Após ameaçar Omã, Donald Trump quer transformar Estreito de Ormuz em território norte-americano
Com o fim do prazo de 60 dias previsto no memorando, que ruiu poucos dias após sua assinatura, Washington dobra a aposta contra o Irã e amplia a pressão sobre seus aliados árabes.
Patrícia Vasconcellos, Correspondente da RFI em Washington
Depois de ameaçar Omã, aliado histórico dos Estados Unidos no Oriente Médio, o presidente Donald Trump elevou ainda mais o tom e disse que gosta da ideia de transformar o Estreito de Ormuz em "território norte-americano". As declarações acontecem depois do fim dos 60 dias previstos no memorando assinado entre Estados Unidos e Irã, um prazo que, na prática, funciona apenas como marco temporal, já que o cessar-fogo estabelecido pelo documento ruiu poucos dias depois de entrar em vigor.
Com a guerra próxima de completar seis meses, Washington amplia a pressão econômica e militar sobre Teerã e endurece o discurso contra países árabes que tentam negociar saídas para a crise. No centro da disputa está o Estreito de Ormuz, rota estratégica por onde normalmente transita cerca de 20% do petróleo negociado no mundo.
Em uma sequência de perguntas e respostas no Salão Oval na tarde de segunda-feira (16), Trump voltou a afirmar que os Estados Unidos controlam o estreito por causa do bloqueio marítimo imposto na região ? uma afirmação contestada pelo Irã e que contrasta com a redução do tráfego marítimo. O presidente foi além ao defender a possibilidade de domínio territorial americano sobre a passagem.
"Nós o controlamos com o bloqueio, e gosto da ideia de declará-lo um território", afirmou Trump.
O presidente dos Estados Unidos também minimizou a capacidade de reação iraniana. "Eles podem ser um incômodo", disse sobre o Irã. Em seguida, acrescentou que os iranianos poderiam colocar minas na água e atingir "navios de um bilhão de dólares".
Apesar do discurso de controle da Casa Branca, o movimento de embarcações pelo Estreito de Ormuz continua diminuindo. Segundo o MarineTraffic, serviço global de rastreamento de embarcações, foram confirmadas 95 travessias na semana passada, contra 118 na semana anterior.
Pressão sobre Omã
O endurecimento de Washington não se limita ao Irã. Donald Trump voltou a falar sobre Omã, país aliado dos Estados Unidos que há décadas desempenha papel de mediador entre Washington e Teerã. Questionado sobre a ameaça anterior de bombardear Omã, o republicano respondeu apenas que a questão "vai ser resolvida". Antes, em entrevista a uma emissora norte-americana, o presidente havia usado um palavrão ao ameaçar bombardear o país caso os omanitas não agissem da maneira considerada correta por Washington.
A ameaça ocorre enquanto Omã e Irã trabalham em uma negociação para abrir novas rotas de navegação diante do impasse no Estreito de Ormuz. A posição de Omã é particularmente delicada. O país mantém uma relação estratégica com os Estados Unidos, mas, ao mesmo tempo, preserva canais históricos de comunicação com Teerã. Essa condição permitiu aos omanitas atuarem durante décadas como intermediários em momentos de tensão entre americanos e iranianos.
A ameaça de Trump, portanto, revela uma dimensão mais ampla da atual estratégia americana: Washington aumenta a pressão sobre o Irã e, ao mesmo tempo, tenta limitar a margem de atuação de aliados árabes que buscam negociar diretamente com Teerã.
Memorando já havia ruído
O fim do prazo de 60 dias previsto no memorando entre Estados Unidos e Irã não representa o vencimento de um cessar-fogo ainda em vigor. O documento, assinado em junho, previa uma trégua e uma janela de dois meses para negociações. O cessar-fogo, porém, foi rompido poucos dias depois. Os Estados Unidos acusaram o Irã de disparar mísseis e drones, dando início a uma nova sequência de ataques e contra-ataques. Israel também permanece nesse tabuleiro militar com o enfrentamento contra o Hezbollah no Líbano, acompanhado de perto por Teerã.
Os 60 dias servem agora principalmente para medir o que aconteceu desde aquela tentativa diplomática e o cenário é praticamente o oposto do pretendido pelo memorando: a guerra continua, não existe acordo permanente, o tráfego pelo Estreito de Ormuz permanece comprometido e Washington intensifica a pressão econômica sobre Teerã.
Donald Trump afirmou não estar preocupado com o fim do prazo. Disse que não trabalha com um cronograma e que "não tem pressa" para chegar a um acordo permanente com o Irã. O presidente norte americano também afirma que seu governo mantém um canal reservado de comunicação com autoridades iranianas. Teerã, porém, contesta a versão de Washington sobre contatos diretos com integrantes da Guarda Revolucionária. As versões contraditórias sobre a existência e o alcance dessas conversas tem se repetido ao longo do conflito.
Teerã não dá sinais públicos de recuo
Do lado iraniano, não há até agora sinais evidentes de que o governo esteja disposto a ceder. O comandante-chefe do Exército iraniano, Amir Hatami, classificou o Estreito de Ormuz como "um ativo geopolítico concedido por Deus à nação iraniana" e afirmou que o país protegerá essa capacidade "com todo o poder". A estratégia de Teerã é resistir à pressão militar e econômica dos Estados Unidos e preservar sua capacidade de interferir no tráfego marítimo. O controle da navegação é uma das principais formas de pressão iraniana e continua sendo um desafio para o Pentágono e para a Casa Branca.
A vulnerabilidade iraniana está na economia. A inflação anual no país chegou a 66% em julho, segundo o Centro de Estatísticas do Irã. Trump voltou a explorar o tema ao afirmar que o Irã enfrenta um problema econômico grave e chegou a citar uma inflação de 300% ? número muito superior ao dado oficial iraniano. Autoridades de Teerã também demonstram preocupação com a deterioração da economia e com a possibilidade de novos protestos internos. A aposta de Washington é que o bloqueio e o agravamento das condições econômicas acabem obrigando o governo iraniano a fazer concessões.
Petróleo e gasolina pressionam Washington
A disputa no Estreito de Ormuz também tem consequências para o mercado internacional de energia e para o consumidor americano. O petróleo Brent subiu 2,58%, chegando a US$ 91,10 o barril. Nos Estados Unidos, a gasolina custa em média US$ 4,06 por galão, segundo a Associação Americana de Automóveis. O valor é cerca de 93 centavos superior ao registrado no mesmo período do ano passado. Donald Trump reconhece o impacto econômico da guerra, mas argumenta que o aumento dos combustíveis é consequência de um objetivo maior. O presidente disse que, se os americanos tiverem de pagar "um pouquinho a mais" pela gasolina, devem lembrar que o esforço tem como objetivo impedir que o Irã desenvolva uma arma nuclear. A frase resume um argumento repetido pela Casa Branca desde os primeiros ataques contra Teerã, no fim de fevereiro: a meta declarada por Washington é impedir que o Irã obtenha armas nucleares.
Faltam menos de três meses para as midterms, as eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, e pesquisas recentes apontam insatisfação com a inflação e com a condução da guerra. O conflito transforma-se, assim, em uma disputa de resistência. Washington aposta que o bloqueio e a deterioração da economia farão o Irã ceder. Teerã tenta resistir tempo suficiente para que a alta do petróleo, da gasolina e o desgaste provocado pela guerra aumentem a pressão política sobre Donald Trump antes das eleições.
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