'Por que eu penso tão rápido?', pergunta criança superdotada ao 'papa' da superdotação
"Por que eu penso tão rápido?" Essa foi uma das questões elaboradas por crianças brasileiras superdotadas, a convite da Folha, para esta entrevista com um dos maiores especialistas no assunto, o psicólogo norte-americano Joseph Renzulli, 90.
Professor emérito da Universidade de Connecticut (EUA), ele pesquisa a superdotação há mais de cinco décadas e, nos anos 1970, ajudou a mudar a maneira como se define quem é superdotado, o que, até então, era exclusivamente associado a testes de QI (em geral, QIs a partir de 130).
Criou a concepção dos três anéis, segundo a qual a superdotação se dá quando há uma intersecção entre três características, representadas por círculos: habilidade acima da média, criatividade e forte comprometimento com as tarefas.
Revolucionou a forma de se trabalhar com a superdotação na educação, ao desenvolver o Modelo de Enriquecimento Escolar. A proposta é proporcionar, inicialmente a todos os alunos, experiências variadas para despertar interesses. Os que demonstram envolvimento avançam para práticas que desenvolvem suas habilidades e, depois, para projetos em que aprofundam seus interesses e produzem algo concreto.
Renzulli reagiu com ressalvas quando soube, na entrevista, da nova lei brasileira, aprovada em junho, que define que se crie um cadastro nacional de alunos superdotados, para que eles recebam atendimento educacional especializado e sua trajetórias sejam acompanhadas.
"Um dos problemas de um cadastro é que geralmente olhamos apenas para um aspecto, os resultados de QI ou de testes de desempenho", afirmou. "E isso pode deixar de fora muitas crianças que têm interesses diversos e poderiam se beneficiar de programas de aprofundamento do conhecimento."
Oficialmente aposentado, Renzulli segue trabalhando em casa, de onde concedeu, por vídeo, esta entrevista. Orienta pesquisadores, escreve artigos e dissemina materiais de apoio à formação de professores.
"Se queremos que os países cresçam, precisamos que, cada vez mais, crianças comecem a trabalhar em suas ideias em vez de memorizar informações do quadro-negro a semana toda para fazer uma prova na sexta-feira", afirmou. "Um país grande como o Brasil tem uma quantidade ilimitada de potencial humano nos jovens. Só temos que descobrir as melhores maneiras de desenvolvê-lo."
Temos no Brasil uma nova lei para estudantes superdotados. Ela prevê a criação de um cadastro nacional para identificar esses alunos e acompanhar suas trajetórias. Em um país com um sistema de ensino complexo e desigual como o brasileiro, é possível identificar superdotados em escala nacional?
Um dos problemas de um cadastro é que geralmente olhamos apenas para um aspecto, os resultados de QI ou de testes de desempenho.
Vamos dizer que é preciso ter QI 130 para ser incluído no cadastro, e uma criança tem 129, então não é considerada... Você pode ter uma criança muito interessada em ciência, por exemplo, que quer estudar, digamos, a migração de piranhas na Amazônia. Mas você diz: "Ela não está na lista, então não pode fazer isso".
Interesses fortes são tudo. E, se uma criança tem um interesse forte, ela vai trabalhar muito mais, vai gostar mais de aprender, vai produzir e criar mais. No Modelo Triádico de Enriquecimento, tentamos oferecer oportunidades para todos os estudantes, que são expostos a experiências extracurriculares de variados temas, como palestras, filmes, uma excursão a um museu de ciência ou de arte.
E isso é bom para todos. Mas as crianças que realmente ficam entusiasmadas com aquilo deveriam ter a oportunidade de ir adiante, estejam elas em alguma lista ou não.
O sr. acredita, então, que um cadastro nacional não funcionará bem?
A questão é: como se entra na lista? Se vamos colocar crianças na lista somente com base em um resultado de inteligência ou de desempenho, vamos deixar de fora muitas que têm alta criatividade, alto comprometimento com a tarefa. E essas duas habilidades são tão importantes quanto a capacidade acima da média. E, quando digo capacidade acima da média, não quero necessariamente dizer capacidade superior. Quero dizer que elas podem ser mais inteligentes do que a média. Isso não significa que tenham QI 130.
E isso é importante para um país porque são esses tipos de pessoas que impulsionam a economia. São as pessoas que abrem empresas, escrevem livros, fazem pesquisas. E o que as pesquisas nos dizem é que muitas das pessoas famosas por grandes feitos e invenções não necessariamente tiveram um QI superalto. Mas tinham, funcionando juntas, as três características dos círculos [habilidade acima da média, criatividade e forte comprometimento com as tarefas]. Nos EUA não temos um cadastro nacional, até porque a educação é definida em nível estadual.
Ainda tem força o estereótipo do superdotado gênio da matemática?
Falo sobre dois tipos de superdotação. Um é a superdotação na aprendizagem de lições. Esses alunos aprendem muito bem o currículo. Vão bem nos testes, têm notas altas. O outro tipo é a superdotação criativo-produtiva. Eles produzem coisas, participam de competições de ciências, de redação, de teatro. E essas competições podem ser boas até para alunos que não estão em listas.
Por outro lado, quando uma criança superdotada não é reconhecida, não recebe apoio para desenvolver suas habilidades, ela pode sofrer muito...
Pode ser muito frustrante, e não somente para os superdotados. Crianças com interesses fortes, curiosidade, criatividade e comprometimento com as tarefas podem ficar extremamente frustradas. A formação dos professores é essencial. Eles devem ser formados para identificar esses alunos de maneiras diferentes, não apenas com provas. Desenvolvemos instrumentos para auxiliá-los. O mais conhecido é chamado de Interest-A-lyzer. Crianças ou adultos respondem a perguntas que nos ajudam a identificar seus interesses mais fortes. Temos vídeos também para orientar professores.
