O senhor Abdulai

O vendedor de pulseiras aproxima-se de mim, à beira-mar, hello my sister. Tira do bolso duas pulseiras especiais, compro uma, ofereço-lhe um cigarro. Pergunto-lhe como se chama: Abdulai. Vive em Sacavém. Até chegar ali, apanha dois comboios e um autocarro. Passa os dias a percorrer as praias, para trás e para diante, carregado com a mercadoria, sob o sol. À hora em que nos encontramos, o senhor Abdulai está cansado e aproveita para sentar-se e olhar o mar. Pergunto como corre o negócio, pas terrible. Tiramos uma fotografia, ele quer saber se a vou pôr no Facebook: digo-lhe que não tenho Facebook.
Trocamos mais algumas palavras em Inglês, outras em Francês, outras em Português, sobre o tempo, sobre o cansaço, sobre África.
E depois ficamos a fumar em silêncio alguns minutos, até que o meu amigo aponta para uma tenda montada na areia, diante de um barco, a quinze metros da água.
Olhamos discretamente. Uma senhora com idade para ser minha mãe sai da tenda no instante em que olhamos, e penteia-se com os pés na areia. O senhor Abdulai olha-a fixamente. Diz-me, em Português: tenho visto. Não tem dinheiro para uma casa. Vive aqui na praia com o filho.
Já tinha reparado na tenda na praia várias vezes. É a casa de uma família portuguesa. O senhor Abdulai, como eu, mostra-se muito impressionado e condoído: são grandes problemas, diz-me. Grandes problemas, repito. E fumamos os dois.
A família dorme à beira-mar, escutando as vagas através da noite. Será que o som e o perfume do mar os acalma ou aflige? Como será nos dias de ventania, ou quando um desconhecido se aproxima? Onde tomará banho? Onde guardará os alimentos? Como lavará a roupa?
Dou comigo a olhar a pulseira que Abdulai me vendeu, enquanto termino o cigarro, pensando nele, ainda à minha frente. É um senhor que veio de África, como me disse, fez todo o caminho do Senegal até esta praia no Ocidente, o seu trabalho é vender marroquinaria sob o sol de Agosto, caminhando quilómetros, dorme sabe Deus onde, em Sacavém, apanhou dois comboios e um autocarro até chegar à nossa conversa, e apanhá-los-á novamente para regressar a casa. Amanhã, estará de volta e regressará, fará o mesmo todos os dias da semana.
Guarda ainda em si o sentido da compaixão para com a família que dorme na praia. Sabe dizer em Português, grandes problemas — problemas maiores do que o seu.
Logo depois despedimo-nos, merci bien, a bientôt, embora saiba que vamos rever-nos: costumo ver o senhor Abdulai por ali, onde vou com frequência. Levo comigo o reconhecimento da sua dignidade.
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