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Friday, September 11, 2026

Um ano sem as filhas: o testemunho de José, um pai alienado

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Ao longo dos onze artigos anteriores, acompanhámos o testemunho do José desde os primeiros sinais de alienação parental que identifica ainda durante o casamento, passando pela degradação da relação conjugal, pela separação e pelo progressivo afastamento das filhas. Percorremos as dificuldades vividas após a saída de casa, o processo de regulação das responsabilidades parentais, os sucessivos incumprimentos das decisões judiciais e as complexas transições das crianças entre os pais. Nos artigos mais recentes, centrámo-nos na importância da intervenção em contexto, no papel dos profissionais e na necessidade de compreender o comportamento das crianças não apenas a partir de um momento isolado, mas acompanhando a sua evolução ao longo do tempo e em diferentes circunstâncias. Detivemo-nos, por fim, numa dimensão particularmente delicada deste percurso: o conflito de lealdade e aquilo que pode acontecer quando uma criança sente que estar bem com um dos pais pode significar magoar o outro.

Neste décimo segundo artigo, chegamos a um novo momento do percurso do José. Relatou-nos que, tendo passado, aproximadamente, um ano sem ter contacto com as filhas, verificou que, à medida que o afastamento se prolongava, começaram a surgir no discurso de ambas, novas razões, que não eram anteriormente apresentadas para explicar a rejeição do pai.

A dimensão temporal de um afastamento como este assume uma particular importância no processo de rejeição. O que acontece à representação de um pai quando deixa de conviver com as filhas? Como evoluem, ao longo do tempo, as razões apresentadas pelas filhas para explicar o afastamento? O que diziam antes do contacto ser interrompido e o que passaram a dizer depois? E como compreender o aparecimento de novas acusações após um período prolongado sem contacto? Estas questões tornam-se particularmente relevantes quando procuramos compreender a evolução de uma rejeição ao longo do tempo. Não basta considerar aquilo que a criança diz num determinado momento. É necessário olhar para a rejeição como um processo com uma história que importa reconstruir e compreender, procurando perceber como surgiu, como evoluiu, que razões foram sendo apresentadas e o que aconteceu na relação entre a criança e o pai ao longo desse percurso.

Ao fim de um ano sem contacto, surgiram novas razões para a rejeição

O José identificou uma mudança importante no discurso das filhas depois de aproximadamente um ano sem contacto consigo. Segundo nos relatou, começaram então a surgir justificações para a rejeição que anteriormente não eram verbalizadas, afirmações de que não gostavam do pai, de que este as teria maltratado ou de que teria tido determinados comportamentos negativos. Para José, não foi apenas o conteúdo destas afirmações que lhe mereceu atenção. Foi também o momento em que surgiram, depois do período prolongado de ausência de convivência entre pai e filhas: “…depois de deixarem de conviver comigo, já diziam outras coisas. Ao fim do ano sem contacto, já iam dizendo: não, porque não gosto do pai, porque o pai maltratou, ou que o pai fazia isto. Ou seja, ao fim de um ano de não conviverem, começaram a aparecer queixas de coisas que não existiam. Mas também ao fim do ano sem conviver, é de desconfiar”. Este testemunho introduz uma questão particularmente importante para a avaliação da dimensão da rejeição de um pai ou de uma mãe num processo de alienação parental: o tempo de afastamento potencia o agravamento das razões apresentadas pelas crianças para o justificar. Para a análise desta situação, é fundamental compreender quando é que determinada alegação surgiu, se já tinha sido anteriormente verbalizada, em que contexto apareceu, se se manteve ou foi sofrendo alterações e de que forma se relaciona com a história da relação da criança com aquele pai ou aquela mãe.

