Sonhar para sempre

Acabada de acordar, ocorre-me um homem preso no seu sonho, armadilha de que não consegue sair. E não sei dizer se ele sou eu, se acordei mesmo e estou diante da cama de pé, ou ainda deitada a dormir. É sempre assim quando começam os livros, não sei se é ele, se são eles, se é ela, se sou eu, acordo e sento-me diante das teclas, quem era o homem, que não cheguei a ver, qual era o sonho, que não era mau, seria o sonho que sonhei, o sonho do homem preso no sonho, ou o homem sonhava outra coisa de que me esqueci?
E então essa ideia, ficar presa para sempre num sonho, sabendo que estava a sonhar e que havia uma vida do outro lado, sem conseguir acordar, sem ser capaz de chegar-lhe, sem poder abrir os olhos, essa condenação — sonhar para sempre — lembrou-me uma biblioteca.
Os livros dos outros talvez sejam esse sonho de que não se consegue acordar. E, a certa altura, também aqueles que escrevo me atraiçoam.
Leio de perto os meus parágrafos em contínuo. As palavras dançam diante dos meus olhos. Coso-as umas às outras, saltando frases, descobrindo sentidos que não previ e me espantam. É como encontrar caras na rugosidade das pedras, compor cenas e rostos na superfície das coisas à nossa volta.
Escrevo: “Empacoto, medito, cozinho”, falando no quotidiano de alguém. E logo, regressando ao que escrevi, entendo que escrevi uma obscenidade. À medida que os meses decorrem, cada conjunto de frases é uma armadilha engraçada. Presa do que escrevi, o romance mais grave torna-se diante dos meus olhos um livro pornográfico.
Corrijo, tentando ter mão no que fiz. Não sei se é por intimidade ou por jeito para os trocadilhos, mas quanto mais limpo, mais descubro novas afinidades imprevistas. E então rio-me, divirto-me, rendo-me. Rapidamente entendo que ter mão no que fiz é deixar ir a mão, perdê-la. Alguns leitores lerão a vida de um homem sério, outros rirão da primeira à última página: e então escrevo para esses, escrevo à solta, sabendo que não sei nem domino o que é um livro, sabendo que um livro é mais parecido com um sonho do que com uma pedra, mais uma piada do que um discurso.
O meu gozo está em saber que tenho a ocupação mais divertida do mundo. Estou como o homem preso no sonho, talvez nem ele queira acordar. Se o sonho for bom, mais vale ficar a dormir. Quem é que nos pode fazer mal dentro de um sonho?
Um sonho infinito como uma piada infinita, talvez seja a melhor definição de romance a que já cheguei, e nem sequer é original. Mas foi preciso sonhar a ponto de a entender, foi preciso escrever por mim para deixar de a dominar: há coisas que só se aprendem passando por elas, vivendo-as. E é aí que aprendemos com os outros, aqueles que nos ensinaram a aprender por nós.
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