Um ataque deliberado à democracia

Há limites que, uma vez ultrapassados, separam de vez o simples protesto político do puro e duro ataque às instituições, sendo que aquilo a que assistimos na segunda-feira, nas instalações da Associação Académica de Coimbra, não foi um ato de rebeldia, mas sim uma invasão vergonhosa liderada pelas deputadas Rita Matias e Madalena Cordeiro, que decidiram transformar os estúdios da Rádio Universidade de Coimbra no palco de um espetáculo triste e autoritário.
Para que não restem dúvidas sobre a gravidade desta ocupação, convém lembrar aos mais distraídos que o edifício da AAC não é uma praça pública onde qualquer um pode entrar a pontapé, tendo logo à entrada um aviso claro de que o espaço é reservado aos seus associados, ou seja, aos alunos da Universidade de Coimbra, o que nos obriga a perguntar com que direito decidiram estas deputadas forçar a entrada nos gabinetes da Direção-Geral da AAC e nos estúdios de uma rádio, agindo com uma arrogância sem limites que confunde a proteção de serem deputadas com a mania de que podem fazer tudo o que lhes apetece.
Trata-se de um grande insulto à memória e à história de uma instituição que, ao longo de dezenas de anos, foi um símbolo de resistência contra a ditadura e de defesa da liberdade de expressão, revelando uma enorme ironia ao vermos que a mesma academia que antigamente se levantou com coragem contra quem mandava vê-se agora encurralada por quem usa a nossa democracia para tentar calar os outros e meter medo, provando que a falta de noção destas pessoas só é ultrapassada pela sua vontade de aparecer nas câmaras a qualquer custo.
A gravidade deste episódio quando percebemos o verdadeiro objetivo desta invasão, uma vez que, depois de se trancarem à força durante cerca de uma hora e de criarem um clima de grande tensão, ficou claro que a única vontade deste grupo político era interromper uma emissão de rádio em direto, mostrando uma hipocrisia sem tamanho se pensarmos que o partido tinha sido convidado antes para falar por videochamada nesse mesmo programa, preferindo dizer que não para, em vez disso, apostar na força e na confusão.
Esta forma de agir não pode ser vista como algo normal nem tratada como um simples truque de comunicação para marcar a agenda e ganhar votos, porque tentar calar um órgão de comunicação social metendo receio é um ataque direto e muito perigoso à liberdade de imprensa, mostrando-nos de forma muito clara que, por trás daquelas conversas contra o sistema e dos gritos gravados para os telemóveis, se esconde apenas uma falta de tolerância brutal em relação a qualquer voz que não diga exatamente aquilo que eles querem ouvir.
Esta política de megafone, que prefere a invasão barulhenta em vez de um debate a sério e que troca a apresentação de projetos de leis que promova a nossa sociedade, por um espetáculo lamentável feito de propósito para as redes sociais, mostra bem o enorme vazio de um projeto político que, como não tem soluções verdadeiras para os problemas da juventude portuguesa, escolhe inventar conflitos e aproveitar-se do espaço dos outros para alimentar uma máquina que só serve para dividir as pessoas.
Enquanto estas deputadas perdem tempo a brincar aos ditadores e a estragar o espaço de uma instituição tão importante, os verdadeiros problemas do Ensino Superior continuam a sufocar milhares de jovens, com a Associação Académica de Coimbra a lembrar, e muito bem, que perante as dificuldades de pagar as contas, a falta de casas para os estudantes e as ameaças de voltar a subir as propinas, era no Parlamento a trabalhar a sério que estas deputadas deviam estar, e não a fazer tristes figuras nestas invasões sem sentido.
Fica assim provado, à frente de todo o país e da juventude, que a defesa dos jovens não se faz arrombando portas nem invadir microfones, servindo este triste momento para nos mostrar, de uma vez por todas, que na mesa da democracia não há, nem pode haver, lugar para quem se dedica a pontapear, a calar à força e a faltar ao respeito àquelas que são as nossas instituições.
Porque se fecharmos os olhos e aceitarmos que invadir associações e tentar calar rádios à força passe a ser o novo normal na nossa política, estamos a abrir a porta para que amanhã este tipo de violência aconteça noutros lugares ainda mais graves, esquecendo que a liberdade dá muito trabalho a construir mas pode ser destruída rapidamente por quem prefere a confusão em vez das regras de todos, exigindo-se por isso que a sociedade não fique calada perante esta vergonha e deixe um aviso muito claro de que o nosso país não é, nem nunca será, um parque de diversões para extremistas que acham que podem fazer tudo o que lhes apetece sem sofrerem as devidas consequências.
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