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Monday, September 14, 2026

Criolo prova que seu rap, rico e incisivo, não envelheceu em nada no Coala Festival

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Se o primeiro dia da edição 2026 do Coala Festival, no sábado, trouxe ao público Maria Bethânia, uma figura superlativa da MPB mas um tanto incomum em eventos do tipo, o domingo teve como grande artista um artista que é a cara do festival, Criolo.

Apesar do reconhecimento nacional e até fora do Brasil, o rapper construiu sua identidade nos palcos paulistanos. A plateia que encarou muito frio e chuva no Memorial da América Latina não era exatamente composta por fãs. Criolo tem seguidores, verdadeiros devotos, que sabiam de cor seus versos contundentes.

Na maior parte do show, esses versos eram das canções de "Nó na Orelha", seu segundo álbum, lançado em 2011, cinco anos depois da estreia com "Ainda Há Tempo". Foi com esse disco que Criolo, até então com uma fama restrita ao circuito do rap paulistano, se transformou em um dos artistas mais importantes de sua geração.

Criolo e os produtores Daniel Ganjaman e Marcelo Cabral entregaram um disco que cruzou os limites do hip-hop, colocando num caldeirão musical o rap já estruturado ao lado de samba, soul, reggae e, pasmem, até bolero. O mais incrível é que tanta mistura nunca descaracterizou a música de Criolo enquanto protesto raivoso.

O show dedicado a comemorar os 15 anos desse álbum que ele apresentou no Coala não deixou em nenhum momento a crônica social de lado. Como sempre, Criolo não precisou de uma performance exagerada, explosiva. Mostrou a figura serena que, numa postura de um Buda periférico, fala de desencanto, colocando dedos em feridas profundas.

Músicas como "Grajauex", "Freguês da Meia-Noite", "Subiruosdoistiozin" e "Linha de Frente" não envelheceram uma ruga sequer nesses 15 anos. E impressionam porque desenvolvem rimas com um vocabulário vasto e um discurso incisivo, características que faltam a uma imensa parcela do rap produzido em 2026.

Mas, claro, nada supera a comunhão da plateia com "Não Existe Amor em SP", crítica à ganância da grande cidade que se transformou em um hino do hip-hop nacional. São Paulo ganha contornos poéticos que transformam a metrópole em personagem de uma história de solidão. Criolo recebeu Seu Jorge no palco e encerrou a noite com a plateia em êxtase.

No palco principal, o show de Criolo foi antecedido por apresentações de vozes muito poderosas. No cair da tarde, João Gomes conduziu uma roda de forró e piseiro na plateia. É possível pedir desculpa pelo clichê, mas foi realmente impossível alguém ficar parado.

Impressiona muito João Gomes ter apenas 24 anos. Ele tem uma bonita voz de velho, disparou uma mulher na plateia. E ela acertou em cheio nessa definição. Não apenas pelo timbre ou pelo alcance, o cantor tem uma projeção de voz segura, canta muito sem parecer fazer o mínimo esforço.

Depois do pernambucano, foi a vez do carioca Seu Jorge entreter o público, debaixo de chuva intensa. Ele, sem dúvida, sabe como fazer isso. O vozeirão é marca registrada, assim como a maleabilidade de encaixar essa potência vocal em vários gêneros.

Seu Jorge misturou canções de vários discos, e distribuiu as faixas no setlist para não deixar nenhuma chance de respiro para o público. Ele tem experiência para sentir a plateia e encadear as canções de modo a crescerem durante a apresentação. Quando encerra com covers de Tim Maia, o público está entusiasmado e rendido. Um show feito para levantar a multidão molhada.

As apresentações preliminares do segundo dia seguiram a tradição do Coal, de reunir atrações emergentes e nomes mais alternativos. A programação abriu com Sophia Chablau e Felipe Vaqueiro, Duquesa e Luedji Luna, com participação do veterano grupo dançante Fat Family.

Embora baiano, a ligação de Tom Zé com a cidade de São Paulo também é arrebatadora. E o autor de "São Paulo, Meu Amor" completará 90 anos no próximo dia 11, o que só tornou sua apresentação no Auditório Simón Bolívar, dentro do complexo do memorial, em pura celebração. Ainda cantando, compondo e fazendo shows, Tom Zé é de uma longevidade que os fãs comemoram.

A escolha de Criolo para fechar a edição deste ano fez muito sentido. O cantor reformatou no palco o disco que o tornou mais conhecido, e ele passou a ganhar mais público justamente quando o festival começava a se organizar. São trajetórias contemporâneas e entrelaçadas. Esta foi a terceira participação de Criolo no Coala.

Assim, o festival segue repercutindo a cena paulistana, seja com artistas locais ou recebendo gente de todo o Brasil. Um pouco como é a cidade de São Paulo todos os dias.

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