'GG EZ' é o novo '67', só que feito por IA e turbinado pelo K-pop
Nenhuma das palavras deste título está na Bíblia. Mas, há um tempo, isso vem ficando cada vez mais raro — e, com a inteligência artificial no meio, a cultura digital está tomando rumos que ninguém, nem os memes mais estranhos de 2020, teria conseguido prever. Bem-vindo ao caso "GG EZ", a canção pop que expõe, melhor do que qualquer paper acadêmico, o que a IA está fazendo com a fábrica de virais da internet.
Para entender por que "GG EZ" é tratado como "o novo 67", vale lembrar o que foi o 67 original. Em 2024, o rapper de Filadélfia Skrilla lançou "Doot Doot (6 7)", com refrão que repete só "seis, sete", sem significado nenhum. O próprio artista admite que "nunca colocou um significado nisso, e nem gostaria".
A frase pegou carona em vídeos de basquete do jogador LaMelo Ball, que mede exatamente 1,98 metro, virou gesto de mão, e explodiu de vez quando um garoto gritou "SIIIX SEVEEEN!" numa quadra em vídeo viral. Em 2025, o Dictionary.com elegeu "67" a palavra do ano, chamando-a de "brainrot" proposital: uma gíria sem definição fixa que "se espalha e conecta pessoas muito antes de alguém concordar sobre o que ela realmente significa". A graça inteira do 67 é justamente não ter graça nenhuma; é a internet testando até onde o nada consegue viralizar.
"GG EZ" segue a mesma receita, mas dá um passo à frente: em vez de nascer de um flagrante espontâneo, foi construída. A música é assinada por M.Sasuke, artista japonês anônimo que nunca mostra o rosto e é aberto sobre usar ferramentas de IA para gerar vocais e instrumental, embora afirme escrever ele mesmo a letra e a direção criativa.
O refrão, "GG fuckin' easy", junta duas gírias de jogo eletrônico: "GG" (good game) e "EZ" (easy), a clássica provocação de quem venceu a partida sem esforço. Mas até aqui sem novidades: cantoras inteiramente criadas por IA, como Xania Monet, já viram sensação nas paradas musicais, e mesmo bandas inteiras, como a Velvet Sundown, já acumularam centenas de milhares de ouvintes no Spotify sem que ninguém soubesse que a banda não existia de verdade.
M.Sasuke testou o teaser no TikTok em 21 de maio de 2026, lançou a faixa completa seis dias depois, e em junho a coisa saiu do controle: ídolos de K-pop de verdade — ENHYPEN, ILLIT e, principalmente, Jungkook, do BTS — começaram a postar coreografias com o som. A versão do Jungkook sozinha passou de 91,6 milhões de visualizações.
A música chegou a 16 milhões de streams no Spotify e ao topo das paradas de R&B/Soul do iTunes na Indonésia e em Singapura. O som virou trend em mais de 149 mil vídeos no TikTok.
Antes da revolta chegar, cabe uma curiosidade que a maioria dos fãs nem percebeu: em agosto, dois artistas humanos, Kaien Nuen, influenciador-músico poliglota, e a influenciadora e cosplayer Sugar, pediram autorização a M.Sasuke e regravaram a faixa com as próprias vozes para o clipe oficial.
Muita gente já suspeitava que era IA. O problema foi a ausência de qualquer aviso: a música circulou por meses sem rótulo de "gerado por IA" em nenhuma plataforma, e ídolos reais dançaram para ela, achando (ou fingindo achar) que era música normal.
A revolta pegou o vácuo entre "usar IA" e "não avisar que usou", a mesma zona cinzenta que já rendeu confusão por aqui, como no caso de "Sina de Ofélia", versão em português feita por IA a partir de uma música de Taylor Swift, que colocou nas vozes de Luísa Sonza e Dilsinho uma canção que nenhum dos dois gravou.
"GG EZ" é o 67 evoluído: a mesma fórmula de gíria + dança fácil + repetição obsessiva, só que agora produzida por um algoritmo, distribuída como se fosse artista humano, e validada por gente famosa de verdade antes mesmo de o público saber que estava dançando para uma máquina.
Se o 67 provou que a internet consegue fazer qualquer coisa viralizar, "GG EZ" prova a próxima etapa: a fábrica do nada agora tem produção em série, e ninguém, nem o Jungkook, percebe a diferença.
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