O que explica a vitória surpresa de Lula?

Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Vamos conhecer o tema do Contracorrente desta segunda-feira. Depois, pra entrar em direto, só tem que ligar 91 002 41 85, é o número que também pode usar pra nos enviar a sua mensagem de voz pelo WhatsApp, se preferir. Pode deixar os seus comentários nas redes sociais ou no site do Observador. Carla. Lula da Silva conseguiu ontem ser eleito para um quarto mandato numa segunda volta marcada pela descida da abstenção, o prolongamento da votação por mais duas horas, decidido por um aliado do presidente em condições discutíveis, fez com que Flávio Bolsonaro pedisse a repetição do escrutínio, o que é altamente improvável que aconteça. Importa, por isso, perceber por que aconteceu o que poucos esperavam e a quase totalidade das sondagens não previa que sucedesse. Bom dia, José Manuel. Tens pistas para esta reviravolta? O que aconteceu?
Bom dia. Eu acho que a explicação clara foi uma redução da abstenção. Essa redução foi inclusivamente maior, aparentemente, nas zonas do país onde Lula tem mais apoio, e isso acabou por permitir que acontecesse aquilo que muitos viam como quase impossível e as sondagens não previam, de facto. Como tu disseste, eu creio que praticamente nenhuma. No Brasil publicam-se dezenas de sondagens. Há cinco, seis, sete, oito sondagens por dia, até com amostras relativamente grandes, mas de facto uma das coisas mais difíceis de prever numa eleição é a taxa de abstenção e quem é que se abstém ou deixa de se abster. E aparentemente foi aí que houve a surpresa. Agora, isto não abre para o Brasil uma situação de muita facilidade na governação. Tudo apontava, depois da primeira volta, para uma situação de domínio do partido PSL, o partido de Bolsonaro, que tem maioria no Senado, ou tem domínio no Senado, tem muitos governadores. Ainda ontem, Bolsonaro, dos seis governadores que iam à segunda volta, quatro dessas eleições foram pra apoiantes de Bolsonaro e só duas para apoiantes de Lula. O Brasil é uma república federal, o presidente não manda em tudo, mas manda em muita coisa, como se sabe. E uma das coisas que vai ser mais interessante de verificar é uma das promessas feitas ontem à noite por Lula da Silva, quando disse que ia dar mais atenção ao tema da segurança. E referiu que a segurança em boa parte está descentralizada para os estados. E importa ver aquilo que ele possa ou não fazer nesse domínio, sendo que alguns dos estados onde os índices de criminalidade são maiores, são precisamente os estados do Nordeste, onde há algumas cidades que estão entre as mais violentas do mundo. Independentemente disso, Lula disse que vai trabalhar com o Congresso, que é um Congresso que lhe é oposto, e vai resultar daqui um equilíbrio difícil e que vai também passar por algo que ontem voltou a provar ser um dos grandes problemas da democracia brasileira. Esse problema chama-se sistema judicial. O Supremo Tribunal entrou na campanha, entrou quase sempre mal. Na primeira volta, houve várias decisões do Supremo Tribunal que bloquearam debates, por exemplo, tendo tido interferência na liberdade de informação. Há enormes polêmicas em torno de alguns juízes, designadamente Alexandre de Moraes. Parece continuar a haver a intenção da maioria liberal do Senado de fazer o impeachment, de afastar Alexandre de Moraes. Evidentemente, depois será Lula a designar um novo juiz. O que se passou ontem, de resto, na interferência do Supremo Tribunal nas regras eleitorais é absolutamente surpreendente e de deixar qualquer pessoa que sabe que a democracia é o domínio das regras, no mínimo preocupado. Vamos falar um pouco disso, vamos falar como é que, de repente, um juiz que tinha sido advogado de Lula da Silva nos seus processos judiciais, que entretanto ele nomeou pro Supremo, acaba por ser ele a decidir, de uma forma muito trapalhona, um prolongamento das eleições, numa altura em que em muitas urnas já não foi possível haver esse prolongamento, porque já foi feita a decisão depois das urnas estarem fechadas. Não se sabe exatamente quantas pessoas estão envolvidas nisto, quantas pessoas votaram ainda depois da hora, como é que tudo isso se passou. Há aqui, de facto, dúvidas, e isto passando por cima do Supremo Tribunal Eleitoral, que até praticamente à mesma hora estava a dizer que não havia necessidade de prolongar. Isto são comportamentos que põem em causa a lisura do processo eleitoral. Não é a primeira vez que sucede no Brasil, mas agora assume-se uma dimensão sem precedentes. Se isto acontecesse em Portugal, nos Estados Unidos, em França, Inglaterra, onde quer que fosse, deitaríamos as mãos à cabeça e não podemos deixar de deitar, porque um dos problemas da democracia brasileira é precisamente o facto de os juízes acharem que podem governar, quase. As coisas parecem resolver-se nos tribunais, resolvem-se através de processos judiciais, muitas vezes conduzidos de forma muito duvidosa. E isto é, porventura, um dos grandes desafios que o Brasil vai ter pela frente, porque enquanto esta situação se mantiver, com um país tão polarizado, vai continuar a haver muitas razões para tensão. Vamos tentar perceber isso, perceber também qual é a situação econômica, quais são as perspectivas do novo governo Lula, o que ele pode ou não pode fazer, já que ele vai entrar com índices de popularidade que dificilmente serão revertidos só por ter ganho as eleições. São muito baixos.
Muito bem. Até já, José Manuel.
Até já.
Faça parte do Contracorrente 91 002 41 85. Entra em direto logo a seguir ao Jornal das 10.
KioskNews shows a cleaned-up reading view extracted from the publisher’s page — the original always lives on their site, not ours.