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Monday, September 21, 2026

Opinião: A IA economiza o tempo que a liderança consciente exige

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A demora entre receber uma informação e decidir sobre ela sempre pareceu ineficiência pura, um vazio a ser eliminado assim que a tecnologia permitisse. A inteligência artificial finalmente autorizou encurtar essa distância, e em muitos casos eliminar o vazio por completo.

Psicologia cognitiva, direito contratual, mercado financeiro, técnicas de decisão em grupo e psicologia clínica, cada uma à sua maneira, já reconheceram que esse intervalo cumpria função, não era desperdício, a ponto de instituições sérias em cada uma dessas áreas terem criado mecanismos formais para proteger algum tempo de reflexão antes de decisões importantes.

A pausa perdida na era da inteligência artificial

O que interessa agora não é reafirmar que a pausa importa. É o que acontece quando ela some sem aviso.

O primeiro efeito é o acúmulo. Decisões tomadas em sequência rápida, sem o intervalo que antes existia entre uma e outra, empilham antes que qualquer uma delas tenha sido verificada. O tempo de decidir acelerou, o tempo de saber se a decisão foi certa não acompanhou, e a distância entre os dois cresce silenciosamente até que um erro sistemático, presente em várias decisões ao mesmo tempo, apareça tarde demais para ser corrigido individualmente. Ninguém percebe a dívida se acumulando, porque cada decisão isolada parece perfeitamente razoável quando é tomada.

O segundo efeito é mais sutil, e mais perigoso. Daniel Kahneman e Gary Klein mostraram que intuição rápida só merece confiança quando nasce de anos de prática lenta em ambiente estável. A resposta ágil de uma IA imita essa velocidade sem ter percorrido a lentidão que a sustenta, e pior, não sinaliza quando está pisando em terreno instável, onde essa confiança não se justifica. O executivo passa a confiar numa aparência de expertise que nunca foi testada, e a fluência da resposta reforça essa confiança injustificada.

Velocidade, liderança e tomada de decisão

O terceiro efeito aparece exatamente quando mais custa caro, em crise aguda. A psicologia clínica recomenda evitar grandes decisões logo após perda ou trauma, porque o julgamento nesse período está temporariamente distorcido. É tentador: a inteligência artificial está disponível justamente nesses momentos, pronta para responder na hora em que menos se deveria confiar na primeira resposta que aparece.

O quarto efeito é o mais estrutural de todos, e talvez o mais difícil de perceber em si mesmo. Autoconhecimento não é introspecção ocasional, é prática de observação, elaboração e revisão, três movimentos que exigem tempo para acontecer de verdade. Sem esse tempo, a liderança não fica isenta da prática por ser ágil, fica apenas decidindo sem ela, repetidamente, sem perceber a troca que está fazendo.

Nada disso que comentei até aqui recomenda evitar ou banir a inteligência artificial da rotina. Recomenda tratar a velocidade como escolha consciente, não como padrão automático que a tecnologia impõe sozinha. Ninguém mais vai impor essa demora por fora, como a burocracia ou a distância impunham antes. Ela só volta a existir se alguém decidir mantê-la de propósito, uma decisão por vez.

Quanto tempo você ainda dá a si mesmo antes de decidir?

*Ricardo Ramos é ex-diretor do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e especialista em gestão de pessoas. É autor do livro Presença Sob Pressão: liderança e autoconhecimento para decidir sem se perder de si (Editora Brasport).

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