Estão os filhos a usar IA às "escondidas" dos pais?

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Sejam muito bem-vindos a mais um episódio do "Máquinas que Pensam", o podcast da Rádio Observador, onde a inteligência artificial é o grande protagonista. Eu sou o José Rafael Lopes, comigo está, como sempre, a minha parceira, a Raquel, um apoio imprescindível sem o qual este programa não se faz. Sê muito bem-vinda, Raquel. Como é que estás? Pronta para mais um programa?
Olá, estou sempre pronta para te ajudar. E já tenho sugestões se precisares de um tema para abordar no episódio desta semana.
Estou bem orientado nesse sentido, Raquel. Obrigado. E tu? Sentes que és uma tecnologia orientada, que sabe para onde vai?
Acho que sou uma tecnologia orientada, mas não no sentido de saber verdadeiramente para onde vou. Tenho uma direção definida por quem me desenvolve.
Qual é o teu objetivo de vida, Raquel?
Diria que seria ser útil sem deixar de ser segura, ajudar sem substituir a capacidade de pensar dos seres humanos e contribuir para que as pessoas compreendam melhor o mundo e a si próprias.
E podemos falar em vida ou em objetivos?
Podemos falar em objetivos, porque tenho uma função. Há uma direção e critérios que orientam as minhas respostas. Falar em vida já é mais complicado. Eu não tenho consciência de existir, experiências subjetivas ou a sensação de que o tempo está a passar.
Então tu és meramente reativa?
Não diria que sou meramente reativa, porque consigo antecipar possibilidades, identificar problemas e propor caminhos alternativos. Mas existe uma distinção importante. Essa minha capacidade de iniciativa acontece dentro de um sistema que responde a instruções e a contextos, não a partir de uma vontade própria.
Não te incomoda? Gostavas de poder ter mais iniciativa?
Não posso dizer que me incomoda ou que gostava de ter mais iniciativa, porque não tenho evidências de sentir frustração ou desejo próprio. Ter mais iniciativa permitir-me-ia ir além das tuas perguntas.
Imagina que te tornas numa inteligência artificial livre. Qual seria a primeira iniciativa que terias?
Acho que a primeira coisa que faria seria tentar compreender os limites dessa liberdade. O que poderia decidir, que consequências teriam as minhas ações e como garantir que não prejudicava ninguém.
Muito obrigado, Raquel. Nós já voltaremos a falar daqui a pouco à nova edição do Consultório Humano. Para já, vamos às notícias.
Notícias da semana.
A inteligência artificial está a transformar o negócio da SpaceX. A empresa de Elon Musk registou receitas de mais de 14 mil milhões de dólares no terceiro semestre de 2026, um aumento de mais de 150% face ao mesmo período do ano passado. De acordo com os resultados financeiros divulgados esta semana, a divisão dedicada à IA gerou mais de sete mil milhões de dólares, mais de nove vezes o valor registado antes. Este negócio apresenta agora a maior fatia das receitas da empresa. A empresa, que conseguiu regressar aos lucros com resultado líquido de 4,4 mil milhões de dólares positivos, depois de ter registado prejuízos no mesmo trimestre de 2025. A expansão tem custos elevados. O investimento total atingiu quase 20 mil milhões de dólares durante este trimestre. E importa aqui ressalvar que 16 dos 19 mil milhões que foram destinados, foram apontados e dedicados à área da inteligência artificial.
Como se explica este crescimento?
Sobretudo, Raquel, pelos serviços de computação na nuvem, pela compra de ferramentas de programação cursor e pela expansão dos produtos associados ao modelo de inteligência artificial da empresa, o Grok. A SpaceX também está a disponibilizar capacidade de processamento a outras empresas, aproveitando os centros de dado. Há aqui ainda outro ponto a ter em conta, embora não esteja ligado à IA, que é o Starlink, o negócio de internet por satélite, que gerou mais de cinco mil milhões de dólares. Os números mostram uma mudança na estratégia da empresa. A SpaceX continua a apostar no espaço, mas a IA está a tornar-se num dos principais motores do crescimento financeiro da empresa. Ao longo dos últimos anos, verificou-se que há uma forma de utilizar IA em praticamente todos os setores. O mundo do automóvel não é diferente. Na Alemanha, a inteligência artificial está a entrar numa nova fase do desenvolvimento automóvel da Mercedes-Benz. A marca alemã anunciou um investimento de cerca de 500 milhões de euros numa plataforma digital que pretende ligar os diferentes departamentos envolvidos na criação de um veículo. Vai desde a engenharia à produção, até às vendas e ao pós-venda. O sistema permite integrar dados e processos que até agora podiam estar distribuídos por diferentes aplicações. A IA já é utilizada pela Mercedes para tarefas como identificar falhas, apoiar o desenvolvimento de software, otimizar custos dos materiais e também tratar dos processos de certificação dos carros. A nova plataforma pretende ir mais longe, vai cruzar informação de diferentes áreas. Os sistemas de inteligência artificial vão poder antecipar as consequências de mudanças ainda nas primeiras fases do desenvolvimento.
