“We support Hamas”: palavras que a Europa não devia tolerar

Foi na Praça Dam, em Amesterdão, na noite de 7 de Outubro de 2026 – exactamente três anos depois do massacre em Israel – que faixas verdes ergueram três palavras: “We support Hamas”. Ao lado, “Glória aos nossos mártires, vitória à resistência”, enquanto que alguns manifestantes gritaram “Viva o 7 de Outubro”.
No centro de uma capital europeia, junto ao monumento às vítimas da guerra, erguiam-se faixas de apoio à organização que, a 7 de Outubro de 2023, matou 1.200 pessoas e levou 251 reféns – entre os reféns estava o bebé Kfir, então com nove meses – num ataque que a Human Rights Watch concluiu ter sido “concebido para matar civis” e que a Amnistia Internacional qualificou como crime contra a humanidade.
A polícia concluiu que as mensagens não violavam a lei. A presidente da câmara de Amesterdão, Femke Halsema, do GroenLinks (Esquerda Verde), chamou-lhes “chocantes e de mau gosto”, mas não puníveis. É essa a parte verdadeiramente perturbadora, não apenas que alguém tenha escrito aquelas três palavras, mas que uma democracia europeia tenha concluído que, juridicamente, pouco ou nada pode fazer perante elas.
“We support Hamas” não é uma formulação ambígua. Não diz “paz para Gaza”. Não diz “fim da ocupação”. Não diz “protecção dos civis palestinianos”. Diz apoio a uma organização específica, com uma doutrina, um aparelho de poder e um historial que merecem ser lidos antes de se erguer uma faixa em seu nome.
Há palavras que a Europa já ouviu. Da última vez, também começaram numa praça.
O que significa apoiar o Hamas
O Pacto fundador do Hamas de 1988 nunca foi formalmente revogado. O documento de 2017 foi apresentado pelo próprio movimento como uma actualização de princípios, e não como substituição do texto original. E o texto de 1988 continua a ser um inventário de tudo aquilo que a Europa diz ter deixado para trás.
Se é mulher, o Hamas tem um lugar para si: “criadora de homens”, guardiã do lar, educadora dos filhos para a luta (artigos 17.º e 18.º). Se é cristão, pode viver em paz mas “sob a asa do Islão”, desde que não conteste a soberania do Islão (artigo 31.º). A isto chamam-lhe coexistência, mas a coexistência que descrevem está subordinada à soberania islâmica. Isto não corresponde à igualdade que as democracias europeias defendem.
Se acredita na diplomacia, o artigo 13.º é claro: as iniciativas e conferências de paz “contradizem os princípios do Movimento” e são “perda de tempo”. Se dá valor à vida, o artigo 8.º responde: “a morte pela causa de Alá é o mais elevado dos seus desejos”.
E se é judeu, o artigo 7.º invoca uma tradição segundo a qual o Dia do Juízo não chegará sem que os muçulmanos combatam e matem os judeus, “até as pedras e as árvores denunciarem quem se esconde”. O artigo 32.º apresenta o “plano sionista” como estando escrito nos “Protocolos dos Sábios de Sião” – a mais célebre fraude anti-semita da história moderna, forjada no Império Russo e depois convertida em combustível da propaganda nazi. Foram parcialmente plagiados da sátira francesa de 1864 “Diálogo no Inferno entre Maquiavel e Montesquieu” de Maurice Joly, pela polícia secreta do Império Czarista Russo e publicados em 1903, com o objectivo de canalizar a insatisfação popular russa contra a comunidade judaica e justificar perseguições (pogroms).
O anti-semitismo conspirativo do Hamas não nasceu em Gaza. Foi importado da Europa. E a Europa, aparentemente, já não o reconhece quando volta à sua própria praça principal.
A Europa fabricou a mentira e prometeu não a repetir. Mas falhou.
A comunidade LGBT sob o Hamas
Há um paradoxo que deveria incomodar particularmente quem marcha com a bandeira arco-íris ao lado da bandeira palestiniana.
O Pacto do Hamas não fala directamente das pessoas LGBT. Não precisa. Na Faixa de Gaza, as relações entre pessoas do mesmo sexo são crime, puníveis com penas que podem chegar a dez anos de prisão, ao abrigo de legislação herdada do Mandato Britânico e mantida em vigor. Mas a realidade vai muito além do código penal. Há documentação, escrita e gravada em vídeo, de perseguições, detenções, torturas e execuções de pessoas acusadas de homossexualidade. O Hamas executou, em 2016, um dos seus próprios comandantes, Mahmoud Ishtiwi, após acusações de relações homossexuais e desvio de dinheiro – um caso que revela não uma excepção, mas a natureza do regime.
Isto não significa que apoiar os palestinianos seja apoiar o Hamas. Muitos palestinianos não são Hamas, aliás muitos palestinianos são vítimas do Hamas. E a comunidade LGBT palestiniana é, segundo a prática do movimento, um alvo.
