Eleitores indecisos acompanhados pela Folha definem voto sem superar insatisfação com opções
Os eleitores que a Folha acompanha desde março, quando estavam indecisos sobre o voto para presidente, chegam ao segundo turno com uma preferência definida, mas não necessariamente satisfeitos com as opções. Dificuldades no trabalho, programas sociais e falta de serviços públicos pesaram nas escolhas, assim como a rejeição ao PT ou ao bolsonarismo.
O grupo reúne dez pessoas de diferentes ocupações e trajetórias políticas em seis estados. Ao longo dos sete meses de conversas, parte delas mudou de preferência, enquanto outras apostaram em nomes que ficaram pelo caminho. A série registra essas experiências individuais, sem representatividade estatística.
O agricultor José Marques, de Bocaiuva (369 km de Belo Horizonte), esperava uma nova liderança e votou em Ronaldo Caiado no primeiro turno. No segundo, escolheu Lula: não sente segurança em Flávio e leva em conta a situação das famílias pobres da região onde vive.
"Eu moro numa região de gente muito pobre, sabe, queira ou não, aí não foge disso", afirma. Ele vê no presidente maior garantia de manutenção dos auxílios. "E quem pode garantir, pelo menos até agora, é o Lula. Pra muita gente é questão de sobrevivência, não é questão de luxo, de vaidade, não, sabe?"
A falta de serviços públicos também preocupa o cacique Baré Rui Leno Macedo de Moraes, de Barcelos (405 km de Manaus), mas ele fez a escolha oposta. Votou em Flávio e pretende repetir, por ver no senador propostas de renovação e redução de impostos.
Rui contesta a ideia de que ser indígena signifique apoiar o PT. Para ele, a defesa ambiental precisa vir acompanhada de serviços às comunidades, "que estão abandonadas".
O cacique se diz de direita e não bolsonarista, "só que o bolsonarismo hoje é que nem o Flamengo, é a maior torcida que tem".
O empresário Renato Lucas da Silva, fabricante de embalagens em São José dos Campos (86 km de São Paulo), diz que manter o negócio exige pagar salários e impostos. Critica promessas de perdão de dívidas: "Eu não quero dinheiro emprestado, eu quero, como já disse aqui, comprar e vender e receber direitinho."
Em setembro, Renato escolheria Lula contra Flávio. Votou em Renan Santos no primeiro turno e agora opta pelo senador do PL para alternar o poder, embora desconfie dele. "Eu acredito muito pouco no Flávio Bolsonaro. E acredito muito menos no Lula". Sobre o debate da Band, disse que "foi simplesmente, desculpa o vocabulário, um lixo".
A auxiliar de cozinha Ednilza Jacinto de Oliveira, a Nilza, de Peruíbe (141 km de São Paulo), pretendia votar em Augusto Cury, mas anotou só o nome, sem o número. Na fila, uma conhecida da igreja repetia "22, 22, 22" e chamava Flávio de "candidato da família". Foi o número que ficou na memória.
"Eu só lembrava desse número na minha cabeça", contou. Agora, pretende repetir a escolha.
Beneficiária do Bolsa Família, ela relatou dificuldade de conseguir emprego fixo e defendeu a qualificação profissional. Apesar do voto, não gostou de como Flávio Bolsonaro se portou em uma entrevista. "Ele enrola muito, desconversa, não responde o que é para responder. Então achei que, sabe, não vi nada de diferente não, assim. Eu não tô satisfeita."
A líder de atendimento Magali Barros, de São Paulo, também mudou a avaliação que tinha sobre Flávio. Em março, simpatizava com Jair Bolsonaro, mas rejeitava o filho. Na campanha, passou a ver no senador uma opção mais viável do que Caiado contra o PT.
Votou nele no primeiro turno e pretende repetir. "Sou anti-PT e meu voto continua sendo no 22", afirma. Ainda assim, critica os discursos que procuram conquistar eleitores pelo medo e acompanha com preocupação o debate sobre o fim da escala 6x1.
A insatisfação também aparece entre os que preferem Lula. O professor aposentado Almir Barros Costa, de Salvador, cobra melhorias na educação e considera que o petista perdeu disposição para governar. "Ele tá sem gana, sem vontade, porque tudo que ele queria conseguir, acho que ele já conseguiu, né?".
Mesmo assim, torce pela reeleição, sobretudo pela avaliação negativa que faz de Flávio. "Ele não mostra ideias, nada, ele não tem nada, ele só fica baseado no pai dele."
A psicóloga Agda Abreu, de Senhor do Bonfim (375 km de Salvador), votou em Lula no primeiro turno e manterá a escolha, apesar de críticas ao governo. Identificada com a esquerda, diz não enxergar uma alternativa aceitável à direita.
O agrimensor Nissen Cabral Jr., de Dourados (214 km de Campo Grande), também decidiu votar no presidente. Entre os aspectos que pesam para ele estão a defesa dos direitos humanos, a preservação ambiental e a soberania nacional. Nissen diz que a campanha não lhe agradou e critica o ambiente de polarização: "Festa cívica civilizada respeita o direito da escolha isenta do medo".
O contraste entre preferência e rejeição aparece também no Datafolha deste sábado (24). Entre os que escolheram um finalista, 74% o consideram o melhor candidato e 16% votam principalmente para derrotar o adversário.
Rejeitam Lula 46% e Flávio 45%. O instituto aponta empate técnico: Flávio tem 51% dos votos válidos, ante 49% de Lula. Foram 4.050 entrevistas em 124 municípios, nos dias 23 e 24, com margem de erro de dois pontos percentuais para mais ou para menos.
Nem todos irão às urnas
A supervisora comercial Sandra Roque, de São Paulo, votou em Flávio no primeiro turno e manteria a escolha, mas estará viajando no domingo (25) e não pretende votar. Ao longo do acompanhamento, chegou a cogitar o voto nulo, decepcionada com as candidaturas.
O cartunista André Guedes, do Rio de Janeiro, também não participará da votação, por outro motivo. Na véspera do primeiro turno, descobriu que o título eleitoral estava cancelado e não conseguiu votar em Renan Santos, como pretendia. Para o segundo, diz que anularia o voto, embora continue impedido de registrá-lo.
"Eu pensei muito durante a campanha, mudei de ideia várias vezes, mas eu vou de nulo mesmo", escreveu. André afirma que, em outras circunstâncias, votaria em Flávio por defender a alternância de poder, mas que "não existe a menor condição de endossar esse projeto". Tampouco consegue, diz ele, apoiar a continuidade do PT.
KioskNews shows a cleaned-up reading view extracted from the publisher’s page — the original always lives on their site, not ours.