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Friday, October 30, 2026

Maior destino do lixo plástico da Europa, Turquia quer liderar economia circular na COP31

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Cerca de 730 toneladas de resíduos plásticos chegam ao mar Mediterrâneo todos os dias. A Turquia responde por 19,1% desse total, o equivalente a algo próximo de 140 toneladas diárias, e só fica atrás do Egito entre os mais de 20 países espalhados pela costa.

É nesse cenário que, em novembro, Antália, cidade no litoral sul turco, receberá a COP31, de 9 a 21 de novembro. A algumas centenas de quilômetros dali, na costa de Adana, a praia de Adanalioglu é um retrato emblemático da chegada de pedaços de plástico triturados da Europa.

As usinas de reciclagem da região, que processam resíduos do Reino Unido, da Europa e também o plástico doméstico, são apontadas por especialistas como a origem das partículas poluentes que escapam para canais de irrigação, chegam ao rio Seyhan e contaminam o mar.

O descompasso é difícil de ignorar, porque a Turquia chega à COP31 com uma agenda ambiciosa para liderar a economia circular.

“Nosso objetivo é colocar o desperdício zero e a redução do metano no centro da ação climática”, afirmou o ministro do Meio Ambiente, Murat Kurum.

A iniciativa integra os dez temas prioritários da Agenda de Ação da COP31, que terá um dia dedicado ao tema em 11 de novembro, durante a Cúpula de Líderes.

Para ampliar o alcance internacional da política, um documento apresentado em Istambul propõe a criação dos chamados Distritos Desperdício Zero (Zero Waste Districts), territórios que combinam separação de resíduos na origem, reúso, reparo e compostagem.

A proposta estabelece metas de redução do envio de resíduos a aterros de pelo menos 70% até 2030 e 90% até 2040, com a ambição de alcançar cem países.

A iniciativa se soma à Estratégia Nacional de Economia Circular, lançada pela Turquia em 2025, com mais de 50 ações previstas até 2028 para setores prioritários da economia.

No cenário internacional, o país também busca um compromisso para reduzir pela metade o crescimento do volume global de resíduos até 2035, num mundo que já gera mais de 2,5 bilhões de toneladas por ano.

A aposta na reciclagem tem motivação econômica além da ambiental: reduzir a dependência de recursos importados e fortalecer uma indústria que gera empregos e abastece setores como embalagens, papel e têxteis.

Em entrevista à EXAME, Rodrigo Oliveira, CEO da Green Mining, explica que a estratégia turca não é nova. “Ter grande disponibilidade de matéria-prima secundária alivia a pressão sobre os recursos naturais e fortalece a indústria, inclusive a de recicláveis”, afirma.

Quem paga a conta do lixo europeu?

Um dos desafios é que parte da matéria-prima vem de fora. As importações turcas de resíduos dispararam depois de 2018, quando a China deixou de processar plástico estrangeiro.

Em 2025, a União Europeia enviou 510 mil toneladas de resíduos plásticos à Turquia, tornando o país o principal destino desse material entre os membros da OCDE.

E o fluxo tende a crescer. Em 21 de novembro, a UE passa a proibir a exportação de resíduos para países fora da OCDE. Como a Turquia integra o grupo, deve receber ainda mais.

Em avaliação de setembro, a Comissão Europeia apontou “problemas graves” ligados ao plástico doméstico e ao importado, entre eles poluição marinha, danos à vida selvagem e biodiversidade, queima a céu aberto e descarte irregular.

A Turquia endureceu a regulação, ampliou inspeções e aumentou multas, mas a falta de transparência e de dados ainda compromete o monitoramento. Ainda assim, o órgão concluiu que as exportações para o país devem continuar.

"Se o plástico europeu acaba poluindo os rios, o solo ou as comunidades de outras pessoas, isso não é reciclagem. É terceirização da poluição", criticou o ex-comissário europeu de Meio Ambiente Virginijus Sinkevičius.

De Belém a Antália: a vez da economia circular

Segundo o CEO da Green Mining, ativo nas últimas COPs do Clima, a expectativa é que a economia circular ganhe protagonismo em Antália e converse cada vez mais com a agenda de clima e biodiversidade. 

“Os dados já mostram que a extração e o processamento de materiais respondem por cerca de metade das emissões globais. Para falar de descarbonização, é preciso olhar para essa etapa da cadeia”, afirma Rodrigo.

Segundo o executivo, a agenda de energia sempre dominou o debate porque tem um componente econômico forte em vários setores, enquanto os impactos da cadeia produtiva ficaram em segundo plano. “Mas é uma parte muito representativa do problema e que não pode ser negligenciada.”

Rodrigo vê na COP30, em Belém, o ponto em que a economia circular passou a ser tratada diretamente, e na COP31 a continuidade desse legado, com foco em implementação.

Na avaliação de especialistas ouvidos pela EXAME, a Turquia foca em fazer o que muitos países tiveram dificuldade: conectar compromissos internacionais a uma estratégia concreta de transformação da economia nacional.

Como sede da COP31, o país aproveita a posição de anfitrião para consolidar o que já vem construindo em casa.

“O grande teste é mostrar que o crescimento da indústria da reciclagem consegue acompanhar o crescimento da economia, e que isso acontece com rastreabilidade e transparência, não só em volume", concluiu Rodrigo.

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