Na 'zona da morte', cidade da Ucrânia é ameaçada pela fome durante a guerra
Poucas notícias conseguem sair da cidade sitiada de Oleshki, um deserto na linha de frente, isolado por minas e drones do restante da Ucrânia ocupada pela Rússia.
Mas uma coisa está clara pelo que veio à tona: uma calamidade humanitária está em curso. Não há comida, segurança nem saída.
"No outono, com certeza morreremos", escreveu um morador neste verão (no hemisfério norte). "Já estou morrendo. Fico mais fraco a cada dia."
"Estamos preparando nosso último borsch [sopa típica]", escreveu outro, "com uma beterraba, cinco batatas, uma cebola, uma abobrinha, um tomate e um pouco de cevada quebrada para engrossar. Não há cenouras."
Um terceiro disse: "Não há abastecimento de nenhum tipo. É um bloqueio total. E drones e incêndios sem fim. Como em um filme de terror."
Lá Fora
Receba no seu email uma seleção semanal com o que de mais importante aconteceu no mundo
Essas mensagens, enviadas por alguns dos cerca de 2.000 civis —entre eles aproximadamente 40 crianças— que permanecem em Oleshki, foram compartilhadas com The New York Times por Tetiana Hasanenko, política local no exílio.
Elas oferecem um vislumbre da deterioração das condições à medida que a cidade, sob controle russo, fica sem acesso a alimentos e ajuda médica, provocando apelos na Ucrânia por uma retirada urgente antes que a população morra de fome.
O destino de Oleshki sintetiza a natureza insolúvel da guerra. Os dois lados continuam tão distantes de qualquer trégua que nem sequer foi possível organizar um corredor humanitário para salvar vidas civis.
Oleshki fica diretamente na linha de fogo da frente sul da guerra. É separada pelo rio Dnipro da cidade maior de Kherson, capturada pela Rússia no início de 2022 e abandonada mais tarde naquele ano.
As forças russas atacam Kherson a partir da outra margem do rio, em Oleshki, e as forças ucranianas atacam Oleshki a partir de Kherson.
As condições estão entre as piores de toda a Ucrânia. Enxames de drones, minas por toda parte e a infraestrutura destruída tornam extremamente difícil tanto a saída dos moradores quanto a chegada de ajuda.
A Ucrânia afirma que a Rússia é responsável pela crise. Segundo autoridades ucranianas, as forças de Moscou atacaram drones ucranianos que tentavam lançar ajuda, intimidaram moradores que recolheram os suprimentos que conseguiram chegar e confiscaram alimentos quando os estoques de suas próprias tropas começaram a escassear. De acordo com a Ucrânia, a fome está sendo usada como instrumento de coerção.
Em vez de permitir que saiam, a Rússia usa os moradores como escudos humanos, segundo autoridades ucranianas e pessoas que conseguiram deixar Oleshki. Moscou teme que, assim que os civis saírem do caminho, afirmam militares ucranianos, as forças russas restantes sejam derrotadas e percam a cidade.
"A ajuda humanitária não deveria ter de ser entregue sob ataques de drones", disse Andrii Sibiha, ministro das Relações Exteriores da Ucrânia. Ele exigiu que as Nações Unidas e o Comitê Internacional da Cruz Vermelha encontrem uma forma de retirar os civis em segurança.
Em uma declaração ao Times, o Kremlin reconheceu que uma "verdadeira catástrofe humanitária" estava ocorrendo em Oleshki. Mas culpou a Ucrânia.
"As Forças Armadas ucranianas impedem que as pessoas deixem a cidade e usam drones para interromper as entregas de alimentos e água potável", afirmou o porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, na declaração.
Sem nenhuma solução à vista, os moradores que restam —muitos deles idosos— têm pouco ou nenhum acesso a água limpa, atendimento médico, eletricidade, gás ou aquecimento.
A última entrega de alimentos por estrada, segundo Hasanenko, a líder da cidade no exílio, ocorreu em 26 de maio. Essas entregas acabaram, disse ela, depois que vários motoristas foram mortos.
A Ucrânia afirma ter tentado entregar milhares de quilos de suprimentos, incluindo alimentos e medicamentos, por drones. Mas a Rússia interceptou parte dos lançamentos, segundo militares ucranianos.
Neste fim de semana, o comissário de direitos humanos da Ucrânia, Dmitro Lubinets, divulgou imagens que, segundo ele, mostravam moradores tentando deixar Oleshki a pé, de bicicleta e de moto, apesar dos riscos. "Esse é o nosso povo. Eles ainda estão vivos. Ajudem-nos a salvá-los enquanto ainda há alguém para salvar", escreveu.
Os moradores estão perdendo a esperança de sobreviver ao inverno, segundo pessoas que mantiveram contato com eles.
"É simplesmente uma catástrofe humanitária", disse Volodimir Kostian, 49, que conseguiu fugir da cidade no início deste ano. Ele afirmou ter decidido partir depois que seu vizinho foi morto por um drone. "Um apocalipse", disse. "Não há nada para comer."
Imagens de drones e relatos de testemunhas retratam uma cidade turística antes próspera, com mais de 20 mil habitantes, reduzida a um cenário infernal.