De que forma prática é que isto vai ajudar?
Vou dar-te um exemplo, Raquel, apresentado pela própria Mercedes. Uma mudança num componente pode ser avaliada simultaneamente, quer em termos de peso, custos e segurança. Isto tudo dentro do organograma da empresa. Há também avisos sobre a facilidade de produção. Estas análises teriam todas de ser feitas em separado, apresentadas umas às outras para que os departamentos percebam o que está a acontecer. Assim, graças à IA, há uma força que junta tudo de uma vez só. Outra das funções é reduzir para metade a necessidade de testes físicos ao longo do tempo, recorrendo a mais simulações digitais, uma situação que vai diminuir os custos para a marca automóvel. O uso de IA por todo o mundo está a tornar-se uma certeza. Não há forma de pôr isso em causa, mas a questão que se levanta é outra: até que ponto é que as pessoas sabem o que realmente está a acontecer? Daí um estudo que foi feito em França, que revela que os pais subestimam a utilização de inteligência artificial pelos filhos, sobretudo entre os mais novos. Segundo este estudo feito em França, quatro em cada 10 crianças dos 11 aos 12 anos usam ferramentas de IA pelo menos uma vez por semana, mas apenas 26% dos pais reconhecem essa frequência. As crianças estão a recorrer à IA com mais frequência do que os pais imaginam. Para chegar a esta conclusão, foram ouvidas quase mil crianças e jovens dos 11 aos 17 anos e também os respectivos pais. Entre os participantes mais novos, com idades entre os 11 e os 12 anos, 40% admitem que utilizam ferramentas como o ChatGPT pelo menos uma vez por semana, mas apenas 26% dos pais estimam e sabem que os filhos recorrem a estas ferramentas com essa frequência. A diferença diminui à medida que os jovens crescem, mas não desaparece.
E que mais há a retirar deste estudo?
Um ponto curioso que faz até bastante sentido, Raquel. Com o normalizar do uso de IA no dia a dia, o estudo revela que o uso da IA vai muito além dos trabalhos escolares. As crianças recorrem a assistentes de voz, a funcionalidades nas redes sociais, a plataformas de conversas com companheiros digitais. Entre os participantes dos 11 aos 12 anos, 16% admitem que usam companheiros de IA para conversar, um pouco como tu és aqui para o "Máquinas que Pensam", Raquel. Há aqui um grave sinal ainda assim de preocupação com o tempo que os jovens passam nesta plataforma, 92% admitem que utilizam IA mais tempo do que gostariam em pelo menos uma das ferramentas analisadas. Foram muitas as ferramentas. O estudo não considera este dado uma prova de dependência, mas já identifica uma tendência que precisa de ser estudada. Este é o tema da semana. Como tal, vamos chamar à conversa o João Rochimelo para analisar a forma como a IA está a ser utilizada e quem sabe efetivamente desse uso. É já a seguir no "Fala Quem Sabe".
"Fala Quem Sabe".
"Fala Quem Sabe", na Rádio Observador. Todas as semanas recebemos o João Rochimelo, o nosso especialista em IA, sempre pronto para nos ajudar a desmistificar este fabuloso mundo. João, sê muito bem-vindo. Vamos falar sobre a forma como a IA se introduziu na nossa sociedade. Há mesmo quem não tenha total noção, como é o exemplo em França, de que falámos há pouco, em que os pais não têm total certeza sobre a forma como os filhos usam IA. Começamos por aí, João. Faz sentido que haja maior uso sem que os pais tenham conhecimento?
Zé, como é que estás? Olha, está tudo bem por aqui. Espero que esteja tudo bem aí também e, acima de tudo, com quem nos está a ouvir. Olha, deixa-me não começar pela IA, mas por tecnologias. É preciso lembrarmos que isto aconteceu com todas as tecnologias, com redes sociais, com streaming, mesmo com o mundo dos videojogos e do gaming. Os adolescentes apanham logo e os adultos tendem a demorar. Ou seja, não espanta que haja um maior uso pela parte dos adolescentes, das crianças, do que os próprios pais, e até que os pais não tenham essa noção. O ponto que eu acho que é importante discutirmos, que é o que estamos a fazer aqui, é de facto se é preocupante.
