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Wednesday, October 28, 2026

Israel votou, Netanyahu não ganhou, mas será que perdeu?

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É hora de conhecermos o tema do Contracorrente desta quarta-feira. Para entrar em direto e nos dar a sua opinião, só tem que ligar 91 002 41 85, ou também pode enviar a sua mensagem de voz, o seu áudio, por WhatsApp para o mesmo número, 91 002 41 85. Carla. Os israelitas foram ontem às urnas naquelas que foram as eleições mais participadas de sempre. As primeiras sondagens à boca das urnas pareciam indicar uma vitória da coligação anti-Netanyahu, mas a contagem dos votos foi em sentido contrário e vamos ter de esperar uns dias para ter um retrato final das possíveis coligações do governo. Tudo indica que o primeiro-ministro perdeu a maioria, mas a existência de uma maioria alternativa parece depender do apoio dos partidos árabes. Bom dia, José Manuel. O que afinal se passou nestas eleições?

Passou-se o que já se passou noutras alturas. Aliás, há mais ou menos 30 anos, em 1996, quando saíram as sondagens à boca das urnas, também dava uma vitória esperada, todas as sondagens apontavam que era a vitória de Shimon Peres. Estávamos num período crítico. Yitzhak Rabin tinha sido assassinado uns meses antes e Shimon Peres tinha ficado como primeiro-ministro interino. Houve eleições, ele foi se deitar a pensar que tinha sido eleito primeiro-ministro e acordou com Netanyahu, precisamente Netanyahu, a chegar à chefia do governo. Primeira vez que isso aconteceu. Netanyahu chegou nessa altura à chefia do governo pela primeira vez. Isso foi há 30 anos e destes 30 anos para cá, Netanyahu esteve um pouco mais de metade do tempo-

É um animal político

Mas é que é mesmo um animal político, é um sobrevivente nato. É alguém que quando parece ter completamente destruído, volta à tona. E aparentemente voltou. Terá acontecido algo de semelhante, nós não sabemos ainda. Parece mais ou menos claro que a coligação de Netanyahu não vai ter a maioria. Durante a noite apareceu uma sondagem que dizia que talvez pudesse empatar. Não empatar, ter 61, 60, teríamos que ver, mas também parece claro que a coligação anti-Netanyahu, que é aparentemente o partido mais forte, e confirmou-se isso, é o partido de Gadi Eizenkot. Eizenkot era um antigo chefe do Estado-Maior das Forças Armadas e lidera uma espécie de coligação, que aliás não é formal, nem se sabe bem como é que se irá formar, de partidos que têm sobretudo um ponto comum: não a Netanyahu. E nós temos que perceber melhor como é que funciona o sistema eleitoral israelita, que tem particularidades quase únicas no mundo. Aliás, o próprio sistema constitucional israelita tem essas particularidades. É algo que vem do tempo da fundação do Estado, do tempo de Ben-Gurion. Ben-Gurion, que foi o fundador do Estado de Israel, imaginou um sistema proporcional e não majoritário, porque tinha noção de que os judeus, até pelas próprias características da formação do Estado, havia judeus com tradições políticas muito diferentes, vindos de países muito diferentes, com referências culturais inclusivamente muito diferentes, era necessário assegurar pluralismo e não apenas governos majoritários, que é aquilo que nós temos, por exemplo, em sistemas como o inglês, como o americano ou mesmo o francês. Aqui, o sistema está feito para basicamente todos os partidos entrarem ou quase todos. Há apenas um círculo eleitoral, portanto, não há aquele sistema que favorece os maiores partidos e existe apenas uma barreira à entrada que se situa nos 3,25%. Isto permitiu que houvesse 37 partidos a concorrer.

Portanto, uma enorme dispersão de votos.

