Crise no STF reativa 'guerra espiritual' em redes evangélicas bolsonaristas

Em contraposição a Mendonça, o ministro Alexandre de Moraes passou a ser associado a um adversário moral e espiritual. Nas publicações analisadas, Moraes foi rotulado com termos como "autoritário" e "corrupto", além de ser representado como uma figura demoníaca em ilustrações e vídeos.
A análise monitorou 573 perfis no Instagram, YouTube, X, TikTok e Facebook, somando 26.762 publicações e 189 milhões de interações no período.
As lideranças identificadas com a direita e o bolsonarismo no grupo dos 20 perfis mais influentes somaram 63,2 milhões de interações sobre o tema. Já no espectro da esquerda, os perfis presentes no top 20 alcançaram 7,1 milhões de interações no mesmo período.

O relatório aponta que, entre os grupos bolsonaristas, "além das declarações de apoio [a André Mendonça], também se intensificou uma campanha contra o voto em Lula, com mensagens diretas de 'LULA NÃO'".
Por outro lado, a análise indica que "a comunicação das esquerdas evangélicas no período combina forte mobilização eleitoral e confronto direto com o bolsonarismo com uma disputa pelo significado político da fé".
Reengajamento da fé no debate
O levantamento destaca que, antes do conflito entre Mendonça e Moraes no Supremo, os posicionamentos eleitorais relacionados à fé evangélica ocorriam de forma discreta e não dominavam o debate público.
"O que muda nesse momento é que o bolsonarismo volta a acionar de forma mais explícita uma gramática religiosa para interpretar a conjuntura política", explica Andréa Laís, coordenadora de pesquisa e assessora de campanhas da Casa Galileia.
Para a pesquisadora, a crise reativou a narrativa de guerra espiritual sem colocar apenas Mendonça como protagonista. "Ela apresenta a oração da igreja brasileira como parte do cumprimento dessa profecia, dando aos fiéis um papel ativo nessa disputa", afirma.
"Isso também parece aquecer uma mobilização eleitoral que vinha mais tímida em torno de Flávio Bolsonaro, com apoios que voltam a aparecer de forma mais explícita e articulados a essa leitura religiosa da política", acrescenta a especialista.
Ela pontua ainda que, impulsionadas pela crise no STF, lideranças religiosas como Silas Malafaia, Cláudio Duarte e Valnice Milhomens voltaram a ganhar protagonismo, juntando-se a figuras políticas que vinham dominando o alcance nas redes.
"É essa combinação entre crise institucional, guerra espiritual e mobilização eleitoral que muda a dinâmica das redes nesse período."

"Modo Nepal"
O relatório aponta também o resgate do discurso sobre o uso do "Modo Nepal". O termo faz referência às grandes manifestações e à queda do governo do país em 2025, impulsionadas sobretudo por jovens da geração Z local. A expressão reapareceu em perfis evangélicos de extrema direita como um símbolo de radicalização contra as instituições brasileiras, mantendo o STF como alvo principal.
No contexto nacional, o "Modo Nepal" já havia sido identificado por autoridades públicas em postagens de radicalização digital e foi alvo de investigações conduzidas a pedido do ministro Flávio Dino em 2025.
O discurso passou a ser mobilizado por figuras públicas que resgatam imagens dos protestos nepaleses como referência visual. O objetivo é incentivar mobilizações populares contra autoridades e defender ataques diretos ao STF em Brasília, alimentados pelo sentimento de combate à corrupção e pela insatisfação institucional.
"A recuperação de imagens do Nepal é frequentemente utilizada como referência visual para defender manifestações populares que envolvam ataques diretos à Suprema Corte em Brasília", diz o relatório.
Reportagem
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