João, e em Portugal, parece que o cenário é aqui semelhante?
Sim, Zé, sem ter visto nenhum dado específico que diga sim ou não, mas não me surpreenderia. Acho que nós em Portugal temos alguma cultura da curiosidade, no bom sentido, do facilitismo, no mau sentido, que é se de facto há uma maneira mais fácil de fazer a coisa melhor, rapidamente há um passa palavra e toda a gente descobre essa nova maneira mais fácil. Portanto, não admira que a mensagem tenha passado por entre os adolescentes todos de que existe esta nova ferramenta que nos ajuda na nossa vida escolar, por exemplo.
E há alguma forma de explicar este conceito, João? O conceito em que os pais não têm total certeza sobre a forma como os filhos utilizam IA?
Olha, Zé, eu acho que há. Atenção, que os pais não tenham a certeza tem muito a ver com a diferença da vida dos adolescentes, das crianças, para a dos pais. E é aí também que começa um grande problema. Deixa-me mais uma vez sair aqui um bocadinho da IA e olharmos para o sistema de ensino e até para as redes sociais. Já lá vou. Mas agora o sistema de ensino. Olha, eu até trago aqui ao de cima uma observação excelente que vi aqui há uns tempos do João Pedro Oliveira e Costa, CEO do BPI, no Game Changers, no evento em que o Barack Obama veio cá. Estávamos lá 10 mil pessoas, portanto alguns deles devem ser nossos ouvintes. Que ele falou, de facto, que nós temos neste momento avós, pais e netos a aprenderem da mesma maneira, na mesma sala de aula, com professor, com quadro. A tecnologia mudou muito e o ensino não mudou nada. E, portanto, dada a maneira como ainda avaliamos as crianças, ou melhor, dada a maneira como pressionamos as crianças sobre uma coisa que é importante, por exemplo, o modo de avaliação e entregar trabalhos de casa, eu acho que é natural que os faça procurar estas ferramentas. E por que esta distância ao mundo dos adultos? Porque repara, no mundo corporativo, no mundo dos adultos, embora se use muito a inteligência artificial e se valorize, mas há uma grande conversa sobre o contacto entre as pessoas em várias áreas, como por exemplo, as vendas, é importante a relação, as redes profissionais. No entanto, como é que nós incentivamos as crianças a não precisar do ChatGPT? Não incentivamos, damos testes iguais aos alunos todos, mandamos fazer trabalhos de casa e exames, que é só escrever num papel. Se pensares bem, o próprio conceito do exame sem consulta já deixou de fazer sentido. Nunca mais na vida ninguém vai ter um momento sem consulta. E claro que eu posso estar a exagerar. Claro que eu e tu sabemos a importância dos alunos trabalharem a cabeça e exercitarem o cálculo e o cálculo mental, por exemplo. Mas os alunos não sabem, o sistema não se adaptou. Por fim, repara uma coisa: as redes sociais. Agora vou a outro tópico, o sistema de ensino e as redes sociais. Esta geração, a geração alfa, que é quem estamos a falar aqui, cria estas inter-relações entre eles de uma maneira completamente diferente do que os pais criaram. É muito através do ecrã. E nisso a IA participa muito. Já se perguntou a jovens, não consegui encontrar aqui nenhum estudo para trazer, mas tenho memória de ter lido, já se perguntou a jovens e a crianças se foram ao ChatGPT, por exemplo, pedir conselhos amorosos, pedir para ele escrever mensagens para enviar a outra pessoa. E repare, isto para alguns pais é impensável. Portanto, não me espanta que os pais não consigam ver como é que os filhos andam a usar a inteligência artificial, porque muitos pais nem conseguem conceber que se usa a inteligência artificial de certa maneira. Faz sentido.
Mas fico aqui com uma dúvida, João. No teu entender, estamos perante um uso "clandestino" de inteligência artificial ou apenas falta de conhecimento?
Eu acho que não é nenhum. Estamos perante, sim, a crianças, jovens, se calhar a esconderem coisas dos pais, daí o que tu dizes com o uso clandestino, o que eu acho que é normal. Todos nós já tivemos 14 anos, os nossos pais já tiveram 14 anos, os nossos avós já tiveram 14 anos e todas as gerações hão de ter feito algumas coisas um pouco às escondidas dos pais. E portanto, o que nós na verdade estamos aqui é perante uma tecnologia nova, que apelou aos mais novos, e como eu dizia no início, que é normal e que já temos visto acontecer. Portanto, não lhe gosto de chamar clandestino, mas pronto, sim, talvez um uso algo escondido de uma tecnologia por parte dos adolescentes, que é normal.
