Mercado: desindexação é só para quem vive de salário

O Plano Real consertou um problema que era uma jabuticaba brasileira. A maneira que o país encontrou para conviver com uma inflação muito alta foi fazer a indexação de toda a sua economia. O Plano Real veio e acabou de uma vez com essa indexação. Só que faltou uma coisa para ser desindexada: a dívida pública. A dívida pública é a única coisa que tem garantido que vai ter a reposição automática da inflação e ainda ganhar alguma coisa em cima. O que o André Lara Resende propõe, basicamente, é: vamos terminar o Plano Real. A única coisa que faltou foi desindexar a dívida.
José Roberto de Toledo
Toledo afirma que, desde 1994, a indexação foi desmontada na economia do dia a dia, mas continuou na forma como o governo remunera títulos públicos. Para ele, isso ajuda a explicar por que o serviço da dívida pesa tanto no orçamento.
O maior gasto público que você tem de uma coisa só é o pagamento do serviço da dívida. São bilhões e bilhões e muitos bilhões de reais que você paga. Cada vez que a taxa de juros sobe ou deixa de cair, são bilhões de dinheiro público que vai para quem? É um aspirador de dinheiro que tira da base de contribuintes e joga na cúpula, no topo da pirâmide.
José Roberto de Toledo
Thais Bilenky contrapõe essa situação à cobrança recorrente do mercado financeiro por cortes de gastos. Ela lembra que Lula já afirmou que não pretende reduzir o valor do salário mínimo nem das aposentadorias do INSS e questiona de onde poderiam partir os ajustes defendidos pelo mercado.
A grande discussão é que o mercado financeiro cobra um corte de gastos para diminuir e tirar a pressão da dívida pública. O Lula já disse, disse e disse milhões de vezes que ele não vai desvalorizar o salário mínimo nem a aposentadoria do INSS. (...) Então, de onde viriam esses cortes, senão de uma redução dos juros da dívida, que teria um efeito muito drástico, porque você precisaria reformar todo o sistema econômico e financeiro do Brasil?
Thais Bilenky
Na avaliação de Toledo, a proposta de desindexar a dívida faz sentido como diagnóstico, mas a execução exigiria cuidado para não provocar uma saída rápida de capital do país, com impacto no câmbio.
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