You’re fired upon!

Ainda não sei se vou assistir à execução do terrorista Nidal Hasan que o Secretário de Defesa americano pretende transmitir em directo a 3 de Dezembro. Vai depender do que estiver a dar nos canais da concorrência. Para já, parece-me que o dia é bem escolhido: uma 5.ª feira, logo não há Liga dos Campeões. Estou com curiosidade para ver se o trailer é apelativo o suficiente. Nestas histórias em que já sabemos o fim, convém que o trailer mostre a sugestão de revelações surpreendentes. Algum pormenor atractivo que convença o público, que já sabe o desfecho, a acompanhar a transmissão. É como o filme “Lincoln”: quando nos sentamos no cinema, sabemos que o protagonista vai morrer, mas ficamos a assistir porque a história é interessante. Vamos ver como é que o realizador nos prende a atenção. Se calhar, com algumas revelações sobre os atiradores. Quem são? Quais as suas histórias? Que clube apoiam? Qual foi o primeiro ser vivo que mataram? Essas curiosidades que nos cativam numa personagem. Com uma narrativa interessante, em vez de um evento único, isto pode até tornar-se numa série com várias temporadas. O que não falta nos Estados Unidos é gente a quem Pete Hegseth gostava de dar um tiro.
Conhecendo a capacidade americana para produzir grandes espectáculos televisivos, espera-se um show à altura dos Óscares ou do Superbowl. Por outro lado, ainda há dias escangalharam a execução de uma condenada à morte. Se o carrasco consegue falhar a veia com a agulha a centímetros de distância, ninguém garante que não errem o tiro a vários metros. O que, se pensarmos bem, pode proporcionar momentos de televisão únicos.
Não esquecer que, antes de ser Presidente, Donald Trump participou num reality show em que repetia aos concorrentes o bordão “You’re fired!”. Agora é quase a mesma coisa: “You’re fired upon”.
Hegseth, o grande promotor da iniciativa, acha que a transmissão do fuzilamento pode dissuadir quem esteja a ponderar cometer um ataque como o de Hasan. Tenho muitas dúvidas. É não conhecer as novas gerações, que fazem tudo para aparecer. A quantidade imensa de jovens que querem ser conhecidos nas redes sociais delira com isto. Nidal Hasan vai viralizar. Há influencers que matavam por um post com o alcance que as publicações sobre o fuzilamento vão ter. Já para não falar dos memes imortais que vão sair disto. Hegseth tem razão, há lições a ser retiradas desta execução pública. Não sei é se vão ser as que ele estava à espera. Pelo sim, pelo não, eu reforçava a segurança em bases militares americanas.
Entretanto, Donald Trump já disse não estar certo de que a transmissão vá mesmo acontecer. E JD Vance afirmou que, caso avance, ele não a verá. Tem havido outras declarações de repúdio. Talvez Hegseth tenha cometido um erro ao anunciar com tanta antecedência. Permitiu que, depois do choque, as pessoas reagissem. Se calhar, devia ter esperado. Por outro lado, ao avisar dois meses antes, faz com que haja tempo suficiente para se montar um leilão entre as marcas que estão doidinhas para patrocinar o show. Eu aposto na Nike. Tem boas razões para isso. Em 1977, no Utah, Gary Gilmore foi fuzilado depois de ter sido condenado à morte por dois homicídios. Devia ter alguma pressa, porque as suas últimas palavras foram “Let’s do it”, uma frase que veio a dar origem ao célebre “Just do it”. A Nike não pode permitir que outra marca fique com o slogan genial que Hasan vai criar mesmo antes de falecer.
Há quem esteja muito preocupado com a barbárie que parece afectar esta administração americana. Mas não há razões para isso. Nos Estados Unidos levam muito a sério a protecção das susceptibilidades dos espectadores. É costume as transmissões em directo terem um atraso de alguns segundos, não vá ser preciso parar a emissão por algum dos intervenientes dizer um palavrão ou mostrar uma maminha. É provável que este puritanismo seja aplicado à execução e o fuzilamento que ocorrer às 14h03m27s só seja visto às 14h03m36s. Convenhamos que assim é muito mais civilizado.
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