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Tuesday, November 3, 2026

Com parque eólico de R$ 5 bilhões no Piauí, Vestas quer formar mão de obra local

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Depois de quase três anos de baixa na contratação de novos projetos eólicos no Brasil, a fabricante dinamarquesa Vestas voltou a anunciar empreendimentos de grande porte no país.

A retomada dos negócios, no entanto, trouxe um desafio que vai além da instalação de turbinas: encontrar profissionais qualificados para trabalhar em regiões afastadas dos principais centros urbanos.

É nesse contexto que a companhia anunciou, em parceria com o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI), a abertura de 70 vagas gratuitas para um curso técnico em Eletromecânica, com ênfase em Energia Eólica, no município de Dom Inocêncio, no sertão do Piauí.

A iniciativa acompanha a implantação de um parque eólico da Casa dos Ventos, que prevê investimento de R$ 5 bilhões e capacidade instalada de 828 megawatts (MW). O empreendimento está em fase de construção, e a Vestas deve iniciar em novembro o transporte dos componentes de grande porte e a instalação das turbinas, trabalho previsto para durar de 16 a 18 meses.

A decisão de investir na qualificação profissional, porém, começou antes da retomada dos contratos. Em julho de 2024, quando o mercado brasileiro ainda enfrentava um período de desaceleração, a Vestas firmou uma parceria nacional com o SENAI para desenvolver cursos técnicos em municípios próximos aos parques onde atua.

"Um dos grandes desafios do setor eólico é ter profissionais qualificados. Evoluímos muito, mas nem sempre essas pessoas estão próximas dos novos parques", afirma Luciana Leite, estrategista de Marketing, Comunicação e ESG da Vestas na América Latina, em entrevista à EXAME.

Segundo a executiva, a distância entre os empreendimentos e os centros de formação profissional pode dificultar a contratação de trabalhadores e aumentar a dependência de mão de obra de outras regiões.

Em Dom Inocêncio, localizado a cerca de 700 quilômetros de Teresina, essa dificuldade ganha outra dimensão. O município tem entre 7 mil e 9 mil habitantes, segundo a estimativa apresentada pela executiva, e grande parte da população vive em comunidades rurais, onde as oportunidades de emprego e qualificação são mais limitadas.

"Se estou indo para uma localidade a 700 quilômetros de Teresina, de onde vou trazer esses profissionais? Existem pessoas qualificadas em outras regiões, mas como conseguir atraí-las? Como assegurar que consigo formar alguém próximo ao parque e gerar oportunidades para quem já vive ali?", questiona Luciana.

A proposta é aproximar a formação técnica das necessidades da indústria e permitir que parte dos postos de trabalho gerados pela expansão eólica seja ocupada por moradores das regiões onde os empreendimentos são instalados.

Expansão da energia eólica muda dinâmica econômica

A chegada do parque eólico da Casa dos Ventos já começa a alterar a dinâmica de Dom Inocêncio, segundo a Vestas.

A etapa de construção das fundações das turbinas foi conduzida pela Casa dos Ventos. A partir de novembro, a fabricante iniciará o transporte dos componentes e a instalação dos equipamentos.

Durante uma visita recente ao município, Luciana afirma ter observado o aumento da circulação de trabalhadores e o surgimento de estruturas para atender às atividades relacionadas ao empreendimento.

"Você olha e parece que tem um bairro em construção. Em dois ou três meses, a chegada de um parque já começa a mobilizar a economia local", relata.

O movimento acompanha uma característica da instalação de grandes empreendimentos de infraestrutura: a concentração de atividades econômicas durante a construção, com demanda por trabalhadores, transporte, alimentação e outros serviços.

O desafio está em transformar essa movimentação inicial em oportunidades que ultrapassem o período de obras.

Para Luciana, a formação de trabalhadores da própria região é uma das formas de conectar a chegada dos investimentos à economia local, especialmente em municípios onde a ausência de universidades e centros de qualificação leva parte dos jovens a buscar oportunidades fora.

"Hoje, muitas pessoas saem porque não encontram opções locais. Quem quer estudar também precisa sair. Quando conseguimos levar uma formação técnica para perto dessas comunidades, ampliamos as possibilidades de carreira", afirma.

