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Friday, September 18, 2026

Queen e Sex Pistols faziam dois shows decisivos na Inglaterra há 50 anos

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Críticos britânicos declararam que ambos os shows representavam o início de uma nova era no rock, mas apenas um deles se mostrou verdadeiramente profético

ANDY GREENE

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Queen e The Sex Pistols em 1976 (Fotos: Keystone Features/Getty Images e Evening Standard/Getty Images)
Queen e The Sex Pistols em 1976 (Fotos: Keystone Features/Getty Images e Evening Standard/Getty Images)

Na segunda metade de 1976, duas cenas de música ao vivo muito diferentes estavam fervilhando exatamente ao mesmo tempo na Inglaterra e nos Estados Unidos. De um lado, astros como Peter Frampton, Yes, Fleetwood Mac, The Who e Rolling Stones vendiam ingressos em uma escala tão astronômica que seus shows estavam migrando para estádios de futebol, grandes áreas ao ar livre e autódromos. Ao mesmo tempo, grupos jovens e emergentes como Ramones e The Clash surgiam em resposta à transformação do rock em um grande negócio, aos egos inflados de suas maiores estrelas e aos excessos do progressivo, apostando no minimalismo e na volta ao básico do punk.

A distância entre esses dois mundos divergentes ficou especialmente evidente em um momento memorável de setembro de 1976, quando o Queen fez um show gratuito no Hyde Park, em Londres, para cerca de 150 mil fãs, apenas dois dias antes de o 100 Club Punk Special reunir 600 pessoas no 100 Club para apresentações de The Damned, Buzzcocks, The Clash, Sex Pistols e uma nova banda que se apresentava sob o nome Siouxsie and the Banshees.

Para a imprensa musical britânica da época, os dois eventos pareciam inaugurar uma nova era do rock há muito aguardada, em um momento particularmente desanimador no qual “I Only Want to Be With You”, do Bay City Rollers, era uma das músicas mais populares da Inglaterra. “Finalmente, os anos 1970 chegaram”, escreveu entusiasmado Harry Doherty, da Melody Maker, em sua crítica do show do Queen. “As reverberações disso serão sentidas pelo restante desta década, espero, livrando-nos de uma vez por todas da apatia que geralmente surge daqueles que viveram os anos 1960 e não estão dispostos a aceitar nada de novo desta geração.”

Caroline Coon, da Melody Maker, teve a mesma sensação ao se aproximar do 100 Club dois dias depois. “A fila de 600 pessoas que, na última segunda-feira, se estendia por dois quarteirões do lado de fora do 100 Club, na Oxford Street, em Londres, esperando o início do Punk Rock Festival, era uma prova incontestável de que uma nova década no rock estava prestes a começar”, escreveu. “Dois jovens de 18 anos de Salisbury estavam na frente da fila. ‘Estava esperando por algo com que pudesse me identificar’, diz Gareth, pulando sem parar. ‘Não houve nada durante anos. Só quero fazer parte disso.’”

Apenas cinco anos antes, fãs do Queen lotavam casas de shows tão pequenas quanto o 100 Club. Mas a popularidade da banda cresceu exponencialmente nesse período graças a “Seven Seas of Rhye”, “Killer Queen”, “Now I’m Here”, “You’re My Best Friend” e, claro, “Bohemian Rhapsody”, que liderou a parada britânica de singles durante nove semanas e ajudou A Night at the Opera a conquistar discos de platina ao redor do mundo.

Eles só teriam um novo álbum pronto no fim de 1976, mas o impulso de “Bohemian Rhapsody” era tão grande que começaram a estudar a possibilidade de realizar o maior show gratuito no Hyde Park desde o dos Rolling Stones, em 1969.

“Acho que nunca houve um show como o que vamos fazer no parque”, disse o guitarrista do Queen, Brian May, à Melody Maker dias antes do concerto. “Não vamos economizar em nada só porque é um show gratuito. Vamos fazer tudo a que temos direito. Espero que tudo se encaixe e seja uma tarde muito agradável e divertida. É uma maneira de dizer obrigado. É uma aventura, abrindo caminho por 15 milhões de quilômetros de burocracia. É bastante hilário.”

Definir a programação do show foi uma aventura à parte. Menos de uma semana antes de os fãs começarem a ocupar o Hyde Park, John Miles e Be Bop Deluxe foram retirados do evento devido a articulações do promotor de shows e chefe da Virgin Records, Richard Branson, que queria colocar no lugar os artistas da Virgin Steve Hillage e Supercharge. “Essa mudança enfraquece consideravelmente a programação e transforma os festivais gratuitos em uma piada”, disse um representante de Miles ao Evening Standard. “Agora está começando a parecer uma ação promocional gratuita para a Virgin Records.”

