Paralelepípedos: por que cobrir ruas antigas com asfalto pode custar caro para o ambiente e a memória das cidades brasileiras? O que está em jogo hoje
Enquanto muitas cidades brasileiras substituem ruas de paralelepípedo por asfalto em nome da modernização, um debate sobre patrimônio histórico e sustentabilidade ganha espaço. Em Bauru, no interior de São Paulo, essa disputa aparece em vias onde pedras antigas se misturam a remendos de piche. As intervenções, frequentemente realizadas após obras subterrâneas, escondem características históricas do calçamento e comprometem parte de sua capacidade de drenagem.
"A discussão não é exclusiva do município. Em São Paulo, onde existem cerca de cinco mil ruas pavimentadas com paralelepípedos, um projeto de lei que pretendia impedir o asfaltamento dessas vias foi rejeitado pela Câmara Municipal. A proposta surgiu após intervenções controversas da prefeitura, mas acabou derrubada sob o argumento de que o asfalto ofereceria maior segurança viária, uniformidade e melhores condições de mobilidade", explica Lucas Silva Pamio é Mestre em Teoria da Arquitetura e do Urbanismo pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho. Especialista em Planejamento Urbano e Políticas Públicas.
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Pedras antigas também ajudam a enfrentar os desafios ambientais
Além do valor histórico, o paralelepípedo apresenta características importantes para a drenagem urbana. Diferentemente do asfalto convencional, que forma uma superfície praticamente impermeável, o calçamento de pedras permite que parte da água da chuva infiltre no solo pelas juntas entre as peças.
Essa infiltração é estimada entre 10% e 30% da precipitação, dependendo da compactação, da manutenção das juntas e das características da base. Associada à rugosidade das pedras, a permeabilidade reduz a velocidade do escoamento e a sobrecarga sobre os sistemas de microdrenagem.
Em um cenário de preocupação com enchentes e ilhas de calor, essas características reforçam a importância de considerar os pavimentos antigos no planejamento das cidades. A superfície irregular também interfere na circulação: motoristas reduzem a velocidade, ciclistas precisam redobrar a atenção e pedestres percebem de maneira diferente o espaço urbano.
Estudo pode ampliar a proteção do calçamento em Bauru
Enquanto algumas cidades brasileiras substituem seus pavimentos antigos, regiões da Alemanha, França e Portugal mantêm políticas de valorização das ruas de pedra, reconhecendo sua importância histórica e suas características técnicas. Em Bauru, o debate também começa a ganhar espaço institucional. O CODEPAC (Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural) iniciou, neste ano, um estudo para avaliar o tombamento do pavimento da Rua Júlio Prestes.
"A iniciativa reforça a discussão sobre o papel das ruas na preservação da memória coletiva. Mais do que escolher entre pedra e asfalto, o desafio está em conciliar mobilidade, sustentabilidade e história. Afinal, modernizar uma cidade não precisa significar apagar todas as marcas do seu passado", comenta o especialista.
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