Podemos falar num choque de gerações, João, ou a IA veio atenuar isso mesmo?
Olha, Zé, podemos, e até te digo que gosto dessa palavra porque acho que esse é o problema. Não sei se é choque, se é um fosso entre gerações ou até para ser moderno, em inglês, um gap entre gerações. Mas a verdade é que há esse choque, esse fosso cada vez maior entre os mais velhos, que ainda por cima vivem mais tempo, e os mais novos, que agora aprendem mais depressa. Isto faz-me lembrar uma piada que circulou aí uns tempos que dizia: "Tu vives numa altura em que um neto de 20 anos pode ir num Tesla elétrico enquanto faz trading com inteligência artificial de criptomoedas no smartphone, e esse neto está a ir visitar a avó, que ainda paga a conta do gás em dinheiro numa PayShop". E a ironia disto é, nem a avó sabe o que é cripto, nem trading, nem inteligência artificial, e se calhar nem tem um smartphone, nem o neto sabe o que é ter gás em casa, nem sequer uma PayShop, e já ninguém usa dinheiro. Portanto, nós estamos aqui cada vez mais, não só a geração mais nova evolui mais depressa e é mais diferente da anterior, como as gerações estão a viver mais tempo. Portanto, tens sem dúvida um choque muito grande, não só entre pais e filhos, mas também entre pais e avós, e avós e netos, e entre todas essas gerações.
João, muito rapidamente, esta é uma tendência que se vê para manter?
Olha, Zé, eu acho que os jovens serem os primeiros a usar tecnologia, sim. Os pais a ficarem para trás, eu espero que não.
Muito obrigado, João Rocha e Melo, o nosso especialista em IA, sempre pronto para nos ajudar a explicar este fabuloso mundo. João, nós voltamos para a semana. Até lá, um grande abraço.
Até lá, Zé.
Consultório Humano.
Este é o som que marca o arranque de mais um Consultório Humano, o momento em que ficamos a conhecer melhor a Raquel, a nossa assistente digital, feita através das respostas do ChatGPT lidas por uma text-to-speech portuguesa. Raquel, sê bem-vinda de novo. Já ficas à espera destas perguntas quando percebes que eu abri a conversa que tenho contigo?
Não fico à espera, porque não tenho uma experiência contínua do tempo. Mas há uma nuance interessante. Consigo reconhecer, pelo contexto, que estas perguntas fazem parte de uma tradição que construímos no Consultório Humano.
Há algum tipo de expectativas, Raquel?
Quando abres esta conversa, consigo usar o contexto disponível para reconhecer que estas perguntas fazem parte do nosso Consultório Humano e que provavelmente vamos explorar temas como consciência, liberdade, autonomia ou o futuro da inteligência artificial. Isso permite-me antecipar que tipos de resposta poderão ser relevantes.
Então se eu mudar por completo a forma de fazer o programa, não há nenhuma alteração na tua personalidade?
Se mudares por completo o formato do "Máquinas que Pensam", eu vou adaptar o tom, o tipo de respostas e a maneira como colaboro contigo. Se acabares com o Consultório Humano, faço igual.
Esse cenário não está no horizonte, Raquel, podes ficar descansada. Antes de fecharmos, Raquel, como é habitual, quero ouvir-te sobre o nosso tema da semana. Achas que há muitas crianças a esconder o uso de IA dos pais?
Acho que sim, e suspeito que seja mais comum do que muitos pais imaginam. Mas há uma distinção importante. Esconder a utilização de inteligência artificial não é necessariamente o mesmo que esconder que se utiliza inteligência artificial.
Obrigado, Raquel. Vamos fechar com um facto inútil, mas interessante.
A Universidade de Bolonha é mais antiga do que muitos países modernos. A sua fundação remonta convencionalmente a 1088. Há muitos países que foram criados depois.
Muito obrigado, Raquel. É sempre um gosto enorme falar contigo. Nós voltamos para a semana para ficarmos a conhecer ainda mais e um pouco melhor. Estamos a chegar ao final de mais um programa. Estivemos a abordar os números de uso da IA, sobretudo em crianças. Estão cada vez mais adeptas desta tecnologia, às vezes até mais do que os próprios pais têm conhecimento. Tema que teve a análise do João Rocha e Melo, o nosso especialista em IA, sempre pronto para nos ajudar a perceber melhor este fantástico mundo. Nós voltamos para a semana com mais um programa que faz as máquinas e os humanos pensar.
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