Kiki Dee, no entanto, permaneceu no evento, embora não tenha conseguido convencer Elton John, seu parceiro no dueto “Don’t Go Breaking My Heart”, a aparecer e tenha precisado cantar ao lado de uma figura de papelão do músico. “Kiki Dee provou que consegue se virar muito bem sem Elton John”, escreveu a Melody Maker, “embora obviamente tenha adotado a mesma postura do estimado EJ em relação às apresentações ao vivo: usar quantos músicos forem necessários para reproduzir no palco o som das gravações, independentemente do desastre financeiro.”

O Queen ainda não havia ampliado sua formação para incluir sequer um tecladista, o que apresentava à banda a difícil tarefa de recriar no palco todos os sons ornamentados de A Night at the Opera. Mas, graças à pirotecnia, ao gelo seco, ao virtuosismo de Brian May, ao carisma de Freddie Mercury e às muitas trocas de figurino do vocalista, o show foi impressionante.

“A música transitou da empolgação selvagem de ‘Ogre Battle’ e ‘Brighton Rock’ para faixas mais suaves, como a comovente ‘You Take My Breath Away’, sem nunca perder o ritmo”, escreveu Doherty. “Duas semanas atrás, questionei a capacidade do Queen de entregar o que se esperava em um show dessa magnitude, e é com enorme prazer que afirmo que eles possuem a rara habilidade de criar tanta atmosfera em campos abertos quanto em teatros aconchegantes. Eles são, como se diz, uma grande pequena banda.”

Essa “grande pequena banda” encerrou o set com “In the Lap of the Gods… Revisited”, mas planejava retornar para um bis com “Now I’m Here”, “Big Spender”, “Jailhouse Rock” e “God Save the Queen”. As autoridades, porém, tinham outros planos.

“As autoridades não nos deixaram voltar e fazer o bis, o que nos deixou muito chateados, porque trabalhamos durante meses e nos preparamos para tudo aquilo”, disse May à Capitol Radio em 1977. “Eles ficaram muito assustados porque havia 150 mil pessoas no Hyde Park no escuro e acharam que a situação poderia sair do controle. Mas, na verdade, não havia nenhum perigo acontecendo. Todo mundo estava tranquilo e se divertindo.”

Isso era um leve exagero, como demonstrava esta manchete do The Sunday Mirror no dia seguinte: “Várias pessoas ficam feridas em show pop em Londres”. “Várias prisões foram realizadas durante show gratuito do grupo pop Queen no Hyde Park”, dizia a breve reportagem, “depois que arruaceiros arremessaram parafusos e latas de bebidas contra uma multidão de 50 mil pessoas. Várias pessoas foram levadas ao hospital.”

Para começar, 50 mil é uma estimativa muito baixa para o tamanho do público. Atualmente, calcula-se que havia entre 150 mil e 200 mil pessoas. Em segundo lugar, a reportagem não explica que os fãs estavam arremessando objetos para a frente porque o palco era absurdamente baixo e muitos deles não conseguiam enxergar absolutamente nada.

“Fui solicitado pela polícia a pedir que vocês não fiquem jogando coisinhas por aí, latas ou seja lá o que for”, disse um Freddie Mercury frustrado ao público no início da noite. “Então façam deste um evento pacífico, certo? Sentem a bunda no chão e escutem.”

Enquanto isso, no 100 Club…

Alguns dias depois, um simples parafuso ou uma lata voando pelo ar mal seriam notados em meio a todo o caos e à desordem. Nenhuma das atrações da programação era minimamente famosa fora da pequena cena punk londrina, mas, olhando para os nomes hoje, é impressionante. Além de Sex Pistols, The Clash, The Damned, Buzzcocks e Siouxsie and the Banshees — cinco das bandas punk britânicas mais icônicas de sua época —, Coon também registra a presença de um grupo de fãs fervorosos dos Sex Pistols conhecido como “Bromley Contingent”.

“Esse grupo inseparável é formado por Steve (21), Bill (22) e Simon (19) — que vende cachorros-quentes em uma barraca móvel durante o dia —, Debbie, de cabelos cor de framboesa, e a própria Suzi”, escreveu. “Eles ouviram os Pistols pela primeira vez em sua escola técnica local, em janeiro, e desde então são seguidores fiéis.”

Ela não fornece sobrenomes, e a idade está errada por alguns anos, mas o “Bill” mencionado quase certamente é Bill Broad, que logo passaria a se apresentar como Billy Idol e formaria o grupo Generation X.

A descrição que ela faz da apresentação de Siouxsie and the Banshees é fascinante, já que, naquele momento, eles ainda não eram exatamente uma banda, a formação era bastante fluida e praticamente não tinham material próprio. “Além de Suzi, só no próprio dia foi decidido quem realmente acabaria tocando no festival”, escreveu Coon. “Steve ‘Two-tone’ (o cabelo dele é preto em cima e branco nas laterais) estava no baixo, instrumento que pegou pela primeira vez na noite anterior. Sid Vicious, amigo de Johnny Rotten e inventor da dança pogo, estava na bateria. Ele teve um ensaio. E um sujeito mais velho chamado Marco era o guitarrista. A oração começa. É uma improvisação selvagem, uma jam pública, uma fantasia de palco bizarra encenada de verdade. O som é o que você esperaria de, bem, novatos.”