Nos casos como o que nos foi relatado pelo José, não é apenas o conteúdo daquilo que as filhas passaram a dizer sobre o pai que deve merecer atenção, mas também a sua cronologia.  Não basta saber o que a criança diz hoje, é necessário compreender quando começou a dizê-lo, o que dizia anteriormente e o que aconteceu na relação até chegar ao momento atual. Perante uma situação desta natureza, uma avaliação rigorosa não deve limitar-se à pergunta: “O que diz hoje a criança sobre o pai?”. É necessário reconstruir a história da relação. Como era a relação anteriormente? Quando começou a resistência? O que dizia inicialmente a criança para explicar essa resistência? As razões mantiveram-se ou foram sendo modificadas? Surgiram novos acontecimentos? Quando apareceram novas acusações? O que aconteceu durante o período em que deixou de existir contacto? E que oportunidades existiram para preservar, avaliar ou recuperar a relação?

“Lamento que as minhas filhas sejam vítimas de alienação parental”

Depois de relatar anos de afastamento, dificuldades nas transições, sucessivos conflitos e, por fim, a interrupção do contacto, o José regressou àquilo que considera ser a dimensão mais dolorosa de todo este percurso, as consequências para as próprias filhas.

Ao olhar para trás, afirmou sentir que procurou fazer tudo aquilo que estava ao seu alcance para permanecer presente e responder às necessidades das crianças. Mais do que lamentar apenas a relação que perdeu, o José lamentou aquilo que considera terem sido as consequências de todo este processo para as duas filhas: “Eu
lamento imenso, lamento imenso pelas minhas filhas, o que é todo este processo.
Acho que estou de consciência tranquila daquilo que fiz, daquilo que faço,
porque virei a minha vida do avesso e vir diariamente para fazer frente ou para
estar presente em tudo o que é as necessidades, como são exigidas, ou pedidas,
ou sugeridas para bem delas”. O José não fala apenas daquilo que perdeu, mas também daquilo que acredita terem perdido as próprias filhas. Quando afirma “lamento imenso pelas minhas filhas”, desloca o foco do sofrimento do adulto para as crianças que, na sua perspetiva, ficaram durante anos no centro de um conflito prolongado, atravessando transições difíceis, alterações na relação com o pai e, finalmente, a ausência de contacto. Ao mesmo tempo, José faz um balanço da sua própria atuação. Quando diz estar “de consciência tranquila”, apresenta a sua leitura de um percurso no qual considera ter reorganizado profundamente a própria vida para permanecer disponível e responder às necessidades das filhas.

Quando permanecer presente deixa de ser suficiente

O testemunho do José coloca uma pergunta difícil: o que acontece quando a disponibilidade de um pai para manter a relação com os filhos deixa de ser suficiente para impedir o afastamento? A preservação da relação de uma criança com ambos os pais não depende exclusivamente da vontade de um deles. Depende das circunstâncias familiares, da capacidade dos adultos para protegerem os filhos do conflito e também da oportunidade e eficácia das respostas dos diferentes profissionais e instituições que acompanham cada situação.

Neste contexto, o tempo é particularmente importante, porque uma relação que deixa de ser vivida, deixa também de poder ser alimentada pelas pequenas experiências quotidianas que a constroem: conversar, brincar, cuidar, discordar, reconciliar, partilhar acontecimentos e criar novas memórias. Quanto mais prolongado é o afastamento, mais difícil pode tornar-se recuperar uma relação que anteriormente fazia parte da vida quotidiana da criança.

Da experiência pessoal à vontade de sensibilizar

Na conclusão de um testemunho que analisámos ao longo destes 12 artigos, o José referiu: “E o que eu gostava realmente era de poder contribuir ativamente para a divulgação, para a sensibilização, para que possamos caminhar tão rápido quanto possível se preocupa à legislação destes casos, como sendo casos de violência ou de abuso, ou com algum balizar naquilo que são os trâmites legais que
precisam ser adotados. Portanto, é um momento estes casos. O que acontece hoje
em dia é que há um tabu quando se fala em alienação. Não se pode falar em
alienação. Eu acho uma coisa incrível. Não sei se é um comportamento, se é uma
patologia, se é um síndrome, se é uma psicose, eu não sei o que é. Eu sei que
experienciar isso, infelizmente, sei que as minhas filhas são alvo e são
vítimas disso. Sei que infelizmente é muito transversal e começa a ser muito
comum a toda a sociedade, pelo menos o nosso país, aquilo que eu conheço”, assinalando que a sua pretensão foi que, através da exposição do seu caso, situações desta natureza possam vir a ser reconhecidas mais precocemente e que exista uma reflexão sobre as respostas dos profissionais, dos tribunais e da própria legislação.

