Guerra no Líbano ameaça habitat do damão-do-cabo sírio

Os ataques israelitas no sul do Líbano estão a provocar a destruição dos habitats da espécie damão-do-cabo sírio e colocam em risco a sua sobrevivência. Este é o alerta deixado por Hisham Younes, fundador e presidente da organização ambientalista Green Southerners, ao The Guardian.
“As consequências [da guerra] vão além da destruição de um único terreno fértil ou de uma rede de abrigos. A fragmentação do habitat pode tornar-se uma séria ameaça à sobrevivência [da espécie]”, afirma Younes, devido ao possível isolamento de colónias de damão-do-cabo sírio e enfraquecimento da conectividade entre espécimes em ambientes que já se encontram frágeis.
O damão-do-cabo sírio (Procavia capensis syriaca) é uma subespécie do damão-do-cabo que habita na região do Levante, onde é conhecida como tabsoun. É um mamífero peludo que habita em formações rochosas e a sua situação é descrita como “estável” pela União Internacional para a Conservação da Natureza. Depende “quase inteiramente das fissuras e cavidades de calcário cárstico para abrigo e de vegetação costeira esparsa para comida”, refere Younes, sendo que os seus habitats e fontes de alimento estão a ser colocados em causa pela guerra.
Por exemplo, ao redor de Majdal Zoun, existiam colónias da espécie, mas imagens de satélite após grandes detonações a 26 de junho “mostram alterações profundas nesses habitats“, algo que também sucedeu em Qantara “onde a paisagem circundante sofreu destruição em grande escala”. Além disso, um ataque contra um bairro em Bayada, na costa sul do Líbano, a 30 de abril, provocou explosões ouvidas a mais de dez quilómetros de distância e “pareceram afetar diretamente uma área onde se sabe existir pelo menos uma colónia”.
Se as explosões desestabilizam o habitat através da fragmentação de sistemas de refúgio subterrâneos, que perturbam os padrões de deslocação, as demolições de infraestruturas por parte do exército israelita emitem gases como monóxido de carbono e óxido de azoto, decorrentes da detonação, que podem afetar os solos, a água e o ar circundantes. “Em paisagens cársticas, estes contaminantes podem espalhar-se rapidamente através de fraturas interligadas, grutas e sistemas de águas subterrâneas devido à elevada permeabilidade do calcário”, alerta Younes.
Além disso, as ondas de choque e os colapsos nas estruturas dos habitats podem alterar o ecossistema, mais concretamente a humidade, as temperaturas das grutas e o fluxo do ar, que podem ter graves implicações em várias espécies, incluindo o damão-do-cabo sírio, que “depende de abrigos rochosos estáveis para a termorregulação, reprodução e para escapar a predadores”.
Os danos na vegetação provocados pela contaminação dos solos são outro fator que influencia a sobrevivência da espécie, pois depende de arbustos baixos e plantas costeiras para alimentação. Além disso, várias munições usadas nos ataques israelitas são compostas por fósforo branco. Estas armas não são totalmente ilegais — apenas se forem usadas contra civis — mas a sua exposição é muito perigosa e pode provocar queimaduras, problemas oculares e respiratórios, e morte, segundo a Organização Mundial da Saúde, além de contaminação do subsolo e da água.
“Teme-se que fragmentos em combustão ou resíduos possam entrar ou ficar alojados nas fissuras e fendas usadas pelos damões e outra fauna como refúgios, para além dos potenciais efeitos do químico no solo e no ecossistema do solo”, alerta Younes.
Contactadas pelo The Guardian, as Forças de Defesa de Israel (IDF, sigla inglesa) assumem que usam conchas de triagem de fumaça com fósforo branco para criar cortinas de fumo e não causar incêndios, e garantem que tomam medidas para minimizar os danos dos ataques no meio ambiente.
“As IDF não têm como alvo a vida selvagem e não realizam ataques contra a vida selvagem. A atividade operacional é dirigida exclusivamente contra alvos militares e é conduzida com consideração pelo meio ambiente circundante”, asseguram.
Apesar das preocupações levantadas, Hisham Younes refere que a avaliação dos danos diretos e indiretos da guerra continua a ser “difícil”, devido à falta de acesso às áreas afetadas, como as encostas que rodeiam o Castelo de Beaufort, Naqoura e Bayada, alvos de ataques e intensos bombardeamentos por parte de Israel. Além disso, a ausência de levantamentos sobre a população de damões por parte das autoridades libanesas “também dificulta a avaliação rigorosa das tendências populacionais”.
As consequências da guerra não afetam apenas esta espécie. De acordo com um relatório do Conselho Nacional de Investigação Científica do Líbano, que aborda a recuperação pós-guerra, o desaparecimento de uma espécie pode colocar em causa a sobrevivência de sistemas ecológicos inteiros, devido à rutura de interações ecológicas como a polinização.
“O verdadeiro custo ecológico do conflito ainda não pode ser medido. Quando a guerra finalmente terminar, as casas poderão ser reconstruídas; mas reconstruir sistemas geológicos e comunidades ecológicas que evoluíram ao longo de milhares de anos será incomensuravelmente mais difícil”, conclui.
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