocável, por favor, não me fale dele.
Há bocadinho disse que se emocionava com tudo Emociona-se também com o Benfica?
Tudo. Isso, por favor. Há gols que são do outro mundo. Quando uma pessoa chega a Milão e dá um bailarico daqueles, eu fico a vibrar. E o que me irrita, mas irrita-me verdadeiramente, é eu pensar assim: "Mas estes cidadãos ganham um escândalo de dinheiro. Como é que se pode falhar três vezes um passe na mesma jogada e esse é o meu lado". E depois o meu filho mais pequeno é muito engraçado. Nós vimos os jogos e eu sou uma caricatura magnífica, porque de repente eu estou a protestar com o jogador: "Como é possível ele estar a jogar assim?"
Ou seja, se nós víssemos um Eduardo Sá a ver um jogo do Benfica, íamos conhecer outra pessoa.
Não, eu acho que eu sou esta pessoa também. E depois aquele jogador marca um gol e eu de repente digo: "Que gol magnífico!" E o meu filho funciona como uma voz da razão em relação a mim. Mas esse é o lado pimba, que eu acho que é delicioso nas pessoas. Que é juntarem-se e vibrarem. Antes vão beber umas cervejas, no fim vão beber umas cervejas. E eu conheço muitas pessoas, independentemente dos clubes, que têm este ritual que eu acho que é lindíssimo, tão bonito que eu acho que aqueles barulhões, que andam para aí a fazer de conta que são claques e que corrompem este lado fantástico que faz parte do desporto, deviam ser todos proibidos de entrar nos recintos. E só as pessoas que amam o desporto e amam estas coisas todas.
Gosta de ter a casa cheia. Penso eu que ainda gosta também de dar colo aos seus filhos. Ou o silêncio hoje tem outro significado e gosta ainda mais de apreciar esses momentos a solo?
Eu gosto muito de silêncio. Na verdade, eu nunca tenho um silêncio completo. Porque hoje de manhã, por exemplo, era um bando de corvos que andava por ali e uns gatinhos recém-nascidos que insistiam em fazer uma barulheira absolutamente fora de lugar. Mas há um silêncio no campo que eu acho absolutamente fascinante, sobretudo porque eu estou a muito pouca distância de Coimbra, da Ave, e portanto facilmente salto. Eu preciso muito da cidade. Eu não passo sem ela, de modo nenhum. Mas depois poder transitar entre estes dois mundos é um privilégio muito grande. E sim, dou colo. Sou a entidade reguladora, se for preciso, e independentemente de eles serem muito crescidos, eu continuo a dizer: "Olha, eu preciso falar contigo".
Faz parte.
E eles já sabem que provavelmente vem lá uma dor de cabeça qualquer.
Há bocadinho falávamos dos outros, da capacidade de conversarmos uns com os outros. Por que temos tanta dificuldade hoje em dia de olhar olhos nos olhos das pessoas?
Porque eu acho que somos um bocadinho parvos quanto a tudo aquilo que devia acontecer. Acho que somos um bocadinho parvos. E temos a ideia que não nos podemos expor, como se aquilo que nós somos não estivesse rigorosamente estampado nos nossos gestos e nos nossos olhos. E o que é mais grave, é que eu conheço muitos casais em que um deles acha que não pode mostrar tudo aquilo que é, porque senão é ficar vulnerável. E eu chamo sempre a atenção do óbvio, que é: meu Deus, é como se dissesse: "Eu gosto muito daquela pessoa, mas eu guardo o melhor de mim só para mim". E eu fico sempre atônito a dizer assim: "Mas como é que é possível?" Eu acho que fomos muito mal educados para as relações. Acho que o mundo está muito doente, mas eu não fico nada preocupado com o futuro.
É uma pessoa otimista?
Quando nós olhamos para a história, sei lá, veja o terramoto de Lisboa, para não irmos mais longe.
E já vamos um bocadinho.
E já vamos um bocadinho. Uma coisa verdadeiramente trágica, tão trágica que alguns filósofos alemães disseram: "Por que aconteceu o terramoto de Lisboa? Porque aqueles portugueses se lembraram de construir uma cidade ali." E quando olhamos para trás, nós percebemos que as pessoas foram expostas a tantas maldades à medida que foram crescendo, a tantas violências e viram tantas coisas que não deviam ter visto. E a humanidade foi capaz de crescer sempre. E não se trata de ser otimista, basta olhar para a vida tal como ela é. E eu acho que as mães e os pais foram os grandes responsáveis por isso. Porque no meio daquela maldade toda, foram capazes de ser bondosos e transformar uma necessidade de sobrevivência, que é nossa, num vínculo amoroso. E eu não tenho dúvidas nenhumas que nós continuamos a pensar. Os líderes são sempre muito estúpidos, porque acham que comunicar com muito pô de arroz e dizendo as coisas mais banais e completamente vazias, é a forma de nos manipular. E aquilo que a mim me irrita muito é terem a ideia que um psicólogo serve para manipular pessoas, isso dá um poder sobre as pessoas.
