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Sunday, September 27, 2026

Doula voluntária, Dona Rô acompanha gestantes em hospital público de São Paulo há 27 anos

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Doula, substantivo feminino: na Grécia antiga, mulher que auxiliava a parturiente durante o parto; que orienta gestantes a fazer exercícios físicos para diminuir as dores da bacia e o desconforto geral, na definição do dicionário Michaelis.

Rosângela Aparecida Ferro, 71, exerce a função há 27 anos. Ela presta apoio por meio do toque e da explicação. Durante o parto, explica qual é o motivo da dor que a gestante está sentindo, em que momento do parto a mulher está e atende a pedidos da mãe. As designações não definem a função para ela, que se limita a dizer: "é uma bênção divina".

Dona Rô, como é conhecida no Hospital e Maternidade Vila Nova Cachoeirinha, zona norte de São Paulo, circula pelos corredores da unidade, visitando "mãezinhas" em momentos diferentes –seja aguardando o parto, dando à luz ou se recuperando da operação.

Já acompanhou milhares de partos e fez outras milhares de amizades.

Dona Rô é moradora da Vila Cachoeirinha e se dedica a prestar apoio voluntário a gestantes do hospital, cujo público é composto em grande parte por pessoas em situação de vulnerabilidade econômica de comunidades da zona norte.

Ela é uma mulher baixa, com cabelos grisalhos cujas pontas triscam a orelha. Usa óculos de armação preta e grossa e caminha de um lado para outro sorrindo e conversando com as pessoas pelos corredores. Gosta de conversar e contar histórias dos quase 30 anos na função.

A doula integra o Programa Voluntários da Saúde da Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo (SMS). O trabalho das doulas é uma das oportunidades de voluntariado, mas não é o único. Pode-se contribuir com atividades de arte, cultura e empreendedorismo, por exemplo. Segundo a pasta, há hoje 650 voluntários na rede municipal. A administração não especifica quantos desses voluntários são doulas.

A atuação das doulas ganhou espaço nos últimos anos com a discussão sobre parto humanizado no SUS (Sistema Público de Saúde). Elas são um direito da mãe e só não participam do parto em casos graves, que podem exigir cirurgias mais invasivas. Doulas não são parteiras: elas oferecem suporte emocional, físico e informativo, e não realizam exames ou intervenções médicas.

Em 2021, o Estado brasileiro reconheceu a atividade como uma profissão e passou a exigir critérios de formação, como 120 horas de curso. A prática pode ser remunerada.

Não é o caso de dona Rô. "Jamais aceitaria receber qualquer valor. Na minha cabeça, nasci para auxiliar. Às vezes me perguntam se trabalho de graça, e eu respondo que Deus me paga em saúde."

Ao encontrar a reportagem da Folha, a doula, espírita kardecista, andava pelo corredor do alojamento da unidade com uma pilha de livros infantis nas mãos e um exemplar do Antigo Testamento. "Acabei de sair de um parto e ia levando [o livro religioso] para as mãezinhas que acreditam na palavra."

Sentada em um sofá no corredor do hospital, contou que acorda às 5h a os sábados, toma café da manhã e, às 7h, já está no hospital. Ali permanece sem horário para sair. "Às vezes troca a equipe de plantão e eu continuo aqui, vou embora de madrugada."

O ofício não atende a horários fixos. Tudo depende do momento em que o parto parece pronto para acontecer. "Eu já fui embora daqui às 3h para voltar às 5h", conta.

Segundo ela, o que despertou seu interesse pela função foi a maternidade. Ela tem duas filhas, de 43 e 39 anos, e dois netos, um menino de 12 anos e uma menina de cinco.

"Sempre fiz trabalhos voluntários e sempre me identifiquei com as gestantes. Elas vinham até mim pedir alguma orientação, e foi surgindo esse interesse. Algumas pessoas parecem nascer para o cuidado", diz.

Em 1999, um médico do Vila Nova Cachoeirinha a convidou para voluntariar na unidade.

Depois de alguns anos atuando no hospital, se qualificou por meio de um curso oferecido pela Prefeitura de São Paulo.

Rosângela vai ao hospital todas as segundas-feiras e todos os sábados, ou quando tem algum parto ou é solicitada por alguma gestante.

Em agosto, recebeu uma homenagem que afirma ser uma das mais marcantes desde sua chegada. Um casal de imigrantes bolivianos deu à primeira filha o nome de Rosângela.

Ela se esforça para falar o espanhol, mas diz que a comunicação com as mãos transcende o idioma, é algo espiritual. Diz sentir, por meio das mãos, a energia de uma mulher quando gera a vida.

Na manhã do último dia 17, Jhennyfer Victoria Rodrigues, 19, deu à luz Maitê, na companhia de dona Rô. "Me ajudou tanto na parte psicológica, pelo apoio emocional que ela deu, quanto na física, no toque, na mão dela junto à minha", afirmou.

"Quando ela chegou, eu estava pensando que estava morrendo, mas ela começou a falar coisas boas, explicar o que está acontecendo, me acalmou", disse Jhennyfer.

No pré-parto, o casal Cátia, 37, e Gildásio, 39, esperava a chegada do filho Daniel. O pai, nervoso, relatou também se beneficiar da presença da doula. "A conversa com ela me deixou mais calmo", diz.

Segundo dona Rô , ser doula exige também um investimento de tempo (e de dinheiro) em casa. Aposentada, ela complementa a renda com artesanato. Ela diz que gasta parte do dinheiro para comprar roupas para os bebês de mães carentes.

"Tem muita gente que chega aqui sem nada, menina adolescente sozinha. Tem mãe que vive em situação de rua, mãe vítima de violência sexual. Esse lugar reúne um leque de diversidade desconhecido lá fora", afirmou.

Tem muita gente que chega aqui sem nada, menina adolescente sozinha. Tem mãe que vive em situação de rua, mãe vítima de violência sexual. Esse lugar reúne um leque de diversidade desconhecido lá fora

Dona Rô também arrecada livros infantis para que as mães levem para os demais filhos em casa, como forma de incentivar a leitura.

Não consegue contar quantas mensagens recebe por WhatsApp de pais e mães que receberam o apoio durante o parto. Nem quantos presentes já ganhou –exceto um específico: "me lembro de uma barraca que um pai me deu, que até hoje meu neto brinca".

Recentemente inaugurou uma nova modalidade de acompanhamento: tem apoiado mães que estão fora de São Paulo por WhatsApp. Mas diz que é no Vila Nova Cachoeirinha que encontra material para colocar em prática um dos principais ensinamentos do espiritismo: "a caridade".

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Ela diz que não tem intenção de parar, ao menos por enquanto.

Após a conversa, dona Rô é chamada. Acompanhada pelo fotojornalista da Folha, Bruno Santos, ela vai para mais um parto, ao lado do casal Giulia, 25, e Erick, 21. E assim segue, mais 12 ou 13 vezes no dia, até se sentir pronta para ir para casa.

O projeto Saúde Pública tem apoio da Umane, associação civil que tem como objetivo auxiliar iniciativas voltadas à promoção da saúde.

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