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Sunday, October 11, 2026

Da luta de classes à intifada.

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Liceus incendiados porque não têm ar condicionado. Lojas destruídas porque sim. Uma mulher a quem se atira com combustível para depois se lhe lançar fogo  Grupos de jovens vestidos de negro partem, incendiam, marcham. As bandeiras da Palestina são frequentemente a única mancha de cor no meio daqueles vultos.

O predomínio das bandeiras da Palestina nas manifestações dos estudantes franceses não é um acaso. É um sintoma. Em vários países da Europa o slogan do Che Guevara de “Criar dois, três… muitos Vietnames” ressurge agora na versão “Criar duas, três… muitas Gazas”. Criar onde? Aqui, nas ruas da Europa, onde a fotogenia imedata da intifada substitui o velho imaginário da luta de classes: a mulher de Marselha em cujo rosto foi despejado o líquido inflamável pelos manifestantes trabalha como auxiliar de pessoas com incapacidades e limitou-se a pedir aos manifestantes que não destruíssem o abrigo da paragem de autocarro. Porquê agredi-la de forma tão bárbara? Por isso mesmo, pela barbárie. Ou melhor pelo poder absoluto que o exercício da barbárie confere. Ninguém quer saber a que classe ela pertence. Apenas que não faz parte da tribo. E as tribos a que pomposamente chamamos comunidades estão a tornar-se donas de algumas ruas na Europa. Os momentos de violência são os seus momentos de afirmação. Não interessa a racionalidade do que se reivindica porque aquilo que interessa é a performance da reivindicação. Assim pode incendiar-se o liceu Nelson Mandela em Nantes e dizer-se que se está a lutar contra a degradação do ensino porque o que conta é a imagem do liceu fumegante.

A rua árabe é agora mais sonora e visível no Reino Unido que nos paises árabes. Em França, os manifestantes criam momentos de destruição que sabem se tornarão virais e pelos quais dificilmente serão responsabilizados. O medo de serem acusadas de racismo ou islamofobia tolhe  as autoridades. Não deixa aliás de ser sintomático que a reacção mais forte às imposições dos manifestantes, neste caso na Bélgica, tenha vindo duma outra dita comunidade, a dos “forrains” (feirantes) que munidos de grades de ferro e extintores impediram a passagem dos manifestantes.

O imaginário da ocupação e da perseguição que tem alimentado o problema palestiniano está a ser transposto para a Europa pós-colonial. Em Ceuta, Marselha, Bruxelas, Manchester… encontramos este paradigma: um Ocidente invariavelmente apresentado como ocupante, perseguidor e maltratador. Os europeus acreditaram que retirando-se das que tinham sido suas colónias regressavam às suas fronteiras como se nada tivesse acontecido. Trocaram as narrativas da colonização pelas da libertação com quem muda de camisa mas para sua grande surpresa descobriram que não era suficiente. Havia que criminalizar esse passado que antes era glória. E, paradoxo dos paradoxos, dos países que tinham sido colonizados e posteriormente “libertados” saíam milhares e milhares de pessoas em busca de um futuro melhor porque a alegada libertação era opressão e a riqueza anunciada foi apenas uma pobreza garantida. E para onde iam e vão esse sfilhos das descolonizações falhadas? Para os países que os tinham colonizado e em seguida alegadamente libertado. Aqui eles e, o que para o caso conta, os seus filhos e netos vão alimentar a grande máquina do ressentimento esquerdista: dos bancos das escolas aos bairros públicos, da assistência social aos programas de televisão, a nova doutrina substitui Marx pelo pecado original de ser ocidental. E com sucesso. O homem que agora cavalga a onda de contestação em França, o esquerdista Jean-Luc Mélenchon, é o mesmo  que nunca usou o termo atentados para se referir ao 7 de Setembro,  não foi além de “ofensiva armada”, como se estivéssemos perante dois exércitos em conflito, e que tem na sua bancada parlamentar  gente como Danièle Abono que define o Hamas como “movimento de resistência”.

Os atentados do 7 de Outubro em Israel marcam um antes e um depois na visibilidade desta mudança. Nos dias, meses e anos que se seguiram, dirigentes como Sanchez, Burnham e Macron alimentaram este caldeirão de ressentimento quando, por convicção, oportunismo ou pura e simplesmente medo, foram produzindo platitudes sobre Israel como se houvesse uma forma fácil e óbvia de resolver a questão palestiniana que, por perfídia de Nethanyau, Israel não adopta. Simultaneamente diferentes governantes europeus foram subestimando as reacções de ódio ao Ocidente expressas em muitas manfestações ditas a favor dos palestinianos. Talvez muitos políticos europeus tenham querido acreditar que enquanto queimavam bandeiras de Israel e perseguiam judeus, os manifestantes desenvolviam um acendrado apreço pelas instituições democráticas da Europa. Pelo contrário, mantiveram o ódio, perderam-nos respeito e ganharam desprezo pelas sociedades em que escolheram viver mas não integrar.  A Europa vai pagar caro, muito caro mesmo, não ter percebido que o que estava em causa nos ataques do 7 de Outubro ia muito além de Israel.  Tinha a ver consigo. Connosco.

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