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Friday, November 6, 2026

Abacate brasileiro ganha a Europa — mas o protecionismo segue no caminho do agro

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O agronegócio brasileiro está ampliando as exportações para a União Europeia, mas ainda enfrenta regras que buscam proteger setores produtivos locais da concorrência estrangeira. A avaliação é de Sérgio Quiroga, presidente da Eurocâmaras e da Câmara de Comércio Brasil-Suécia.

De maio a setembro, as vendas agrícolas do Brasil para o bloco cresceram 14,8% em valor, na comparação com o mesmo período de 2025, e chegaram a US$ 12,21 bilhões, segundo o sistema Agrostat, do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa). O resultado foi impulsionado por diferentes segmentos, como o complexo soja, as carnes, os produtos apícolas e as frutas.

Quiroga reconhece que parte das exigências europeias tem caráter protecionista, mesmo com o acordo Mercosul-União Europeia, que passou a valer em maio de 2026.

“É realmente sim, protecionismo. É para proteger certas indústrias de lá”, afirmou em entrevista à EXAME durante o European Day, evento organizado pelo ICnext Group nesta quinta-feira, 5.

O tema foi um dos principais entraves para que o acordo saísse do papel. Produtores europeus protestaram contra o tratado, alegando que o Brasil não cumpria a rigidez da legislação do bloco para produzir.

O embate voltou à tona em setembro, quando a UE suspendeu a entrada de carne bovina e de outros produtos de origem animal do país, como frango, suínos, mel, pescados e ovos. O bloco considerou insuficientes os mecanismos brasileiros de controle do uso de antimicrobianos, como os antibióticos, na pecuária.

Mesmo assim, Quiroga vê no acordo uma oportunidade de ampliar o acesso ao mercado europeu. Sua eficácia, porém, dependerá da capacidade de empresas e governos de superar obstáculos comerciais e burocráticos. “Os acordos são simplesmente a ferramenta. Nós temos que usar a ferramenta”, disse.

Para ele, o crescimento das vendas é uma consequência esperada da redução das tarifas. O desafio está em transformar a abertura comercial em ganhos econômicos mais amplos. “O óbvio é o Brasil exportando muito mais agro”, afirma.

Os primeiros resultados ajudam a dimensionar o movimento. Segundo o Agrostat, as exportações de abacate para a UE cresceram 421,2% em valor entre maio e setembro, de US$ 3,81 milhões para US$ 19,87 milhões.

O óleo de milho bruto subiu 266,3%, de US$ 35,31 milhões para US$ 129,35 milhões. O café torrado avançou 91,6%, e as vendas de manga e de maçã, 31,2% e 28,8%, respectivamente.

Além das commodities

Apesar da alta das exportações, Quiroga avalia que o Brasil precisa usar o acordo para subir na cadeia de valor, e não apenas vender mais produtos básicos.

“O que não é óbvio é você pegar e crescer um pouquinho na cadeia de valor”, afirma. Para ele, o difícil é justamente não mandar só commodities. “Por que não exportar tecnologia?”, questiona, citando energia e mineração como áreas em que o país poderia ter mais peso na pauta com a Europa.

Há uma segunda frente, a de serviços que podem ser prestados à distância, como software e atendimento ao cliente. Foi o caminho da Índia nas últimas três décadas, e o Brasil, diz Quiroga, “já entrou um pouquinho, mas está meio que perdendo”.

O país também deve aproveitar as empresas europeias que já operam aqui. Algumas estão no Brasil há mais de 100 anos e, segundo ele, em muitas fábricas metade da produção vai para exportação. Mas o acordo só trará resultado se for usado. “Você comprou uma Ferrari, mas tem que tirar a Ferrari da garagem, senão não adianta”, diz.

Os obstáculos, porém, existem dos dois lados. No agro, o acordo estabelece condições específicas de acesso para carnes bovina, suína e de aves, açúcar, etanol, arroz, mel, milho e sorgo, e, em alguns casos, os benefícios dependem de cotas de importação.

Na França, lembra Quiroga, o acordo ainda é visto como “totalmente provisório”. Durante a negociação entre os dois blocos, produtores e autoridades francesas se manifestaram abertamente contra o tratado.

Do lado brasileiro, ele aponta a falta de previsibilidade como um freio a novos investimentos.

Segundo Quiroga, a IKEA, que hoje só atua no Brasil no B2B, citou regras tarifárias e tributárias mais claras em países como Chile, Colômbia, Panamá e México. Como exemplo, ele lembra a taxação de 10% sobre a remessa de dividendos ao exterior, aprovada em apenas 60 a 70 dias.

A burocracia também pesa para os europeus. Quiroga relata que perguntou a um fazendeiro alemão quais eram seus principais problemas e ouviu uma lista de cinco itens, todos iguais: “burocracia, burocracia, burocracia, burocracia, burocracia”.

Para o executivo, esse tipo de produtor poderia passar a ter fazendas no Brasil com o acordo assinado. “Os acordos estão aí para quebrar a regra e quebrar a burocracia”, diz.

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