Prédios residenciais e casas estão destruídos. Fileiras de carros incendiados por drones explosivos, projéteis e minas foram abandonadas à beira da estrada. Corpos jazem nas ruas, à espera de sepultamento. Cães famintos foram vistos devorando os restos mortais, dizem moradores.
Habitantes de Oleshki e seus parentes entram em contato com Hasanenko para implorar ajuda na retirada deles próprios ou de entes queridos, ou para sepultar os mortos.
"Algumas pessoas gritam e choram histericamente, outras não demonstram emoção, outras nos culpam e perguntam: ‘Por que vocês não fazem acordos com a Cruz Vermelha, por que não nos ajudam?’", disse Hasanenko.
As forças russas capturaram Oleshki em 24 de fevereiro de 2022, o primeiro dia da guerra. Em novembro daquele ano, depois que as tropas ucranianas expulsaram a Rússia da cidade de Kherson, as forças de Moscou atravessaram o rio em retirada até Oleshki. Ali, reforçaram suas posições instalando minas na margem do rio e estabelecendo posições de artilharia e drones para atacar Kherson.
O rio, antes fonte de vida e prosperidade para a região, tornou-se sua nova linha de frente.
Durante anos, os moradores de Oleshki sobreviveram de conservas, colheitas locais e entregas de alimentos organizadas informalmente por pessoas que viajavam até lá para vender mercadorias a preços inflacionados.
Sair da cidade em busca de suprimentos, atendimento médico —ou para fugir— tornou-se mais complicado quando soldados russos começaram a exigir documentos russos nos postos de controle, disseram moradores.
Ainda assim, as entregas continuavam chegando e, embora a comida nunca fosse abundante e os preços fossem altos, as pessoas trocavam legumes, verduras e grãos para se manter vivas, segundo os moradores.
Euro Radar
Uma newsletter sobre geopolítica e economia global, editada pelo jornalista João Caminoto, de Paris
Com o passar do tempo, a saída a pé ou de carro tornou-se mais arriscada. Era impossível saber quem havia instalado as minas ao longo das rotas de saída: as forças ucranianas, para impedir a movimentação de tropas russas; as forças russas, para evitar que os civis partissem; ou ambas. De qualquer forma, os moradores ficaram, em grande medida, presos em Oleshki.
Eles enfrentariam algumas das piores condições da guerra, incluindo uma inundação catastrófica em 2023, após uma explosão em uma barragem próxima.
As tropas ucranianas posicionadas do outro lado do rio observavam enquanto as condições pioravam. Ver civis desesperados procurando comida, disse Mikola Stavitskii, comandante da 34ª Brigada de Fuzileiros Navais da Ucrânia, "é uma tragédia para todos nós".
"É o nosso povo, são ucranianos", acrescentou.
Neste ano, a vida em Oleshki só piorou. Agora, os drones sobrevoam a cidade o tempo todo, tornando qualquer saída à rua uma aposta mortal.
À medida que a primavera avançava, a estrada para fora da cidade ficou ainda mais perigosa, disseram em entrevistas moradores que fugiram antes do verão. Entregas e retiradas eram frequentemente adiadas ou canceladas quando os carros atingiam minas ou eram atacados por drones.
Pouca comida estava chegando, e as conservas estavam acabando. Moradores vasculhavam porões destruídos em busca de restos de comida. Às vezes, viam soldados russos fazendo o mesmo.
A Rússia culpou a Ucrânia pelos ataques na estrada. As tropas ucranianas afirmam tomar amplas precauções para não atingir civis.
Euro Radar
Uma newsletter sobre geopolítica e economia global, editada pelo jornalista João Caminoto, de Paris
No fim da primavera, dois moradores da cidade, Oleksandr e sua esposa, ambos com 60 anos, decidiram que estavam prontos para partir. O casal, que ainda tem parentes vivendo sob ocupação russa, falou sob a condição de que apenas o primeiro nome de Oleksandr fosse usado, para evitar represálias.
O filho deles, que vivia em território controlado pela Ucrânia, ajudou a organizar a mudança. Eles arrumaram três malas, saíram a pé com o gato e o cachorro e encontraram um motorista perto de um hospital da cidade.
A viagem seria perigosa, alertou o motorista. Eles deveriam levar panos brancos e estar preparados para saltar do veículo, embora estivessem debilitados pela fome prolongada.
Oleksandr relembrou: "Fomos avisados imediatamente: ‘Gente, não nos responsabilizamos de forma alguma pela segurança de vocês, porque, durante estes 24 quilômetros, estaremos em algum lugar entre a vida e a morte’."
Quando drones armados mergulharam sobre eles, saltaram do veículo e ergueram seus lenços brancos, contou ele. As armas pairaram sobre o grupo enquanto eles imploravam pela própria vida.
Os drones seguiram adiante.
Semanas depois, amigos do casal morreram quando o veículo em que estavam atingiu uma mina enquanto tentavam levar alimentos à cidade. Foi o fim dos suprimentos por estrada. Quem continuasse em Oleshki teria de sobreviver com a pouca comida que ainda restava.
Este artigo foi publicado originalmente no The New York Times.
KioskNews shows a cleaned-up reading view extracted from the publisher’s page — the original always lives on their site, not ours.