Depois do verão, três prioridades para a gestão da floresta

O fim do verão deve marcar o início de uma etapa decisiva para a floresta portuguesa. Com menos incêndios nos noticiários, importa garantir que a prevenção se mantém uma prioridade nas decisões públicas e no trabalho realizado no território. É agora que se prepara uma parte importante da resposta ao próximo verão.
Os dados provisórios do ICNF, relativos a janeiro a agosto de 2026, mostram uma evolução positiva: 67.130 hectares ardidos, menos 73,5% do que no mesmo período de 2025. Contudo, registaram-se 6.910 incêndios rurais em Portugal continental, um aumento de 6,7%. Apesar da redução, a área ardida foi a quinta mais elevada desde 2016 para aquele período, com 68 grandes incêndios a concentrar 82% do total. Estes números provam que poucas ocorrências continuam a provocar danos extensos. Sem uma análise conjunta da meteorologia, das ignições e das condições do território, seria precipitado concluir que a vulnerabilidade estrutural está ultrapassada.
Por isso, a primeira prioridade deve ser assegurar uma gestão contínua da floresta. A prevenção exige planeamento, intervenções nos locais adequados e manutenção ao longo dos anos. Silvicultura preventiva, mosaicos de paisagem e gestão de combustível precisam de continuidade, coordenação e acompanhamento, sem depender da chegada do calor.
A segunda prioridade é criar condições económicas para que os proprietários participem nessa gestão. Num território marcado pela pequena propriedade, exigir intervenções sem facilitar a sua execução deixa o problema por resolver. É necessário promover a cooperação, apoiar soluções partilhadas e reduzir os custos de recolha e transporte dos sobrantes florestais. Aqui, a análise do custo da inação é clara: o investimento logístico na prevenção representa uma fração insignificante em comparação com os custos milionários do combate a incêndios e com a destruição irreversível de ativos económicos e florestais. Prevenir é estruturalmente mais rentável do que reconstruir.
A terceira prioridade passa por valorizar os materiais resultantes da gestão florestal, ligando a biomassa residual à produção de energia sustentável. Contudo, essa valorização exige critérios rigorosos de sustentabilidade, respeitando o solo e a biodiversidade. A integração de sistemas digitais de rastreabilidade e georreferenciação do feedstock assegura o cumprimento estrito das exigências da diretiva europeia EU RED e das métricas ESG, garantindo aos investidores institucionais que a energia produzida provém de cadeias de abastecimento transparentes e limpas.
Precisamos, por isso, de políticas públicas e privadas que aproximem proprietários, associações, municípios e operadores, com incentivos estáveis e resultados verificáveis. Para lá dos subsídios tradicionais, é urgente adotar mecanismos de mercado concretos, como a dinamização de créditos de carbono florestais e a criação de incentivos fiscais dedicados ao transporte de resíduos florestais. Hectares efetivamente geridos, continuidade das intervenções e resíduos valorizados de forma sustentável devem orientar a avaliação do trabalho realizado.
Depois do verão, a prioridade é dar continuidade à prevenção. Uma floresta com valor e condições para ser cuidada oferece uma base mais sólida para proteger pessoas, património e a economia local. O próximo balanço começa nas decisões que tomarmos agora.
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