E não é.
É exatamente o contrário. E não fico nada preocupado em relação ao futuro. A única coisa que me preocupa é que eu tenho a ideia que nós neste momento vivemos numa deriva populista Muitas pessoas se vão magoar, entretanto, mais do que era suposto.
É isso que mais o inquieta?
É. Mas há uma coisa que é bonita, porque eu escrevo para as redes sociais e, como deve imaginar, aquilo que eu escrevo não é diferente daquilo que eu falo consigo. E é ótimo, porque na última semana eu escrevi um texto sobre o regresso às aulas que teve 900 e não sei quantas mil visualizações. Isso diverte-me imenso, porque às vezes nós temos a ideia que as redes sociais alimentam a estupidez humana. E é divertidíssimo nós falarmos verdade e percebermos que as pessoas não consomem uma floribela qualquer, as pessoas pensam. E que quando nós as interpelamos, elas são muito gratas e portanto eu acho que a maior parte dos líderes políticos andam distraídos, porque eu continuo a acreditar que se ganham eleições falando verdade, mesmo que se diga: "Atenção, isto está difícil." Acho mesmo isso. E portanto, o futuro não me incomoda nada, nem a inteligência artificial, para dizer a verdade, porque eu acho que a escola sempre estimulou a inteligência artificial, a partir do momento em que imaginou que as crianças pensam todas a partir do zero, da mesma maneira e à mesma velocidade. E são tanto mais inteligentes quanto melhor repetem. Isto é inteligência artificial. E portanto fico muito triste e muito atento aos dados do PISA, porque é só mais uma prova de que a escola tem que se reinventar e não é por reproduzirem conhecimentos e por serem avaliados com pô de arroz que nós ajudamos as crianças a pensar. O grande desafio não é elas repetirem, é elas recriarem. E quando elas chegam a uma avaliação qualquer, ou a população portuguesa depois dos 30 anos, que tem níveis de rendimento, de literacia, que são um sobressalto. Se as pessoas, entretanto, não sabem, é porque nunca aprenderam, porque eu não tenho dúvidas absolutamente nenhumas, em relação ao português, à matemática, em relação à vida, às relações amorosas e tudo o resto, que quem aprende, nunca esquece.
E estamos sempre a tempo de aprender, não é?
Meu Deus, sempre, até porque a vida faz o favor de nos pôr desafios sempre mais complexos e se nós tivermos a humildade de apanhar a onda, aprendemos coisas hoje que não aprenderíamos seguramente há 10 ou há 20 anos.
Eduardo Sá, mesmo para terminar, qual foi o melhor elogio que já lhe fizeram?
Não sei, João. Às vezes as pessoas acham que eu sou um bocado infantil, e eu fico muito agradecido por isso, porque eu acho que por dentro nós somos todos muito infantis. Por isso é que eu ficaria divertido se a minha mãe ou meu pai dissessem: "Estou de gravata." Porque fazemos de conta que somos crescidos. Fazemos muito mais de conta que somos crescidos.
E passamos uma vida a tentar forçar isso, não é?
Sim. E portanto, nós deslumbramo-nos como as crianças, irritamo-nos como as crianças. Às vezes não pedimos ajuda como as crianças, isso a mim incomoda-me. Mas se calhar, talvez isso, não sei.
Eduardo Sá, podemos ouvi-lo de segunda a sexta na Rádio Observador, no "Porque Sim, Há Resposta", com a Judite França.
Minha querida Judite França.
Para quem mandamos um beijinho. O Eduardo Sá tem também um novo livro, falámos dele nestes "Em 40 Minutos": "Um Pássaro Quando Pousa Nunca Deixa de Voar". Está nas bancas e agora o Eduardo Sá, uma vez que estamos a gravar esta conversa, vai apresentá-lo.
Meu Deus, isso é uma maldade. Vamos lá ver. A pretexto de uma história, é só a tentativa de dizer: "Atenção." Eu acho que nós temos que ser gratos por pensar. Nós temos o direito a estar tristes e chorar é um exercício de liberdade. É que nós muitas vezes nos limitamos. Então os homens, meu Deus, que são tão mal educados para isso. E portanto, é só uma espécie de manifesto de resistência em relação a tudo o resto que nos dizem todos os dias. E é uma espécie de convite para que nós possamos estar atentos para o que se passa dentro de nós e partilhar isso com as pessoas, porque se o fizermos, há uma diferença muito grande entre imaginarmos voar e aprender a voar. Eu acho que estamos todos a tempo de aprender a voar, mesmo as pessoas que entretanto se espatifaram e têm dificuldade em andar, como eu.
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