A executiva ressalta que a criação de empregos na construção é apenas uma etapa da cadeia eólica. Depois da instalação das turbinas, os empreendimentos passam a demandar profissionais para atividades de operação e manutenção, essenciais para assegurar a continuidade da geração de energia.

Essa necessidade também explica a estratégia da Vestas de investir em capacitação antes da conclusão das obras.

Parceria com o SENAI começou durante desaceleração do setor

O programa de formação profissional surgiu em um momento de dificuldades para o mercado eólico brasileiro.

Em março de 2023, a Vestas anunciou um contrato de grande porte com a Casa dos Ventos, relacionado aos projetos Serra do Tigre e Babilônia. Segundo Luciana, depois desse acordo a companhia passou um longo período sem anunciar novos contratos expressivos no Brasil.

A desaceleração ocorreu em meio a desafios regulatórios e operacionais enfrentados pelo setor, incluindo o curtailment, termo em inglês utilizado para descrever a redução ou interrupção da geração de energia por determinações relacionadas às limitações do sistema elétrico.

"O curtailment ainda impacta muito o setor. Passamos por um período de quase três anos sem novos contratos, mas continuamos trabalhando com os clientes para entender as necessidades deles e avaliar como poderíamos apoiar as decisões de investimento", explica Luciana.

Durante esse intervalo, a Vestas concentrou esforços em três frentes: relacionamento e apoio técnico aos clientes, desenvolvimento de novos projetos eólicos e operação e manutenção dos parques existentes.

Na área de desenvolvimento, a companhia trabalha com estudos de vento, análises geológicas e processos de licenciamento, preparando empreendimentos que posteriormente podem ser negociados com investidores.

Foi o caso do projeto Esquina do Vento, desenvolvido pela Vestas e vendido à Rio Energy, que também adquiriu turbinas da fabricante.

Com os anúncios de Dom Inocêncio e Esquina do Vento, a empresa voltou a superar a marca de 1 gigawatt (GW) em novos projetos contratados em um intervalo de aproximadamente 100 dias.

A retomada reforçou uma preocupação que já estava presente na estratégia da companhia: a disponibilidade de profissionais para acompanhar a expansão da infraestrutura.

"A gente sabia que os projetos novos voltariam. Precisávamos assegurar que haveria profissionais qualificados quando esse momento chegasse", afirma a executiva.

A Vestas também manteve sua atuação no segmento de serviços durante a desaceleração. No Brasil, a empresa informa ter mais de 12 GW em atividades de operação e manutenção.

Para a companhia, a disponibilidade de técnicos especializados não é apenas uma questão relacionada à construção dos parques, mas também ao desempenho dos empreendimentos ao longo dos anos.

"Construir o parque é importante, mas é só o começo. Depois, é preciso garantir que ele funcione, que tenha continuidade na operação e que o investimento realizado consiga trazer o retorno esperado", diz Luciana.

Curso terá 70 vagas e prioridade para mulheres

Em Dom Inocêncio, o curso técnico em Eletromecânica terá duração de 1.600 horas, com início previsto para 15 de fevereiro de 2027.

As vagas serão divididas em duas turmas: 30 para o período da tarde e 40 para o noturno. Em ambos os turnos, metade das oportunidades será preferencialmente destinada a mulheres que cumpram os requisitos do processo seletivo.

A medida faz parte da estratégia da Vestas para ampliar a participação feminina na formação técnica e no setor eólico.

A capacitação foi desenvolvida em conjunto com o SENAI e a Vestas Academy, área da fabricante responsável pela formação de profissionais para a indústria.

Além dos conhecimentos em Eletromecânica, os alunos terão acesso a conteúdos específicos relacionados ao setor eólico, incluindo treinamentos de segurança e trabalho em altura.

Segundo Luciana, a proposta foi estruturada para que os participantes possam buscar oportunidades em diferentes segmentos industriais, sem depender exclusivamente da contratação pela Vestas.

"É um curso de Eletromecânica que habilita o profissional para atuar em qualquer área da indústria. Ao mesmo tempo, ele terá conhecimentos específicos da energia eólica e treinamentos que, muitas vezes, os trabalhadores só recebem depois de contratados", explica.