Sid Vicious, seis meses antes de estrear como novo baixista dos Sex Pistols, certamente era um novato na bateria. (E não era muito melhor no baixo.) Mas era muito bom em criar confusão e machucar pessoas. Na noite seguinte, enquanto The Damned tocava, ele arremessou um copo que se estilhaçou e cegou uma jovem de um dos olhos. Isso o levou à prisão por um breve período — e estaria longe de ser sua última passagem atrás das grades.

The Clash não tocava em público desde que abriu um show da banda de pub rock Kursaal Flyers no Roundhouse, em 15 de setembro, mas, nesse intervalo, separou-se do guitarrista Keith Levene e escreveu uma nova música chamada “White Riot”, que abriu o set no 100 Club Punk Special. Assim como no Roundhouse, eles apresentaram uma versão inicial de “I’m So Bored With the U.S.A.” intitulada “I’m So Bored With You”. Mas Joe Strummer gritou “USA” em alguns momentos dessa vez, mostrando que, no breve intervalo, eles haviam feito mais do que escrever “White Riot” e demitir Levene.

The Clash é uma excelente e visionária banda de rock, com um estilo selvagem”, escreveu Coon. “Já os vi quatro vezes e eles nunca tocaram o mesmo set. Seu humor e sua espontaneidade não são forçados e, agora que se estabeleceram com a nova formação, serão uma das pedras fundamentais da cena punk rock em desenvolvimento.” (Coon logo faria a foto da capa do single “White Riot”, do Clash, e chegou até mesmo a empresariar a banda por um breve período.)

Os Sex Pistols encerraram a primeira noite com um set feroz que incluiu “Anarchy in the U.K.”, “Pretty Vacant”, “New York” e versões de “No Fun”, dos Stooges; “Substitute”, do The Who; e “I’m Not Your Stepping Stone”, dos compositores dos Monkees Tommy Boyce e Bobby Hart.

“A atmosfera no clube é febril e estridente”, escreveu Coon. “Esta banda é aquilo que todos estavam esperando. Nem todo mundo, porém, está feliz com o crescente sucesso e a notoriedade dos Pistols. A festa particular acabou; a banda agora pertence ao público. Tinha que acontecer. Mas, com sentimentos contraditórios, o núcleo de fãs da banda prende a respiração enquanto seus ídolos começam sua ascensão constante. Será que os homens de negócios vão estragá-los? Essa é a pergunta que causa ansiedade.”

Os Sex Pistols certamente teriam seus problemas com os “homens de negócios”, mas foram realmente prejudicados pela má gestão de Malcolm McLaren, pelos conflitos de personalidade inevitáveis quando John Lydon faz parte da sua banda e pela decisão absurdamente estúpida de demitir o baixista Glen Matlock, peça fundamental da equipe de composição, em favor de Sid Vicious, que não trouxe nada além de caos.

Mas, antes de terminarem no início de 1978, eles lançariam o álbum definitivo da era punk britânica, Never Mind the Bollocks, Here’s the Sex Pistols, e inspirariam inúmeras bandas que surgiriam por toda a Inglaterra e pelo mundo nos anos seguintes. Só o show dos Sex Pistols no 100 Club Punk Special foi presenciado por Paul Weller, do The Jam; Shane MacGowan, do The Pogues; Chrissie Hynde, do Pretenders; Colin Newman, do Wire; e Kevin Haskins e David J, do Bauhaus.

E, dois meses antes, quando os Sex Pistols tocaram no Lesser Free Trade Hall, em Manchester, futuros integrantes de The Smiths, The Fall, Magazine, Simply Red, Buzzcocks e Joy Division/New Order estavam na plateia. Todos eles afirmaram que aquela foi uma experiência decisiva que mudou suas vidas para sempre.

Olhando para trás com o benefício de 50 anos de retrospectiva, a ideia da Melody Maker de que os anos 1970 só “chegaram” em setembro de 1976 não se sustenta muito bem. Pelo menos em termos de rock, eles começaram com Led Zeppelin, Black Sabbath, The Stooges, Elton John e David Bowie no fim dos anos 1960. Mas a revista estava absolutamente certa ao perceber que algo muito novo estava acontecendo. As evidências simplesmente não estavam no show do Queen. Estavam, sem dúvida alguma, no 100 Club.

Isso não diminui o Queen de forma alguma. Eles foram uma força titânica na música, maiores do que qualquer era ou movimento específico, com uma popularidade que superava em muito a da maioria das bandas punk somadas. Mas poucas pessoas saíram daquele show no Hyde Park pensando que poderiam formar seu próprio Queen. Freddie Mercury era um talento único, e nenhum mero mortal poderia sequer sonhar em criar “Bohemian Rhapsody”.

Era muito mais fácil imaginar escrever “White Riot”, “Orgasm Addict” ou “Anarchy in the U.K.” após sair do 100 Club Punk Special. E, quando as pessoas começaram a tentar, uma nova era realmente começou.

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