Uma enorme dispersão de votos, evidentemente depois alguns partidos não foram até ao fim, desistiram, uniram-se com outros. Nestes 37 partidos há muitas coligações, por incrível que pareça. Alguns partidos são coligações. A Lista Unida, por exemplo, que é um dos partidos árabes, é uma coligação de três partidos. Isto reflete, por um lado, a natureza da sociedade israelita, e é muito interessante olhar para essa natureza, e reflete também um sistema político que foi feito precisamente para garantir o pluralismo. Só que isto torna muito difícil formar governos. Durante muito tempo, o sistema teve dois partidos por assim dizer hegemónicos, um partido tipicamente trabalhista, labor, de esquerda, que era o partido de Ben Gurion, que governou até 1977, portanto, os primeiros 30 anos do Estado de Israel, praticamente. E depois com a oposição de um outro partido, que também já vinha do período antes da construção do Estado, que é o Likud, que é o partido de Benjamin Netanyahu. Este sistema em boa parte implodiu, pela existência de vários fatores aqui. Um desses fatores foi o crescimento dos partidos religiosos e a vinda de muitos imigrantes, sobretudo os imigrantes que vieram da Rússia, mas não só, nos últimos anos. Além disso, tenham acontecido várias guerras, e essas guerras também terem tido influência nos próprios resultados eleitorais. Costuma-se dizer que quando há uma grande crise, e 7 de outubro foi uma grande crise, os israelitas acabam por mudar politicamente, mas isso não acontece logo na eleição seguinte, acontece duas eleições depois. Isso foi o que aconteceu, por exemplo, depois da grande crise da Guerra de Yom Kippur, em 73. Essa crise levou à demissão do primeiro-ministro da altura, que era Golda Meir, mas nas eleições seguintes os trabalhistas ainda ganharam e é só na segunda eleição, digamos assim, que se dá a alteração e, portanto, chega o Likud com Menachem Begin Que era uma figura muito singular também, e haveria de assinar o primeiro acordo de paz com o Egito, na nossa data, em 78. Mas isso foi há muito tempo. Agora tivemos uma situação que em alguns aspetos fez lembrar a Guerra do Yom Kippur, que é um ataque de surpresa. Agora o 7 de outubro, com críticas diferentes, mas a mesma coisa, mas que uma das razões que estava por trás do mal-estar com que chegamos a estas eleições foi não ter havido aquilo que houve em 73, que é uma comissão de inquérito independente. Foi algo a que Benjamin Netanyahu sempre se opôs e é um dos pontos de clivagem fundamentais destas duas coligações. Mas há outra coisa também que é muito importante, depois temos mais em detalhe, que é: a esquerda praticamente desapareceu. Nestas eleições, se não considerarmos os partidos árabes, cuja posição política, talvez a Lista Unida tenha algumas críticas de esquerda, está lá dentro um partido comunista, mas é uma coisa também com lados fundamentalistas, é uma coisa mais estranha. Nos partidos judaicos, que representam 85% do voto, só havia um partido que se pudesse considerar de esquerda, que era os Democratas, que resulta dos restos do Partido Trabalhista e de um outro partido que era o Meretz, que era um partido parecido. Não sei qual foi, não vi agora, estava entre nove a 10 deputados num parlamento de 120. Não tem 10% do voto. E mesmo assim, nem sequer este partido, de Goleme, o líder, defendia abertamente a solução dos dois Estados, que foi algo que talvez tenha sido a grande vítima do 7 de outubro. Mesmo aqueles que à esquerda achavam que era possível conviver com um vizinho palestiniano.

Já ninguém quer.

Já não acreditam. Não é um problema de querer. Até podiam querer, é acreditar que seja possível. Por exemplo, só para dar uma ideia, o líder que ficou em primeiro lugar, o líder do segundo partido, que é o Eisenkot. O Eisenkot era chefe de Estado-Maior e é uma figura muito interessante, porque ele perdeu o filho em Gaza e perdeu outros familiares nestas guerras e é alguém que vem de baixo. Ele chega ao topo vindo de um ambiente muito pobre e muito humilde. Classe operária, digamos assim, que não é exatamente assim que a gente pode definir, mas é aquilo que nós diríamos como equivalente a tal. Ainda por cima é um judeu com origem em Marrocos. Depois falaremos um pouco disso, porque é uma coisa que divide também o cenário político em Israel, é a origem, se são asquenazes, se são sefarditas ou são aréses, as várias diferenças entre as comunidades judaicas. Este Eisenkot, por exemplo, defendia que em Gaza se devia ter usado ainda mais força do que aquela que foi usada. Não há aqui essa diferença. E há outro lado também muito interessante nestas eleições, também temos que ver melhor, porque provavelmente é lá que pode eventualmente residir a chave para perceber que próximo governo vamos ter, que houve uma participação recorde, em particular da minoria árabe. A minoria árabe corresponde a 15% da população, tem deputados, tem juízes no Supremo Tribunal, tem uma presença importante na vida pública, apesar de serem, por regra, zonas menos desenvolvidas do Estado de Israel. Depois podemos falar um pouco disso. Um dos partidos é claramente beduíno, o outro partido é a tal coligação, a Lista Unida, que tem várias forças políticas. Eles podem ficar com a chave disto, mas há aqui um problema, que na coligação de Eisenkot, há pelo menos dois outros membros, que é o Naftali Bennett e o Avigdor Lieberman, que dizem que com os árabes nunca. Apesar do Bennett já ter sido primeiro-ministro num governo que tinha, de alguma forma, não digamos uma coligação, mas o beneplácito da lista árabe. Estamos a ver como é que isto acontece, é um grande seriado. Temos que começar por perceber que Israel não corresponde muito àquilo que muitas vezes são os nossos chavões e as nossas ideias preconcebidas. É muito mais complicado e tentar perceber um pouco essa complicação não nos diz quem vai ser o próximo governo, mas pelo menos tentar ler a realidade.

O que está a acontecer. Até já, José. 910024185 para entrares em direto depois do Jornal das 10.

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