Quem marcha em Lisboa, Madrid ou Berlim com a bandeira arco-íris ao lado da palestiniana defende duas causas legítimas. Mas deve saber quem governa Gaza desde 2007. A bandeira palestiniana não é a do Hamas, e quem as confunde – ou ergue a primeira ao lado de uma faixa de apoio ao segundo – passa a apoiar o poder que persegue precisamente as pessoas que diz defender.
O que o Hamas faz aos palestinianos
Entre milhares de crimes desde 2006, a Amnistia Internacional documentou que, durante o conflito de 2014, as forças do Hamas levaram a cabo uma campanha de sequestros, torturas e execuções sumárias contra palestinianos, incluindo pessoas acusadas de “colaboração” com Israel. Alguns foram mortos em público. Outros foram interrogados e torturados em instalações junto do Hospital Al-Shifa. Em 2019, quando milhares de jovens saíram à rua sob a bandeira “Queremos Viver”, contra o custo de vida e a repressão, o Hamas respondeu com detenções em massa, violência e munições reais.
Depois do cessar-fogo de 2025, relatos e organizações de direitos humanos voltaram a documentar execuções extrajudiciais na Faixa de Gaza. O padrão é conhecido: primeiro declara-se a lealdade à causa, depois elimina-se quem a contesta.
Quem grita “We support Hamas” em nome de Gaza apoia quem prendeu, torturou e executou palestinianos. Apoia quem respondeu a protestos contra a miséria com prisões e violência. Apoia quem transformou parte da autoridade sobre a vida civil em instrumento de medo. Não é uma posição pró-palestiniana. É uma posição a favor de quem domina os palestinianos.
O perigo não ficou na praça
Poder-se-ia dizer que são apenas três palavras, uma faixa, um grupo pequeno. Mas as ideias não ficam nas praças.
Em 2025, a Europol registou 486 suspeitos detidos por infracções terroristas na União Europeia. Cento e trinta tinham 18 anos ou menos e o mais novo tinha apenas 12. Os serviços de informação alemães escreveram, no relatório publicado em Junho, aquilo que muitos preferem não ler – alguns discursos pró-palestinianos contribuem para legitimar o terrorismo do Hamas.
Não estou a acusar nenhum manifestante de terrorismo. A esmagadora maioria não o é. Mas a glorificação pública de uma organização terrorista não é um gesto neutro. Cria um clima, normaliza uma ideia. Diz a um jovem radicalizado que matar civis judeus não é apenas defensável, é heroico. E é precisamente esse salto – da faixa para a faca, do slogan para o atentado – que os serviços de segurança europeus tentam impedir todos os dias.
A ameaça é constante, crescente e iminente. Não porque cada manifestante seja um terrorista, mas porque o terrorismo precisa de legitimidade social antes de precisar de explosivos. Precisa de gente que diga “talvez tenham razão”, precisa de faixas, de cânticos, de silêncios cúmplices. E a Europa está a fornecer-lhe esse capital moral, numa praça de cada vez.
A fronteira que tem de ser nítida
Pode-se estar com Gaza sem estar com o Hamas. Muitos europeus estão, choram os mortos palestinianos, criticam a guerra, defendem um Estado palestiniano e nunca escreveriam aquelas três palavras. É precisamente por eles que a fronteira tem de ser nítida.
A Directiva (UE) 2017/541 obriga os Estados-membros a punir a provocação pública ao terrorismo, incluindo a sua glorificação e justificação. Mas exige intenção e perigo – e cada país interpreta essas exigências à sua maneira. O resultado é uma Europa com tantas fronteiras morais como jurisdições. É punível em Londres, proibida em Berlim, ilegal na Suíça, e, em Amesterdão, apenas “de mau gosto”.
Não se trata de restringir a crítica a Israel, nem de criminalizar a solidariedade com os civis de Gaza. Trata-se de restaurar uma distinção elementar entre quem defende vidas e quem glorifica quem as tira.
Depois de 1945, a Europa jurou um princípio simples, nenhuma causa justifica o massacre deliberado de civis. Julgou-o em Nuremberga (1946), escreveu-o em Genebra (1949), consagrou-o em Roma (1998). O direito admite a luta contra a ocupação, não admite o massacre. E não admite que uma capital europeia aplauda, em público, quem o comete.
Não é só Israel que este slogan desafia. É a civilização europeia de matriz judaico-cristã, greco-romana e iluminista, de que fazem parte, por inteiro, os muçulmanos europeus. É a Europa das liberdades, a mesma que permitiu aquela faixa e que o Hamas, se pudesse, aboliria.
A cidade onde tudo começou
Em Fevereiro de 1941, Amesterdão parou para defender os seus vizinhos judeus. Oitenta e cinco anos depois, na mesma cidade, algumas pessoas ergueram faixas a apoiar quem promete destruí-los.
A Europa não precisa de voltar a aprender, da maneira mais cara, que a indiferença perante o ódio nunca fica onde começa.
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