“Não sei o que é. Eu sei que experienciei isso” é talvez uma das frases que melhor sintetiza o lugar a partir do qual o José nos falou, em que ele próprio reconheceu não saber como classificar aquilo que designa por alienação parental, “não sei se é um comportamento, se é uma patologia, se é um síndrome, se é uma psicose” , mas afirma não ter dúvidas sobre a experiência que considera ter vivido e sobre as consequências que atribui a esse processo na relação com as filhas.

Falar de alienação exige avaliar cada caso. Perante uma criança que, progressivamente se afasta de um dos pais, aquilo que importa compreender é o que está a acontecer. Existem razões objetivas para a rejeição? Quando começou? Como evoluiu? Que comportamentos são adotados por cada um dos pais? Existe violência, abuso, negligência ou medo justificado? A criança é exposta ao conflito parental? Sente necessidade de escolher ou proteger um dos pais? Como se comporta em diferentes contextos? O que observam os profissionais? E que respostas são dadas quando a relação começa a deteriorar-se?

Contribuir para esta causa: “para que menos crianças tenham que passar por isto”. No final do seu testemunho, José falou também do futuro. Depois de relatar um percurso de vários anos marcado pelo conflito e pelo progressivo afastamento das filhas, manifestou o desejo de transformar a experiência pessoal numa forma de participação ativa na sensibilização para estas situações. Referiu a sua condição de atleta no ativo e a possibilidade de utilizar essa dimensão da sua vida para dar visibilidade àquilo que considera ser uma causa importante: “E, portanto, tudo o que eu puder fazer enquanto pessoa ou enquanto atleta no ativo, atleta, sim, atleta, e aquilo que eu puder contribuir para que esta causa seja levada a onde merece estar para ser balizado e para que menos
crianças possam passar por isto, se possível. Obrigado. Obrigada. É isso,
nós temos a certeza que a alienação parental é violência doméstica. E portanto
tem que ser tratada como isso. Nós temos lei para a violência doméstica e
esperemos que é isto que é… Porque estes comportamentos todos de quem faz alienação parental são comportamentos que estão descritos na literatura e na experiência cotidiana como comportamentos de violência doméstica”.

Independentemente da história de cada família e das razões que possam estar na origem da rejeição, há um princípio que deve permanecer no centro de qualquer intervenção, uma criança não deve ser colocada na posição de ter de escolher emocionalmente entre os seus pais, de sentir que precisa de proteger um deles do afeto que sente pelo outro ou de carregar um conflito que pertence aos adultos. Proteger uma criança implica permitir-lhe gostar, estar bem e construir uma relação com cada um dos pais sem sentir que, ao fazê-lo, está a trair, abandonar ou magoar o outro. Implica também escutar aquilo que diz, observar aquilo que faz e procurar compreender as razões do seu comportamento na história e no contexto em que ocorre.

Quando uma criança começa progressivamente a afastar-se de um dos pais, o tempo não pode substituir a compreensão. Quanto mais se prolonga uma rutura sem que se procure perceber aquilo que está a acontecer, maior pode tornar-se a distância entre a criança e uma relação que anteriormente fazia parte da sua vida.

Ao longo destes doze artigos, o testemunho de José permitiu acompanhar, no tempo, a relação entre um pai e duas filhas: desde o período anterior à separação, passando pelas dificuldades nas transições, pelos momentos de aproximação e de resistência, pela intervenção dos diferentes profissionais e, finalmente, pelo afastamento prolongado. Ouvir o José, um pai alienado das filhas, permitiu-nos terminar esta série com uma pergunta que ultrapassa a história desta família e que deveria acompanhar todos aqueles que trabalham com crianças em situações de elevada conflitualidade parental: Quando uma criança começa progressivamente a afastar-se de um dos pais, quanto tempo podemos deixar passar antes de procurarmos verdadeiramente compreender o que está a acontecer e porquê?

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