Descompasso entre vendas e produção é maior do que parece no Brasil, diz presidente da Nissan
São Paulo O descompasso entre as vendas e a produção de veículos no Brasil é maior do que os números oficiais sugerem. Essa é a visão de Ricardo Gondo, presidente da Nissan do Brasil. O executivo, que assumiu o cargo há pouco mais de dois meses, vê problemas no avanço dos regimes CKD e SKD, em que os carros são importados em partes ou parcialmente montados.
Pelos números oficiais da Anfavea (associação das montadoras), a produção de veículos leves e pesados registrou alta de 8,7% entre janeiro e setembro, com 2,17 milhões de unidades fabricadas. Entretanto, Gondo afirma que, ao se excluir os processos CKD e SKD da conta, a alta é de 2,5% na comparação com os primeiros nove meses de 2025.
No mesmo período, as vendas acumulam alta de 18,1%, com 2,26 milhões de unidades emplacadas. "A boa notícia é que o mercado está crescendo, com expectativa superior a 3 milhões de unidades comercializadas em 2026", diz o presidente da Nissan do Brasil, sem esconder a preocupação com os rumos do setor.
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"O mercado neste ano está bastante complexo, com transformações rápidas acontecendo", afirma o executivo, usando como exemplo as mudanças na preferência do consumidor, que antes optava por sedãs e agora deseja SUVs. "A transição acontecia de forma gradativa, mas a velocidade mudou."
Gondo diz que essa variação do ritmo iniciou-se há menos de três anos no Brasil, e a razão está no avanço chinês. O público aderiu aos modelos eletrificados, e a intensidade desse fenômeno não pode ser acompanhada pela sempre conservadora indústria japonesa.
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Grande parte do crescimento da participação dos regimes CKD e SKD vem daí, puxada pelas linhas de montagem da BYD em Camaçari (BA), da GWM em Iracemápolis (interior de São Paulo), da Geely em São José dos Pinhais (PR) e dos elétricos chineses da General Motors montados em Horizonte (CE).
"A indústria automobilística envolve uma cadeia de valor extensa. A cada emprego que geramos, há outros nove ou dez nessa cadeia. Se estamos trazendo de fora, não há geração de empregos no Brasil", afirma Gondo.
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O executivo defende que haja uma política industrial e elogia programas de incentivo como o Move Brasil. "Se não houvesse esses programas, será que estaríamos aguardando um mercado de 3 milhões de unidades vendidas? Eu acho que não."
Apesar do aumento da concorrência e das críticas à estratégia fabril chinesa, a Nissan vive um bom momento no país. Foram produzidos 65.640 veículos na planta de Resende (RJ) entre janeiro e setembro, uma alta de 29,5% na comparação com o mesmo período de 2025.
A marca espera manter o ritmo de crescimento, mas, com o fim da escala 6x1, precisa readequar suas atividades industriais.
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"Eu acho que aqui não tem discussão. Em todos os países em que a Nissan atua, temos que nos adaptar às regras do jogo para a indústria, para os serviços, para todo mundo. Já estamos prontos para nos adaptar", diz o presidente da Nissan do Brasil.
"Já havia um plano preparado [para o fim da escala 6x1] e iremos implementá-lo", complementa Gondo. O executivo também afirma que, no curto prazo, a mudança na regra trabalhista terá impacto nos custos.
Enquanto a produção cresce, as vendas seguem basicamente no mesmo patamar do ano passado, com queda de 0,2% no acumulado do ano. O número parece estranho, mas é explicado pelo fim das importações do sedã Sentra, que vinha do México, e pelo fechamento da fábrica da montadora na Argentina, onde era produzida a picape Frontier. Há, portanto, menos produtos disponíveis.
Houve também um avanço nas exportações. A montadora japonesa enviou 14.716 carros para 13 países da América Latina entre janeiro e setembro, o que representa uma alta de 145% em relação a igual período de 2025. A fábrica brasileira tem ganhado relevância na região.
Mas o presidente da Nissan do Brasil não descarta que alguns produtos cheguem ao país seguindo os regimes CKD e SKD. A montadora tem estudos sobre o tema, embora ainda não haja definições.
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Em agosto, a empresa confirmou que terá seis lançamentos na América Latina nos próximos meses, sendo três com tecnologias híbridas ou puramente elétricas. A lista ainda não foi revelada, mas deve incluir modelos de origem chinesa como o sedã elétrico N7.
RAIO-X | NISSAN
- Fundação: 1933
- Sede: Japão
- Receita (2025): R$ 384,9 bilhões
- Funcionários: 132 mil
- Presença: 130 países
- Veículos vendidos (2025): 3,2 milhões
- Principais concorrentes: Volkswagen, Stellantis, Toyota, Hyundai, Honda, GM, BYD
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