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Tuesday, October 6, 2026

Europa está desprotegida contra a guerra híbrida?

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Este é o Gabinete Guerra das manhãs 360, eu sou a Maria João Simões. A análise é do Miguel Baumgartner, especialista em Relações Internacionais. Olá Miguel, bom dia, bem-vindo.

Olá Maria João, bom dia.

Olá Miguel. Começamos pelos Estados Unidos que agendaram uma reunião de emergência na Polónia para discutir o futuro e a reestruturação da NATO, mas Miguel, deixaram de fora parceiros históricos como Reino Unido, França e os países bálticos. Excluir outros aliados não pode levar à divisão da NATO?

A questão da reunião é essencialmente com aquele que é o país, excluindo a Turquia, que hoje mais investe na sua própria defesa e também naquilo que é o princípio que Donald Trump defendeu para a Europa, o aumento da sua capacidade financeira e daquilo que seria o orçamento com o valor dos 5%, em termos de investimento da NATO, que é a Polónia. Hoje a Polónia, até muito superiormente em relação à Alemanha, é o país que teria uma maior capacidade de mobilização e uma maior capacidade militar de ação neste momento naquele espaço europeu. E mais, tem também um poder determinante, não só na tecnologia militar que está a desenvolver, como obviamente é o país que está encostado à Ucrânia. Partindo do princípio que toda a gente já entendeu de que a própria defesa da Ucrânia é a primeira linha de defesa da NATO, então parece-me óbvio que nesta reunião o que Donald Trump tenta fazer é isolar a Polónia dos restantes membros e aliados da NATO, na tentativa de alguma forma de criar uma certa pressão para duas coisas. Primeiro, para que a Polónia continue a comprar aos Estados Unidos e continue a investir. Hoje, aliás, está inscrito na Constituição 4,8% do seu Produto Interno Bruto é para ser utilizado em defesa e essencialmente para fazer aquilo que Donald Trump quer fazer, que é tentar criar, mesmo dentro da Europa, duas linhas. Uma linha próxima daquilo que é o seu pensamento político em relação à questão da Rússia, e a segunda linha são aqueles países que ele vai deixando isolados, que ele sabe que militarmente hoje não têm uma capacidade superior, ainda não têm essa capacidade porque começaram a investir há muito pouco tempo, e essencialmente também isolar aqueles que são os maiores países, permitindo assim estas duas velocidades, se me permites, dentro da própria organização. Portanto, só assim é que se entendem estas negociações e estas reuniões com a Polónia, que efetivamente têm uma importância enorme naquilo que é a defesa daquele ponto preciso do espaço da NATO na Europa.

Entretanto, Miguel, as secretas ucranianas identificaram alvos e avisaram os aliados de que a Rússia se prepara para intensificar operações de sabotagem em solo europeu, nomeadamente sobre infraestruturas críticas da União Europeia e da NATO. Miguel, este alerta confirma que os países da Aliança Atlântica continuam desprotegidos contra a sabotagem interna?

Confirma duas coisas, Maria João. Primeiro, confirma que a Europa continua a não estar, não é nem preparada, mas continua a não estar em estado de alerta total, entendendo que não está numa guerra total também contra a Rússia. Portanto, nós não estamos com exércitos na rua, nós não estamos em batalha direta com a Rússia, mas existe uma interferência da Rússia através da chamada guerra híbrida, ou se quiserem chamar guerra indireta, ou uma guerra tecnológica, ou de sabotagem, ou de interferência dentro do espaço democrático, com interferência em processos como o Brexit ou eleições. E portanto, existe este ataque à Europa, essencialmente àquilo que é a coesão europeia e também a coesão democrática e, se quiseres, também a ideia de que os países estão seguros. E, portanto, a ideia é criar a cisão dentro da União Europeia, a instabilidade económica e a instabilidade política. E tudo isto vai continuar a acontecer dentro do espaço europeu. Já acontece, não é de agora, acontece muito antes do início da Guerra da Ucrânia. Pelo menos o Vladimir Putin está desde 2000 como presidente russo, portanto, acontece há mais de 20 anos. Agora, o que é que está a acontecer? Agora está-se a focar mais neste ponto, porque os incidentes são mais comuns, são maiores, como tivemos, por exemplo, aquele em Leipzig, na Alemanha. E a Europa tem que não só ter uma condição de defesa e uma posição também perante o povo europeu, de dizer efetivamente o que é que está a acontecer. Mas como esta dinâmica dos extremos e do populismo está a ganhar muito espaço e está a ganhar eleições, os políticos não têm coragem porque querem continuar a dar a ideia para a população de que está tudo bem ou de que vai ficar tudo bem e, portanto, que não há necessidade de alarme. O problema é que as populações cada vez têm acesso a mais informação e sabem o que está a acontecer e os populismos são também um resultado desta intervenção.

Miguel, ainda sobre a ameaça russa, a Estónia mudou a sua doutrina militar em vez de esperar por reforços da NATO se for invadida, passou por uma estratégia de defesa ativa e começou a posicionar militares junto da fronteira russa. Miguel, isto é um sinal claro que a Estónia já não confia na rapidez da resposta de Washington e de Bruxelas em caso de uma invasão de Moscovo?

Principalmente Washington não confia. E nós estamos a falar de uma ex-república soviética que esteve debaixo das mãos soviéticas muitos anos e sabe como é que funcionam os russos. E não quer que aconteça na Estónia exatamente aquilo que aconteceu na Ucrânia. Apesar de efectivamente a sua capacidade militar ser ínfima comparativamente com aquilo que é ainda a capacidade militar russa, é acima de tudo para demonstrar não só aos parceiros europeus, mas também aos parceiros da NATO, que não vão esperar as decisões da NATO, não vão esperar por decisões de que a Europa está a passar sobre a sua própria segurança. É que depois funciona assim, Maria João, e este é que é o problema de que alguns países, e voltamos à questão da Polónia, que é o factor decisor da Europa. Muitas vezes nós esquecemos que a Europa não é um Estado federado, é uma união política e económica, mas não é um Estado federado. Portanto, o Ursula von der Leyen não toma decisões e depois essas decisões seguem em frente. O problema é que estes países não querem mais esperar pela burocracia e pelo tempo de Bruxelas, nem querem depender de um bom humor ou mau humor que Donald Trump possa ter. Preferem tomar as suas próprias decisões, preferem gastar os seus próprios orçamentos e preferem, acima de tudo, também lançar uma mensagem a Vladimir Putin a dizer que estão preparados e estão, até me permito terminar com esta frase, à espera de Vladimir Putin caso ele tome essa veleidade de invadir. Eu acho que é um exagero. Eu sempre disse que a Rússia não vai vir por aí abaixo, não é esse o papel. Aliás, se isso acontecesse, iria fazer exactamente o contrário do que eu estava a explicar há bocado, relativamente ao que é a guerra híbrida, que é a ideia de dividir para reinar. Se houvesse um ataque frontal à Europa, isso iria unir a Europa, iria até trazer uma coisa que Vladimir Putin sabe, que a economia total dos países da NATO na Europa e o seu poderio militar é superior àquilo que é a capacidade militar russa. Não é essa a intenção de Putin, é muito mais este desgaste, é muito mais esta notícia que tu acabaste de dizer agora, que é isso que passa para a população, de que efectivamente nós estamos desprotegidos e somos um alvo da Rússia.

Miguel Baumgartner, muito obrigada pela tua análise. Boa semana, Miguel.

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