Liberdade: passado do 'bairro japonês' esconde cemitério e soldado

A versão oficial está ligada ao Chafariz da Liberdade, construído em 1832, depois da abdicação de Dom Pedro 1º. O nome seria uma referência às mudanças políticas e ao fim do absolutismo no Brasil.
A outra hipótese está ligada a uma execução que aconteceu em 1821, no então Largo da Forca.
Foi ali que Francisco José das Chagas, conhecido como Chaguinhas, um soldado negro, foi condenado à morte depois de liderar um protesto por salários atrasados e pela igualdade entre soldados brasileiros e portugueses.
Durante a execução, porém, a corda se rompeu duas vezes. A multidão pediu misericórdia e interpretou o episódio como um sinal divino.
Na terceira tentativa, os executores usaram uma tira de couro. Ela também falhou. Chaguinhas caiu ainda vivo e, segundo relatos da época, acabou morto após ser espancado diante da população.
A tradição oral sustenta que o grito de "Liberdade!" provocado pela multidão durante a execução teria dado origem ao nome do bairro.
A história oficial, no entanto, registra outros marcos. Em 1858, o antigo Largo da Forca passou a se chamar Praça da Liberdade. Em 1865, a Rua da Liberdade ganhou oficialmente esse nome e, no início do século 20, Liberdade passou a designar também o distrito.
A chegada dos japoneses
Foi no século 20 que o bairro ganhou uma nova identidade.
Em 1908, o Kasato-Maru, navio que marca oficialmente o início da imigração japonesa no Brasil, chegou ao Porto de Santos. A partir de 1912, imigrantes japoneses começaram a se estabelecer na Liberdade, principalmente na Rua Conde de Sarzedas.
Muitos moravam nos porões da ladeira, onde os aluguéis eram mais baratos. Com o tempo, lojas, restaurantes e outros estabelecimentos passaram a transformar a paisagem e consolidaram a presença da cultura japonesa no bairro.
Essa comunidade, porém, também enfrentaria perseguição.
Durante a Segunda Guerra Mundial, o governo de Getúlio Vargas determinou a retirada de japoneses da região, proibiu o uso do idioma japonês e congelou bens.
Décadas depois, nos anos 1970, um projeto de "orientalização" passou a valorizar lanternas, portais e outros elementos associados à cultura japonesa, ajudando a construir a imagem turística da Liberdade.
Descoberta de cemitério escondido
Em 2018, a estação de metrô passou a se chamar Japão-Liberdade, enquanto a praça recebeu o nome Liberdade-Japão.
No mesmo período, escavações arqueológicas revelaram nove ossadas no antigo Cemitério dos Aflitos, fundado em 1775. Era ali que haviam sido enterrados, durante décadas, pobres, negros, indígenas, escravizados e condenados, longe das áreas centrais da cidade.
A descoberta reacendeu a discussão sobre a memória negra da região e sobre a necessidade de preservar uma história que havia desaparecido da paisagem urbana.
Em 2023, a praça passou oficialmente a se chamar Liberdade África-Japão, incorporando essas diferentes dimensões da história do bairro.
E a memória dos Aflitos continua sendo preservada. Em junho de 2026, a Capela dos Aflitos foi reaberta depois de dois anos de restauração.
Hoje, Chaguinhas é venerado por frequentadores da capela, que deixam placas de agradecimento por graças alcançadas.
A Liberdade contemporânea reúne, assim, diferentes histórias no mesmo espaço: a memória indígena, negra e popular, a imigração japonesa, a perseguição durante a guerra, a religiosidade e a transformação do bairro em um dos principais destinos turísticos de São Paulo.
Antes do turismo, houve a forca. Antes das lanternas, houve um cemitério. E, sob as ruas da Liberdade, continuam presentes histórias que a cidade passou décadas sem enxergar.
Fontes: 'Ecos da Liberdade: o agenciamento das memórias e identidades negro-indígenas e a herança simbólica institucionalizada sobre a Capela e Cemitério dos Aflitos em São Paulo', Wesley de Sousa Vieira (entrevista e pesquisa); História dos Bairros GUIMARÃES, Laís de Barros Monteiro; Prefeitura de São Paulo, Secretaria Municipal de Cultura, Departamento do Patrimônio Histórico.
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