A executiva reconhece que nem todos os participantes necessariamente seguirão carreira na indústria eólica.

"Todos vão para a eólica? Não sabemos. Mas estarão preparados para assumir desafios em diferentes áreas", afirma.

A iniciativa é a terceira edição da parceria nacional entre a Vestas e o SENAI, firmada em julho de 2024.

A primeira turma foi realizada em Lagoa Nova, no Rio Grande do Norte, e concluiu a formação em setembro de 2026. Segundo a companhia, sete participantes já foram contratados pela Vestas.

A segunda edição está em andamento em Ourolândia, na Bahia.

Embora o programa tenha registrado contratações, a empresa não informou quantos alunos concluíram a primeira turma nem a proporção de participantes que conseguiram emprego após a formação, o que limita a avaliação dos resultados em empregabilidade.

Para a Vestas, a ampliação das turmas acompanha uma estratégia de longo prazo, que combina o desenvolvimento de talentos com a necessidade de mão de obra especializada nas regiões onde a companhia atua.

Educação básica também entra na estratégia social

A qualificação profissional não é a única frente de atuação social da fabricante em Dom Inocêncio.

A Vestas também inaugurou duas bibliotecas revitalizadas em escolas públicas do município por meio do projeto Ventos do Saber, criado em 2019 para ampliar o acesso à leitura e a recursos educacionais em cidades do Nordeste.

Os espaços receberam novos acervos literários, computadores, tablets com acesso a bibliotecas digitais, televisores e mobiliário. O programa também prevê formação e consultoria para professores e gestores escolares.

A iniciativa está inserida em uma estratégia ESG que a companhia afirma organizar em torno de quatro frentes: empregabilidade, desenvolvimento de talentos, empreendedorismo local e conscientização sobre a transição energética.

Para Luciana, a combinação de projetos de educação básica com a formação técnica busca ampliar as oportunidades de desenvolvimento em diferentes etapas da vida dos moradores.

"Quando você leva uma biblioteca com tablets e computadores para uma comunidade onde muitas crianças não têm esses equipamentos em casa, também cria oportunidades de aprendizado que antes não estavam disponíveis", afirma.

A companhia não apresentou indicadores específicos sobre os resultados educacionais das duas bibliotecas instaladas no município.

A expansão dessas iniciativas ocorre enquanto o setor eólico busca superar os entraves que dificultaram novos investimentos nos últimos anos.

Segundo Luciana, o crescimento da demanda por eletricidade associado à instalação de centros de dados, ao avanço da inteligência artificial e à eletrificação pode abrir novas oportunidades para a geração renovável no país. Ao mesmo tempo, restrições operacionais e desafios regulatórios continuam afetando as decisões de investimento.

Nesse cenário, a Vestas pretende manter a formação de profissionais como uma das frentes de sua atuação, tanto para atender à demanda dos novos empreendimentos quanto para fortalecer as equipes responsáveis pela operação dos parques existentes.

Como se inscrever no curso de energia eólica no Piauí

As inscrições para o curso técnico em Eletromecânica, com ênfase em Energia Eólica, estão abertas até 13 de novembro de 2026 e são gratuitas.

Para a turma da tarde, os candidatos devem ter entre 18 e 21 anos. No período noturno, a idade mínima é de 18 anos, sem limite máximo.

Em ambos os casos, é necessário ter concluído o Ensino Médio ou estar cursando a segunda ou a terceira série, além de atender aos demais requisitos do edital.

As inscrições podem ser feitas pelo portal do SENAI-PI ou presencialmente entre 11 e 13 de novembro, na Sala do Empreendedor, na Rua Facheiro, no Centro de Dom Inocêncio. O atendimento presencial será realizado das 7h30 às 11h30 e das 13h30 às 17h30.

O processo seletivo inclui prova escrita, marcada para 29 de novembro, e entrevista comportamental. A lista final de aprovados está prevista para 16 de dezembro.As aulas serão ministradas na Rua Aroeira, sem número, no Centro de Dom Inocêncio, em um espaço cedido pela prefeitura municipal. Dúvidas podem ser encaminhadas ao e-mail secretaria@senai-pi.com.br.

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