Qual é o maior erro que a sociedade comete em relação aos superdotados?
O maior erro é que damos crédito demais a provas. Por que não avaliamos também quantas crianças escreveram e publicaram artigos, poemas, histórias, fizeram filmes, participaram de competição de ciências, se apresentaram em uma peça de teatro? É mais importante do que simplesmente olhar para resultados de provas. Isso estrangula o sistema educacional, que está estagnado porque se baseia em quanta informação posso despejar na cabeça das crianças para que elas façam provas. E informação obviamente é importante, mas não tem valor se não for usada para criar ou produzir alguma coisa.
Passo, agora, aos estudantes superdotados convidados pela Folha para elaborar perguntas ao sr.
Alexandre Almeida, 19, estudante de medicina da USP: "No passado, pensava-se que a superdotação era predominantemente determinada por fatores genéticos, mas pessoas como o sr. mostraram o papel desempenhado pelo ambiente no qual uma pessoa superdotada se desenvolve. Estamos mais perto de compreender como diferentes aspectos do ambiente influenciam o desenvolvimento da superdotação?
Não podemos fazer nada a respeito dos efeitos genéticos, podemos? Mas podemos fazer a respeito dos efeitos ambientais. Costumo falar dos três "Es": Enjoyment [prazer], que leva a Engagement [engajamento], que leva a Experiences [experiências] em aprendizagem mais avançada. Podemos proporcionar aos jovens atividades prazerosas. Nem toda atividade será prazerosa para todos os estudantes, mas para uma, duas, cinco crianças que levantam a mão para fazer perguntas. Isso deveria ser um ponto de partida que leva a algum tipo de engajamento, a se fazer alguma coisa com aquela energia, com aquele interesse.
Interesse, para mim, é o núcleo de tudo para a produtividade criativa. O debate sobre o fator genético tem sido um dos mais longos na história do estudo da superdotação. Sim, há pessoas que são tradicionalmente mais inteligentes no que chamo de superdotação escolar. Elas aprendem bem suas lições, tiram boas notas. A ideia, porém, é fazer com que usem essas informações para criar alguma coisa que seja útil para algum público.
Outra pergunta do Alexandre: "Vivemos em um mundo com redes sociais e temos associações para pessoas superdotadas, mas, ao mesmo tempo, estamos mais isolados, as pessoas tendem a se encontrar e interagir menos. Quais são os principais desafios de socialização para um superdotado?"
As redes sociais mudaram o mundo e podem ser usadas de maneiras positivas, para realmente aproximar as pessoas. Vi alguns projetos em que crianças dos EUA, do Vietnã e da Coreia do Sul estavam todas trabalhando juntas, via redes sociais, em um determinado projeto.
Rafael Kessler, 12: "Que conselho o sr. daria a uma criança superdotada que, aos 10, inventou uma fórmula matemática, criou uma língua e desenvolveu nomes para números extremamente grandes. Esse menino sou eu."
O melhor conselho é tentar encontrar alguém em uma universidade próxima, algum órgão do governo ou empresa que possa ajudar essa criança. Professores de sala de aula regular talvez não consigam dar esse tipo de ajuda. Oportunidades, recursos e experiências que temos por meio das redes sociais podem ajudar, por exemplo, a colocar essa criança para conversar com um professor famoso online, explicando seu trabalho. Não seria bom se uma criança interessada em poesia pudesse conversar com o poeta mais conhecido do Brasil?
A segunda pergunta do Rafael: "Tenho uma curiosidade muito incomum e gosto de criar coisas que ainda não existem. O que crianças como eu podem fazer para desenvolver mais essas ideias, transformar essa curiosidade em conhecimento e, no futuro, contribuir para a ciência e a sociedade?"
Comece localmente. Encontre outras crianças com interesses semelhantes, que podem estar em outras séries, para trabalhar em projetos com você. E vá para a internet, onde poderá entrar em contato com pessoas famosas que trabalham na sua área de interesse.
Sara Gomide, 10: "Por que não consigo dormir longe de casa, com outras crianças [especialmente em viagens escolares e na casa de amigos]?"
Muitos estudos têm sido produzidos nos últimos anos sobre o desenvolvimento social e emocional dessas crianças. Sempre nos sentimos melhor quando estamos com quem compartilha os mesmos interesses, que respeitam o fato de não necessariamente acreditarmos nas mesmas coisas. Interações sociais são importantes. Não fique com as crianças que estão xingando você. Encontre outras que gostem do que você gosta.
E a última pergunta da Sara: "Por que eu penso tão rápido?"
O cérebro humano é muito complexo. E algumas pessoas pensam rápido, algumas, devagar, outras, só sobre certos tipos de coisas. Não tenho uma resposta fácil. Deveríamos encorajar e recompensar as crianças por sua curiosidade, por sua disposição de querer estudar alguma coisa nova ou se reunir com quem tem interesse naquela área. E, se você estiver com pessoas com os mesmos interesses, não vai ser xingada por ser inteligente.
Raio-x - Joseph Renzulli, 90
Professor emérito da Universidade de Connecticut (EUA), que abriga o Centro Renzulli para Criatividade, Educação de Superdotados e Desenvolvimento de Talentos, referência global no desenvolvimento de metodologias pedagógicas voltadas para altas habilidades e superdotação. Ganhou, em 2009, o prêmio Harold W. McGraw, Jr., um dos mais renomados do mundo na área educacional.
KioskNews shows a cleaned-up reading view extracted from the publisher’s page — the original always lives on their site, not ours.